Nietzsche tinha razão. Por Meraldo Zisman

Nietzsche Tinha Razão

… piau, mandobé, matrinxã, branquinha e outros peixes dos quais o rio Parnaíba era piscoso (não sei agora). As crianças iam com seus genitores, ordenadas a fazer cocô na hora da pesca. Fezes estas ricas em lombrigas. Ótimas para tornarem-se iscas vivas.

O rio Parnaíba, também conhecido como Velho Monge é um rio brasileiro que divide politicamente os estados do Maranhão e do Piauí. É o maior rio genuinamente nordestino sendo navegável em toda sua extensão e, como já é sabido, no Nordeste grassa a verminose e a fome ancestral. A população alvo (escolhida) foi habitante das regiões ribeirinhas desse rio. Não podíamos entender a causa da ausência da fome ancestral causada pela falta de proteína em determinadas populações, principalmente nas crianças, justo em determinadas localidade de pescadores.

 O produto a ser testado era um anti-verminótico polivalente, dose única, o que tornava a pesquisa de campo bastante factível. A aplicação erradicava a maioria dos parasitas intestinais e tinha a vantagem de ser administrado à vista do pesquisador, índice de abstinência máxima. Seis meses depois far-se-ia o controle com base no exame de fezes realizado antes da desparasitação… Bastariam comparar o percentual de vermes entre as duas amostras de fezes.

 Há grande prevalência de verminoses, principalmente por áscaris lumbricoides (popularmente conhecido como lombriga, chegando até 40 cm de comprimento). Estimativas sugerem que, em todo o mundo, mais de 1 bilhão de pessoas sejam por elas contaminadas. Por segurança, tornamos seis meses depois e aplicamos uma segunda dose para testar a segurança e o efeito da desparasitação. Passaram-se doze meses da segunda dose, quando a equipe de sanitaristas retornou para novos exames de fezes, conforme reza o protocolo da investigação e, para surpresa dos pesquisadores, foi recebida inamistosamente, principalmente pelos anciões das aldeias avaliadas.

cautela com a Natureza, pois nem sempre ela corresponde às vontades humanas…

 Havia um costume passado de geração a geração dos pais levarem os filhos e filhas para a pescaria: piau, mandobé, matrinxã, branquinha e outros peixes dos quais o rio Parnaíba era piscoso (não sei agora). As crianças iam com seus genitores, ordenadas a fazer cocô na hora da pesca. Fezes estas ricas em lombrigas. Ótimas para tornarem-se iscas vivas.

A desnutrição proteica alastrava-se entre as crianças e até em alguns adultos. Em lugar de melhores condições de vida, a condição daqueles marginalizados havia se agravado, pois, junto com a ausência de vermes, veio à desnutrição por falta de proteína; assemelhada à das demais da região avaliada. Pergunta vai, pergunta vem, consegui traduzir para o inglês o que os habitantes reclamavam dessa missão da Organização Mundial de Saúde. No entanto, patrocinado pela Organização Mundial da Saúde, iniciou-se um programa para a erradicação da verminose no vale do rio Parnaíba.

“Eu também quero a volta à Natureza; mas essa volta não significa ir para trás, e sim para frente” (Friedrich Nietzsche, 1844-1900) ou, como está escrito em determinadas propagandas sobre a ecologia ou desenvolvimento sustentável: “Você deve sempre cuidar da natureza, mas não espere dela maiores considerações”. A fome proteica grassou idêntica à das crianças que moravam longe do rio. Nada contra os ecologistas e o desenvolvimento sustentável. Porém, cautela com a Natureza, pois nem sempre ela corresponde às vontades humanas…

Nietzsche tinha razão.

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Meraldo ZismanMédico, psicoterapeuta. Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha)

1 thought on “Nietzsche tinha razão. Por Meraldo Zisman

  1. O Dr. Meraldo Zisman continua chamando a atenção do leitor para o gravíssimo problema da desnutrição no Nordeste brasileiro. Um alerta do médico, que, presencialmente ou não, continua a cuidar de seus pacientes. Parabéns! Congratulations!

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