Ansiedade e Desemprego. Por Meraldo Zisman

 Ansiedade e Desemprego

(nervosismo, doutor)

Por Meraldo Zisman

…Dados não oficiais dos registros das clínicas de “check-up” da cidade de São Paulo (2016), indicam que das mais de 5 mil pessoas atendidas nas mais diferentes consultas, 60% sofriam de alguma forma de ansiedade… 

O desemprego tem sido uma das questões que provocam aumento considerável da ansiedade, tanto no indivíduo quanto nos grupos sociais (com carteira assinada ou não).
O desemprego é um fenômeno psico-econômico-social-político e, nas últimas décadas, tem atingido um número cada vez maior de pessoas em todo o mundo.
A Organização Internacional do Trabalho, em levantamento realizado no ano de 2009, afirmava que entre as 20 milhões de pessoas desempregadas, aumentava o número de casos das pessoas estressadas por esse motivo (desemprego = “deixar de ganhar o pão nosso de cada dia”), que apresentavam sinais do Transtorno da Ansiedade, muitas delas com depressão já instalada.
Dados não oficiais dos registros das clínicas de “check-up” da cidade de São Paulo (2016), indicam que das mais de 5 mil pessoas atendidas nas mais diferentes consultas, 60% sofriam de alguma forma de ansiedade.  
Há um grande temor de perder o emprego enquanto dificuldades de gestão de várias empresas levam a jornadas extras dos funcionários. Afetam igualmente proprietários de empresas e negócios, que também entram em desalento por estarem fechando filiais e demitindo empregados.
O sentimento de culpa de tais empresários é enorme porém os efeitos sobre os que ficam sem emprego é muito maior. E o que dizer da situação brasileira que – brada a mídia oficial – chegou a mais de 13 milhões de desempregados.
… A maioria desses assistidos procurava o serviço médico não por doenças causadas pela fome/pobreza/mocambo/falta de saneamento básico, etc. Nada disso. A queixa principal era de “nervosismo, doutor”. Das outras mazelas eles não se lamentavam, já as consideravam coisas normais da vida…
 Recordei-me de uma situação vivida por mim quando médico contratado para atender nas Frentes de Trabalhos das Obras Contra a Seca. Nos anos de seca no Nordeste a população flagelada (os de melhor sorte) conseguia sobreviver precariamente através de subempregos financiados pelos governos como socorro, dando-lhe trabalho em obras das mais diversas localidades, para o qual não eram vocacionados ou treinados.
Alguns estudos da época indicavam ser essa população de chicoteados (flagelados) pela seca de cerca de mais de um milhão de esfomeados (década de 1970), que haviam  perdido tudo nos anos de pouca ou nenhuma chuva.
A maioria desses assistidos procurava o serviço médico não por doenças causadas pela fome/pobreza/mocambo/falta de saneamento básico, etc. Nada disso. A queixa principal era de “nervosismo, doutor”.
Das outras mazelas eles não se lamentavam, já as consideravam coisas normais da vida. Delas nem se queixavam. Desconheciam, acredito, ser o nervosismo um dos sinônimos de ansiedade.
… Nervosismo passou a se chamar ansiedade. Creio que agora a população e a Mídia julgam ser mais chique usar a palavra ansiedade que nervosismo. Eu prefiro nervosismo, é mais brasileiro.
A mesma ansiedade hoje tão discutida nas mídias sociais ou oficiais e que viraliza nos noticiosos. Basta entrar no YouTube, Web, Twitter, Facebook, Instagram, mobile, para ver a quantidade de palestras, leigas, científicas, pseudocientíficas, religiosas e até de propaganda partidária sobre o tema ansiedade.
Nervosismo passou a se chamar ansiedade. Creio que agora a população e a Mídia julgam ser mais chique usar a palavra ansiedade que nervosismo. Eu prefiro nervosismo, é mais brasileiro.
Mas, será que trocar de nome, ou melhor, a sinonímia – melhora alguma coisa? Acredito que não!
— O sofrimento é o mesmo. Mudar de nome de nada vai adiantar.  

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Vale a pena essa série. 
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23/02/2011. Credito: Cecilia de Sa Pereira/DP/D.A Press. Recife/PE. Vida Urbana. Materia sobre a visita do presidente nacional da Associacao dos Diplomados da Escola Superior de Guerra, o brigadeiro Helio Goncalves a sede dos Diarios Associados PE. O brigadeiro esteve acompanhado pelos senhores Eudes Souza Leao e Meraldo Zisman (NA FOTO).

Meraldo Zisman – Médico, psicoterapeuta. Foi um dos primeiros neonatologistas brasileiros. Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha). Vive no Recife (PE).

 

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1 Comment

  • Maria Helena Carvalho

    13/11/2017 - 21:30

    “Das outras mazelas eles não se lamentavam, já as consideravam coisas normais da vida. Delas nem se queixavam. Desconheciam, acredito, ser o nervosismo um dos sinônimos de ansiedade.” PARABÉNS E, OBRIGADA, POR MAIS ESSA BELÍSSIMA CRÔNICA.

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