Associação de Contracepção Hormonal com Depressão. Por Meraldo Zisman

Associação de Contracepção Hormonal com Depressão

Meraldo Zisman

Os profissionais de saúde devem estar cientes desse efeito adverso, até então despercebido, da contracepção hormonal e suas usuárias, também. Os anticoncepcionais, como toda e qualquer medicação, tem as suas contraindicações. Todas as épocas têm sua doença da moda. A atual é a depressão.

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Em 2016 apareceu o trabalho Association of Hormonal Contraception With Depression*, traduzido no título deste artigo.
Esta nova situação de ansiedade veio a pairar sobre as mulheres que usam o anticoncepcional conhecido como a Pílula que apareceu no mercado no ano de 1960 e não foi um avanço médico isolado. Foi um avanço para a civilização.
 Com a Pílula, a mulher, ao se tornar dona do seu próprio corpo desencadeou um processo de avanços sociais sem precedente na História e até os outros tipos de sexualidade humana passaram a se emancipar. Creio eu que as alterações psicossociais que se sucederam foram em grande parte uma consequência da descoberta da Pílula Anticoncepcional. Digo assim, para chamar a atenção, muito embora não esquecendo que:
              — Assuntos complexos não podem ter repostas simples. 
A anticoncepção trouxe um sem número de emancipações além da que ocorreu com as mulheres.  Ação de ser ou de se tornar independente, livre; o Estatuto deve prever a emancipação das mulheres.
Não digo apenas que ‘’é proibido proibir” como os jovens parisienses em suas manifestações de 1960 Naquela época teve início uma grande revolução comportamental com o surgimento do feminismo e dos movimentos civis em favor dos negros e homossexuais.
… Aqueles que eram contra a emancipação feminina temiam um feminização da civilização, o que foi logo desmentido pelo sucesso das mulheres no exercício de profissões anteriormente julgadas exclusivamente masculinas e agora tão bem exercidas pelas mulheres.
Sem esquecer que, por ser mamífera, a mulher carrega um fardo muito mais pesado que os homens (a reprodução). Ao mesmo tempo, nos países menos desenvolvidos e em boa parte do Oriente, todos continuam convencidos de que as mulheres não podem igualar-se aos homens na sublimação da sexualidade e, portanto, na criatividade. Denuncio na misoginia dos homens uma atitude infantil.
Destaco aqui aqueles que foram obrigados a mudar de opinião sobre a possibilidade de sublimação das mulheres e que mais tarde não cessaram de admirar as mulheres tanto pelo seu talento intelectual como por sua capacidade, diria até viril. Aqueles que eram contra a emancipação feminina temiam um feminização da civilização, o que foi logo desmentido pelo sucesso das mulheres no exercício de profissões anteriormente julgadas exclusivamente masculinas e agora tão bem exercidas pelas mulheres.
As explanações acima se fazem necessárias para que o leitor conheça minha posição sobre esta nova problemática que surgiu, tanto como médico psicoterapeuta ou como simples cidadão.
Mas voltemos ao assunto da anticoncepção e da depressão.
Pode o uso de contracepção hormonal estar associado ao tratamento da depressão?
Um estudo de corte prospectivo nacional de mais de 1 milhão de mulheres que vivem na Dinamarca mostrou um aumento de risco para o uso de um antidepressivo e o primeiro diagnóstico de depressão foi o encontrado entre os usuários de diferentes tipos de contracepção hormonal, com as taxas mais altas entre os adolescentes que tomavam anticoncepcionais por via oral.
Os profissionais de saúde devem estar cientes desse efeito adverso, até então despercebido, da contracepção hormonal e suas usuárias, também. Os anticoncepcionais, como toda e qualquer medicação, tem as suas contraindicações. Todas as épocas têm sua doença da moda. A atual é a depressão.
De cujo aumento não conhecemos a(s) causa(s).
O dicionário de sinônimos e antônimos de Houaiss, 3ª ed. 2008 diz que o vocábulo depressão tem como sinônimo: 1. Abatimento: debilitação, enfraquecimento. 2. Diminuição: decréscimo redução… 4. Prostração: abatimento, desânimo, letargia, melancolia, tristeza e paro por aqui para não cansar o leitor, mas, o que não tem um nome exato não deve ser considerado. Tudo que existe tem um nome.
Ademais, o excesso de cientificismo em nossa época tem trazido, como tudo que é humano, benefícios e malefícios ou criado novos problemas e soluções.
Quem desejar ver/ler as contraindicações dos antidepressivos comercializados ficarão atemorizados com os efeitos secundários escritos em suas bulas.  Na maioria das vezes os antidepressivos são ministrados sem indicação especifica ou tentativa de acerto ou erro. Não há método seguro para saber se estão prescritos adequadamente para aquela pessoa.
O ser humano é livre em que seu destino não se vincula unicamente ao ser biológico. O cientificismo (a crença dogmática na autoridade do método científico e nos seus resultados) não deve ser aceito.  Não vejo motivo para negar ao cientificismo o seu lugar no que diz respeito à obscuridade e às pretensões dos que almejam reduzir o pensamento a um neurônio ou confundir um desejo com uma secreção química de um neurotransmissor ou a repactuação de um neurônio com outro…
O estudo referido acima restringe-se a dizer que as mulheres que tomaram antidepressivos pela primeira vez foram as que estavam tomando a pílula e não sabem dizer para que ou porque tomaram o antidepressivo.
Quem desejar ver/ler as contraindicações dos antidepressivos comercializados ficarão atemorizados com os efeitos secundários escritos em suas bulas.  Na maioria das vezes os antidepressivos são ministrados sem indicação especifica ou tentativa de acerto ou erro. Não há método seguro para saber se estão prescritos adequadamente para aquela pessoa.
Creio que artigos desse tipo somente aumenta a ansiedade nas mulheres, pois quase 80% das dinamarquesas estudadas tomaram ou tomam a pílula.
A gestação indesejada é mais maléfica que qualquer nascimento sem planejamento. As mulheres de hoje têm que saber que seus pais foram concebidos às cegas, seus nascimentos não foram programados. O primeiro filho é hoje gerado por mulheres de dez a quinze anos mais velhas do que a idade de suas mães quando passaram por isso. Hoje, mais da metade dos casamentos terminam em divórcio. Às crianças de hoje não mantêm qualquer tradição.
 Esta frase de   Simone de Beauvoir 1908-1986 permanece ainda muito válida:
“No dia que for possível à mulher amar-se em sua força e não em sua fraqueza; não para fugir de si mesma, mas para se encontrar; não para se renunciar, mas para se afirmar, nesse dia então o amor tornar-se-á para ela, como para o homem, fonte de vida e não perigo mortal”.

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Meraldo Zisman Médico, psicoterapeuta. Foi um dos primeiros neonatologistas brasileiros. Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha). Vive no Recife (PE).

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