Diana, Princesa. Por José Couto Nogueira

Diana, Princesa

*Por José Couto Nogueira

Hoje, 20 anos depois, Diana é um ícone indiscutível

ARTIGO PUBLICADO ORIGINALMENTE NO DOM TOTAL- EDIÇÃO DE 5 DE SETEMBRO DE 2017
Há, e sempre houve, as princesas das casas reais; mulheres boas, más e assim-assim, que por razões que não a sua vontade – heranças, acordos, pactos, negócios e concupiscências – se viram em situações de grande importância  nos seus países. Algumas nem fizeram o que lhes competia, dar herdeiros à coroa, e conseguiram passar despercebidas (caso de Catarina de Bragança, esposa de Carlos II de Inglaterra). Outras usaram o poder inerente ao cargo para fazer política, alta e baixa, e causaram bastantes estragos (como Catarina de Médici, mãe de Carlos IX de França, que mandou massacrar os Huguenotes). Outras, ainda, foram umas santas que influenciaram sábias decisões e boas obras (D. Leonor, casada com D. João II, fundadora da Misericórdia.) Enfim, houve de tudo, como em qualquer outra classe social.
Depois há, sempre houve e haverá, o Mito da Princesa. Bonita, inteligente, honesta, magnânima, um exemplo para todas as mulheres do vulgo que não nasceram em berço de ouro nem tiveram oportunidade ou talento para brilhar. Esse Mito independe da época e até da política – quantos republicanos não se comovem com o destino cruel de Maria Pia de Sabóia (a “Mãe dos Pobres”, esposa de D. Luís I) que acompanhou a terrível agonia do marido? Quantos democratas não admiram a espetacular malvadez de Cersey Lanister (rainha de Westeros pela morte do pai e por artimanhas do diabo)?
Nestes tempos de pouca fé e baixa consideração por quem nasceu no privilégio e vive no luxo, poucas princesas, reais ou fictícias, conseguem passar no crivo feroz da comunicação e das redes sociais sem censura, para representar o Mito na sua plenitude – um misto de deslumbramento e ingenuidade.
É tão difícil que pode dizer-se que neste momento da História pode só há uma. Chama-se Diana e morreu há vinte anos, em circunstâncias inconvenientes e mal esclarecidas. E porque passam precisamente vinte anos sobre a sua morte, ocorrida em 31 de Agosto de 1997, é altura de fazer o balanço da sua vida e descortinar como se formou o Mito.
É o que toda a comunicação social e os fazedores de opinião têm feito. A BBC, com a classe que só a BBC tem, produziu um documentário onde consegue mexer na ferida sem fazer sangue. Jornais, revistas, blogues, pasquins e comentadores avulsos interrogam-se sobre este fenômeno inusitado: uma mulher com qualidades e defeitos que levou uma vida de altos e baixos e se transformou num Mito. O Mito da Princesa, em pleno século XX/XXI.
As biografias independentes (de crenças, ideologias ou interesses) todas concordam nos passos da sua vida. E todas fazem as mesmas perguntas. Filha da pequena nobreza, como é que chamou a atenção da família real? O seu casamento foi organizado, ou proporcionado, por quais interesses? Quanto é que ela descobriu que o Príncipe Encantado era um pretensioso vazio e arrogante? E que já tinha uma amante, que não descartou só por se casar?
Por mais enxerida que fosse, é evidente que aquela garota simpática e extrovertida não fazia ideia onde se estava metendo. Terá visto o futuro marido apenas treze vezes antes do enlace. E desconhecia por completo o ambiente abundantemente cerimonial e altamente competitivo do Palácio. Os Windsor eram (e são) uma família cujo único objetivo consiste em manter o seu estatuto, rodeada por lacaios e arrivistas entrincheirados num protocolo centenário.
A rapariga tinha carisma, lá isso tinha. O seu sorriso doce, a atitude ao mesmo tempo protocolar e solta, as breves tiradas que lhe era permitido ventilar, tudo contribuiu para a tornar numa Princesa apreciada. Não precisava de fazer muito, até porque nada tinha para fazer; bastava-lhe aparecer e largar uma gracinha.
A família real vinha de uma pompa imperial , quando era intocável  (a Rainha Victória, lembram-se?) e tentava navegar com dignidade na nova realidade dum país com a imprensa tablóide mais amoral e assassina que alguma vez a Humanidade conheceu. Os “Royals”, como lá lhes chamam, são venerados pela grande maioria da população, em negação sobre o fim do Império que eles representam. Enquanto Isabel for abrir o Parlamento de carruagem dourada rodeada de pajens, ataviada com os maiores diamantes do mundo, parece que a Britânia ainda comanda os mares.
Mas, por outro lado, essa população aduladora tem um lado mórbido e maldoso que os tabloides exploram até à exaustão. Nenhum dos “royals” – aqui se incluem primos e consortes de todas as idades, até à terceira geração – pode dar um pum sem que o país inteiro tome conhecimento, a maioria das vezes sob as piores cores. Uma pequena tribo frágil e deslumbrante, rodeada por lobos uivantes que a olham com espanto, enquanto esperam carniça para roer. Talvez esta imagem seja muito Dostoievsky, mas certamente que resume a redoma onde a não muito esperta Diana (opinião dela própria) subiu da província se supetão.
A rapariga tinha carisma, lá isso tinha. O seu sorriso doce, a atitude ao mesmo tempo protocolar e solta, as breves tiradas que lhe era permitido ventilar, tudo contribuiu para a tornar numa Princesa apreciada. Não precisava de fazer muito, até porque nada tinha para fazer; bastava-lhe aparecer e largar uma gracinha.
Em compensação, a popularidade da família real ia de mal a pior. As diversas escapadelas, bebedeiras e “fait divers” dos seus membros apareciam diariamente a cores nas capas dos jornais. Atitudes anteriores de postura moral – como a recusa de casar a irmã da rainha, Margareth, com plebeus, para acabar deixá-la casar com um plebeu nobilitado à pressa – eram agora relembradas como sinais dum autoritarismo esnobe e envelhecido. As gafes do Príncipe Consorte Philip, um tipo com muito estilo e pouco discernimento, eram vistas com um misto de comiseração e ridículo. Para não falar do herdeiro, o Príncipe Encantado propriamente dito, que sempre que abria a boca entrava mosca. Os seus comentários sobre arquitetura, geografia ou qualquer outra ciência, eram ridicularizados pelos cientistas e odiados pelos opinadores. Um tipo antipático, pouco à vontade no papel de eterno esperante que a mãe morresse para assumir um papel em que, presumia-se, não lhe ia cair nada bem.
Diana diria mais tarde, quando já dizia o que lhe apetecia no amargo de boca, que a noite de núpcias foi a pior da sua vida. Mau, também, o tratamento dentro do Palácio, onde ninguém a ajudava a integrar-se nas complexidades do dia a dia. Só lhe ensinaram o sagrado protocolo dos aparecimentos em público, não fosse borrar a imagem. No privado, que descobrisse sozinha. Carlos, distante, terá dito por estas alturas – ou mais tarde, referindo-se à época – que não seria o único Príncipe de Gales da História sem uma amante.
Enquanto Diana aprendia à sua custa a atravessar o campo minado dos salões, o público escolhia-a como a mais simpática – a mais palatável, no mínimo – de todos os Royals.
Depois veio a queda, para grande gáudio da imprensa e surpresa das proles: a 9 de Dezembro de 1992 foi tornado público que Charles e Diana se iam separar “amigavelmente”. O anúncio foi feito pelo Primeiro Ministro John Major no Parlamento, dado que se tratava de um assunto de Estado. (Só para que conste: o casamento foi em 1981, William nasceu em 1982 e Henry em 1984.)
Desfeito assim o encanto, seguiu-se um período terrível em que o público descobriu a tal amante permanente de Charles, uma “tia” sem sal como o herdeiro, casada ainda por cima, antipática, encurralada num papel de má da fita que até hoje não passou. A imprensa tabloide, sempre a chafurdar, descobriu gravações entre Charles e Camilla, assim se chamava a criatura, em que o amante faz declarações íntimas – as mesmas declarações que todos os namorados fazem às namoradas mas que, na boca de um príncipe e amplificadas na praça pública, soavam como abominações capazes de derrubar o Império que já não era.
O pânico da Casa Real era evidente e nem a revelação de que Diana também passara a ter amantes – depois da separação, mas antes do divórcio, em 96 – aliviou as nuvens negras que pairavam sobre Buckinham. Curiosamente, as “infidelidades” de Diana reduziam o prestígio dos Windsor, enquanto o seu trabalho em prol dos desvalidos, da desminação de teatros de guerra e outras causas que lhe iam aparecendo, somavam ao sucesso da Princesa.
Pode dizer-se que o Mito de Diana começou a despontar nesta altura. Despontar, apenas. Para se realizar em pleno, era preciso que ela encerrasse a sua carreira e a sua vida, para passar diretamente da atualidade para a História. O que veio a acontecer em Setembro de 1997, em circunstâncias muito pouco próprias para uma Princesa, e ainda menos para um Mito. Mas a História está cheia destas incongruências.
Sobre a morte de Diana, abundantemente contada e comentada no mundo inteiro, nada há a acrescentar. Nunca se saberá se foi assassinada pelos serviços secretos (MI6) ingleses, embora as provas circunstanciais deem credibilidade a esta teoria da conspiração. Na altura Diana namorava com um playboy inconsequente, Dodi Fayed, mas proveniente de uma família de pesadas consequências.
Hoje, 20 anos depois, Diana é um ícone indiscutível. Representa tudo o que uma Princesa deve ser: bonita, maravilhosa, intocável, um exemplo para todas as mulheres do vulgo…
O seu pai, o egípcio Mohamed Fayed, há muito que era um espinho no prestígio do Estado Britânico. Vindo de negócios obscuros – diz-se que vendia armas – valia dois mil milhões de dólares e tinha comprado vários negócios de grande visibilidade no Reino Unido, inclusive a famosa loja Harrods e o clube de futebol Fulham. Pois este homem, de tanto peso, que se sabia ter comprado deputados, nunca conseguiu a cidadania inglesa, que é facilmente dada a qualquer paquistanês que abra uma loja de falafel. Diz Fayed pai que o acidente de Diana foi porque ela estava grávida de Fayed filho e a Casa Real nunca poderia permitir que o jovem playboy egípcio se tornasse padrasto dos herdeiros da coroa britânica, William e Harry. É plausível, mas nunca se provou. A autópsia de Diana não indicava que ela estivesse grávida, mas quem elaborou essa autópsia?
Nada disto interessa agora. O que interessa é que a morte de Diana, pese as circunstâncias, a catapultou imediatamente para o topo do prestígio na Grã Bretanha e, porque não dizê-lo, naquela parte do planeta em que as revistas cor de rosa existem – ou seja, o mundo inteiro menos a Coreia do Norte.
Hoje, 20 anos depois, Diana é um ícone indiscutível. Representa tudo o que uma Princesa deve ser: bonita, maravilhosa, intocável, um exemplo para todas as mulheres do vulgo. Enquanto houver berços de ouro manufaturados pela Cartier e berços de plástico montados na China, haverá princesas como Diana. Paz à sua alma.

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jose nogueira* José Couto Nogueira nascido em Lisboa, tem longa carreira feita dos dois lados do Atlântico. No Brasil foi chefe de redação da Vogue, redator da Status, colunista da Playboy e diretor da Around/AZ. Em Nova Iorque foi correspondente do Estado de São Paulo e da Bizz. Tem três romances publicados em Portugal, onde vive.

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