E o artista fugiu pela porta dos fundos da editora. Por Antonio Silvio Lefèvre

E o artista fugiu pela porta dos fundos da editora

Por ANTONIO SILVIO LEFÈVRE

… Tenho certeza de que Lozza nunca soube que o rosto de Prestes que pintara era o verdadeiro, já que não tinha feito plástica alguma. E nem devem ter-lhe mostrado a foto (de costas) que tinham tirado de Prestes na famosa entrevista.

Eu  conheci Carlos Alberto Lozza em 1970, quando voltei do exílio na França e comecei minha carreira de editor na Abril Cultural. Mas ele já estava na Abril há alguns anos, tendo sido diretor de arte da revista Quatro Rodas, cujo logotipo  criou e também da revista Realidade, na qual pintou retratos de personalidades para capas históricas.

O mais famoso desses retratos foi o do líder comunista Luis Carlos Prestes, para ilustrar sua entrevista, publicada pela revista em dezembro de 1968, em plena ditadura. Nesta matéria o repórter Paulo Patarra descreve toda aventura que viveu até chegar ao esconderijo de Prestes, então na clandestinidade.

… Lozza, embora tivesse álibi para provar que permanecera na redação neste período, achou mais prudente escapar pela porta dos fundos do prédio.

“Este rosto não existe mais”, dizia a chamada na capa da revista, sobre o retrato de Prestes pintado por Lozza. E na matéria se explicava que ele havia feito uma cirurgia plástica para dificultar o seu reconhecimento e por isso não permitira ser fotografado.

No dia seguinte à publicação da revista, a polícia política foi ao prédio da Abril na Marginal Tietê em busca de Patarra e também de Lozza, certa de que se ele havia feito esta pintura devia ter visto Prestes e portanto saber onde estava e poder levá-la até lá… Patarra não estava no prédio: já prevendo que viriam atrás dele, fugira de São Paulo e ficaria escondido por um bom tempo. Quanto à Lozza, embora tivesse álibi para provar que permanecera na redação neste período, achou mais prudente escapar pela porta dos fundos do prédio. E felizmente o deixaram em paz nos anos seguintes, quando foi para a Abril Cultural e lá trabalhou comigo, dirigindo a arte de várias séries de fascículos e livros.

Depois de aposentado continuou pintando em casa. Sua última obra foi o retrato de meu pai, o médico Dr. Antonio Branco Lefèvre, pintado em 2015 para enfeitar o saguão da escolinha municipal que leva o seu nome, no complexo do Hospital das Clínicas, em São Paulo.

Lozza morreu em 4 de fevereiro de 2017, em decorrência de um AVC. Deixou uma filha, um filho, vários irmãos, este amigo e muitos admiradores.

Pois não é que foi preciso que ele morresse para que eu, pesquisando sobre esta pitoresca história do retrato de Prestes, descobrisse uma entrevista dada por Paulo Patarra ao jornal da ABI (Associação Brasileira de Imprensa) em 2007, na qual ele faz esta revelação histórica:  “O PCB me enganou, disse que o Prestes tinha feito plástica. Não vi o rosto dele e a foto é quase de costas. Com a revista nas bancas, cara desenhada na capa, com a chamada “Este rosto não existe mais”, estourou o Ato 5. Fugi durante seis, sete meses. Fiquei no Hotel Delfim, em Guarujá, por conta da Editora Abril. Tinha medo de que os militares me pegassem e torturassem para saber onde estava o velho”.

A reportagem sobre Prestes, ilustrada por Lozza, foi o último trabalho de Patarra na Realidade e lhe rendeu um Prêmio Esso de Jornalismo, que ele se esquivou de receber, alegando: “Tive que pedir que esquecessem. Se não, de novo, os milicos iam ficar p…”.

Tenho certeza de que Lozza nunca soube que o rosto de Prestes que pintara era o verdadeiro, já que não tinha feito plástica alguma. E nem devem ter-lhe mostrado a foto (de costas) que tinham tirado de Prestes na famosa entrevista. Se soubesse da “mentira” (proposital ou não?) da Realidade, Lozza teria me dito. Inclusive porque eu lhe havia contado que vira Prestes algum tempo antes, em Paris, num encontro de exilados na casa de Violeta Arraes, irmã do ex-governador de Pernambuco Miguel Arraes, e seu rosto me parecera o de sempre…

Mas Lozza morreu convencido de que “este rosto não existia mais”.

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ANTONIO SILVIO LEFÈVRE-  é sociólogo (Université de Paris),  editor e livreiro.Interpretou Pedrinho na 1ª adaptação do “Sítio do Pica-pau Amarelo” para a TV, em 1954. Veja no Museu da TV.

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