Violência doméstica (A manifestação escondida do desemprego). Por Meraldo Zisman

Violência doméstica

             (A manifestação escondida do desemprego)

Meraldo Zisman

… Sem dúvida, a situação econômica é fator importante no agravamento da violência doméstica, apesar de muitos cientificismos não apresentarem provas contundentes de uma relação direta entre as recessões econômicas ou sociais e a violência na família, qualquer que seja sua configuração no contemporâneo.

É patente a recessão econômica acompanhada de desemprego como fator agravante da violência doméstica. Essa modalidade de violência segue um modelo de comportamento que envolve agressão, abuso por parte de uma pessoa contra outra, dentro de um ambiente doméstico; principalmente durante um casamento, ligação estável ou outras formas de constituição familiar. Sem dúvida, a situação econômica é fator importante no agravamento da violência doméstica, apesar de muitos cientificismos não apresentarem provas contundentes de uma relação direta entre as recessões econômicas ou sociais e a violência na família, qualquer que seja sua configuração no contemporâneo.

…A condição fragilizada da mulher diante de uma sociedade patriarcal, escravagista e preconceituosa é um fato…

Desempregado, o homem fica mais suscetível à agressividade e a mulher acaba sofrendo as consequências. Embora a emancipação feminina seja hoje um fato, ela é restrita à classe média urbana. Apesar das muitas manifestações feministas ao longo do tempo, a igualdade da mulher não chegou ainda à maioria das mulheres das periferias e às dos Grandes Sertões e Veredas, tomando emprestado o titulo de livro escrito por Guimarães Rosa (1908 -1967).

A condição fragilizada da mulher diante de uma sociedade patriarcal, escravagista e preconceituosa é um fato. A dupla ou tripla jornada de trabalho que determina, para além do trabalho externo, o cumprimento de papel como mãe e doméstica, embaraçam ainda mais a condição da mulher.

Uma pesquisa no jornal Demography em março de 2016 faz uma profunda análise de relacionamentos para mostrar que a dificuldade e a incerteza econômicas aumentaram as taxas de violência de parceiros íntimos, definidas como abuso por meios violentos ou de controle.

… Na verdade, o homem desempregado sente-se um fracassado. Ele, que sempre se considerou provedor, terá sua autoestima levada  abaixo do suportável, principalmente se estiver na casa dos 40 anos ou mais.

As pesquisas concluíram que quando uma mulher ou seu parceiro estão desempregados, a probabilidade de que ela sofra algum tipo de violência aumentou em quase um terço, de 10% para 13%. Mas devemos lembrar que as mulheres que perderam o emprego podem também tornarem-se agressivas e isso pode gerar consequências, principalmente para os filhos. Quando a mulher descarrega sua raiva nos filhos ou estes assistem as agressões físicas ou verbais entre seus pais, esses filhos vão absorver o método. Sendo eles mediados pela violência, mesmo se apenas espectadores, tenderão no futuro a resolver seus conflitos não através do diálogo, mas através da força física. É uma consequência futura imprevisível para essas crianças.

Na verdade, o homem desempregado sente-se um fracassado. Ele, que sempre se considerou provedor, terá sua autoestima levada  abaixo do suportável, principalmente se estiver na casa dos 40 anos ou mais.

Lembremo-nos que na casa onde falta pão todos brigam e ninguém tem razão ou permaneceremos com a frase do ex-presidente Lula:

“TINHA MUITA GENTE QUE ESTAVA DESEMPREGADA E QUE AGORA FAZ UM BIQUINHO. É ASSIM QUE NOSSO QUERIDO BRASIL VAI SE DESENVOLVER” discursando em Aracaju: 09/03/2005.

Finalizo destacando que é impossível ter uma dimensão do mal que a recessão atual pode causar às gerações futuras e ao Brasil.

Quanto à geração atual, estou assistindo e padecendo com ela…

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Meraldo Zisman Médico, psicoterapeuta. Foi um dos primeiros neonatologistas brasileiros. Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha). Vive no Recife (PE).

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