As delações como uma oportunidade histórica. Por Aylê-Salassié F. Quintão*

As delações como uma oportunidade histórica

Aylê-Salassié F. Quintão*

 … É preciso tirar vantagens de tudo isso. Ao assumir publicamente os erros cometidos em nome da fé, a Igreja curvou-se antes os fiéis, antecipando o pedido de perdão, e adotando medidas saneadoras. Por isso, acredita-se que, a autocrítica, mesmo no espaço da Lava Jato, ajudaria muito a desanuviar o cenário que aí está…

   Pesquisadores acadêmicos, a Justiça e a própria sociedade precisam tirar proveito “desse tempo de confissões inconfessáveis” (Cunha, 2017) para uma reavaliação profunda da realidade brasileira e a projeção de um futuro com mais objetividade. É um momento de aprendizado. Não vai salvar a Pátria, mas, segundo o procurador Deltan Dallagnol, coordenador da Força Tarefa da Operação Lava Jato, as revelações dos 150 delatores desenterram estruturas viciadas que emperram o desenvolvimento, obstruem os pensamentos e a brasilidade, a ponto de se queimar bandeiras brasileiras em praça pública.

… a delação tem permitido desvendar estruturas manipuladoras da política e da economia, com parcerias até no estrangeiro. São conjunções de interesses escusos que, ao longo da história, minaram a justiça social no Brasil e emperraram a porta de saída da pobreza.

    Há quem insista em ver na delação uma “deduragem”, traição mesmo. A referência está na militância revolucionária dos anos 60/70 nos quais, presos e torturados, terminaram por comprometer colegas. O tema chegou a desaparecer da mídia. A Comissão da Verdade restabeleceu, entretanto, a figura do delator, levantando o véu das impunidades e das violências contra os camaradas. Com isso, a delação ganhou foro jurídico, privilégios penais, e também temperos de espertezas: redução de penas, indenizações e visibilidade na televisão. A Lava Jato expôs, entretanto, o cinismo dos delatores à perda do respeito público e até familiar.

     O importante, contudo, é que a delação tem permitido desvendar estruturas manipuladoras da política e da economia, com parcerias até no estrangeiro. São conjunções de interesses escusos que, ao longo da história, minaram a justiça social no Brasil e emperraram a porta de saída da pobreza. O reconhecimento do erro, intuído pela boa fé, poderia representara busca pela reconciliação com a verdade. Confessa-se o pecado, e dispõe-se a cumprir a penitência judicial: pagar por erros com o quais não se consegue conviver socialmente.

     Corresponderia quase a uma autocrítica: “tarefa inadiável de reconhecer os próprios erros, analisar suas causas e discutir os meios pelos quais possam ser corrigidos” (Dix Silva, 2006). Caberia ao indivíduo ou ao grupo analisar os caminhos seguidos, atos e formas, atitudes e interpretações, os desvios, com o fim de promover uma correção de rumos. De uma perspectiva revolucionária aplicar-se-ia a uma doutrina, a um comportamento social, ou a um partido. A Ala Vermelha do Partido Comunista do Brasil deixou uma bela experiência sobre o tema.

… Aquele riso dava a impressão mais de aflição, e não um deboche, com o cenário fantasioso que, surpreendentemente, eles ajudaram a criar e a manter. Provavelmente, reconheceram a prática de ações grosseiras, com proporções tão imensas, que riram para não chorar de efeitos que nunca imaginaram.

     É um método recomendado aos socialistas, como forma de manterem-se alinhados à realidade e de corrigir desvios no curso de revoluções e governos. A direita chama isso de avaliação, reavaliação ou balanço. Nada contra. O filósofo marxista húngaro István Mészáros (2006) observa que “… o pensamento marxiano – estudiosos da obra de Marx – não é um sistema fechado, sagrado, que não possa ser modificado, retrabalhado, inclusive, a partir de categorias externas que se mostrem razoáveis”. Para ele, a autocrítica é propulsora de novas visões e táticas. “Mas, adverte, não necessariamente de avanços teóricos”. O problema estaria, de fato, nas categorias que a praticam.

    Por aí, parece que somente a esquerda disporia da prerrogativa da autocrítica. A direita não. A delação da direita seria “deduragem” mesmo, e assim é aceito o comportamento de Emílio e de Marcelo Odebrecht que, diante de Sérgio Moro, acharam graça da situação que patrocinavam. Aquele riso dava a impressão mais de aflição, e não um deboche, com o cenário fantasioso que, surpreendentemente, eles ajudaram a criar e a manter. Provavelmente, reconheceram a prática de ações grosseiras, com proporções tão imensas, que riram para não chorar de efeitos que nunca imaginaram. Remete à complexidade das análises de Hanna Arendt.

    Inspiradora também é a advertência de György Lukács trinta anos atrás: “Na raiz dos problemas nacionais está uma modalidade de oportunismo que é, talvez, a mais grave das deformações legadas por Stálin: ao invés de utilizar os princípios teóricos gerais do marxismo para corrigir a ação prática, os revolucionários subordinaram-se mecanicamente às necessidades imediatas, às exigências momentâneas da atividade política”. Com isso, teriam renunciado à perspectiva marxista da unidade da teoria e prática, perdendo a sua profundidade revolucionária. Os efeitos seriam catastróficos, advertiu.

     No Brasil, o momento requer uma profunda autocrítica, prática que parece ter sido abandonada. Foi substituída por táticas de lutas, num estilo paranoicamente stalinista, condenado também por Lukács (1968), como “oportunismo”. Na expectativa de transformar os trabalhadores em agentes do partido da vanguarda revolucionária, ingênua para a pós-modernidade, a “nova esquerda” mistura-se convenientemente ao sindicalismo neoliberal.

     É preciso tirar vantagens de tudo isso. Ao assumir publicamente os erros cometidos em nome da fé, a Igreja curvou-se antes os fiéis, antecipando o pedido de perdão, e adotando medidas saneadoras. Por isso, acredita-se que, a autocrítica, mesmo no espaço da Lava Jato, ajudaria muito a desanuviar o cenário que aí está. As delações são uma oportunidade rara para o desmonte da máquina de dominação que as elites construíram ao longo da história neste País. A sociedade deveria temer, de fato, aqueles que se recusam a fazê-la.

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Aylê-Salassié F. Quintão* – Jornalista, professor, doutor em História Cultural

 

 

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