Em memória pela promulgação da Lei da Anistia em 28 de agosto de 1979. Por Ivanisa Teitelroit Martins*

Em memória pela promulgação da Lei da Anistia em 28 de agosto de 1979

Ivanisa Teitelroit Martins*

Não vivi os anos de luta armada. Vivi os anos de clandestinidade em aparelhos cuja localização desconhecíamos. Tínhamos uma vida em que a sobrevivência dependia da capacidade de sabermos nos esgueirar pela noite para chegar às frações e células e debater o marxismo-leninismo de modo a definir uma tática de ação política nos bairros, nos sindicatos e nos grupos de educação popular.

… Essa prática forjou em nós uma têmpera e uma determinação inquebrantável. Tínhamos entre nós, tanto eu e meu companheiro como entre nossos companheiros de luta, uma solidariedade incondicional…

Nosso trabalho era de agitação e propaganda, na venda do jornal clandestino Unidade Popular, para conscientizar a população da periferia de São Paulo dos desmandos e arbitrariedades da ditadura militar.

Meu companheiro e eu morávamos em um apartamento de que ninguém tinha o endereço porque sua vida corria risco. Era perseguido e se fosse capturado poderia sofrer torturas e mesmo desaparecer. Respondia a um processo em que foi condenado à revelia por crime de sangue.

Éramos muito ativos também na campanha pela Anistia. Tínhamos o cuidado de adotar medidas de segurança que consistiam no chequeio permanente para evitar sermos seguidos. Para chegar a um ponto marcado eram necessárias muitas viagens, ir e voltar ao mesmo lugar para garantir que não se levava risco ao companheiro que iríamos encontrar.

Amplas manifestações da época

Essa prática forjou em nós uma têmpera e uma determinação inquebrantável. Tínhamos entre nós, tanto eu e meu companheiro como entre nossos companheiros de luta, uma solidariedade incondicional, porque havia um pacto firmado de plena confiança, um pacto de vida e de morte.

Se um de nós fosse capturado, havia a possibilidade de uma cadeia de companheiros vir a ser também capturada. Por este motivo sabíamos o mínimo possível e confiávamos na direção. Meu companheiro e eu tínhamos um acordo. Se ele não chegasse a nosso apartamento três horas depois do horário combinado, eu deveria queimar todos os documentos políticos que ficavam em um baú de vime que eu nunca abria.

Um dia ele não chegou no horário combinado. Primeiro chorei supondo que o que tanto evitamos havia irremediavelmente acontecido. Depois sequei as lágrimas, abri o baú e fui retirando documento por documento. Fui à cozinha, peguei uma caixa de fósforos e comecei a queimar os documentos um a um lançando seus restos no vaso sanitário. Era preciso tomar precauções para não deixar que o cheiro de papel queimado fosse percebido pelos vizinhos. Foram três horas de trabalho que varou a madrugada.

Não consegui queimar os documentos originais. Eu os reuni dentro de uma sacola e saí na madrugada pela rua fazendo o chequeio de costume. Fui em direção ao outro lado da cidade de São Paulo, onde moravam meus companheiros que eram operários. Ao chegar entreguei a eles a sacola para que encaminhassem os documentos à direção. No dia seguinte combinamos que o companheiro Lindolfo iria ao nosso endereço para averiguar se já haviam encontrado o lugar em que morávamos. E eu segui para o Comitê Brasileiro pela Anistia, no Centro, para ter notícias.

… Dei-me conta de que havia quatro homens em cada carro apesar do escuro da noite e da pouca iluminação pública. Garoava. Voltei para dentro do carro e disse ao taxista que estava sendo seguida por motivos políticos. O taxista, sem olhar para mim, disse somente: “Deixa comigo, vamos dar um chapéu neles”.

Ao chegar lá fui recebida por Airton Soares, que me tranquilizou, dizendo que meu companheiro havia sido perseguido e que estava em lugar seguro. Foi-me entregue um número de telefone para que eu fizesse uma ligação em uma central telefônica. Ao sair e passar por um tapume percebi um movimento estranho de dois homens que cruzaram o meu caminho e me perguntaram: “Está com medo?”

Tomei um táxi e pedi que fôssemos para a central telefônica mais próxima. Ao chegar lá percebi que se tratava de uma rua sem saída. Prestes a descer virei para trás e consegui visualizar dois carros parados à distância com as luzes acesas. Dei-me conta de que havia quatro homens em cada carro apesar do escuro da noite e da pouca iluminação pública. Garoava. Voltei para dentro do carro e disse ao taxista que estava sendo seguida por motivos políticos. O taxista, sem olhar para mim, disse somente: “Deixa comigo, vamos dar um chapéu neles”.

… Entrei em seu carro e ele me levou à sua casa, onde estavam algumas pessoas reunidas. Reconheci Gianfrancesco Guarnieri. Fui para o quarto e me deram um calmante quando desabei em um choro que até então havia controlado.

Voltamos à avenida principal e durante duas horas definimos a estratégia para despistá-los. Pelas avenidas corríamos para depois entrar nas travessas de modo mais lento. Parávamos e checávamos se eles continuavam nos seguindo. Na primeira parada percebemos que somente um carro continuava atrás de nós e parara a uma distância em que tanto eles como nós podíamos nos ver. Continuamos com a mesma estratégia até a zona sul da cidade. No meio do trânsito decidimos que eu devia saltar e procurar ajuda porque com certeza eles já tinham o número da placa do carro. Desci e fui até a central telefônica mais próxima. Tinha o número de telefone de Luiz Eduardo Greenhalgh. Liguei para ele, que me atendeu com serenidade. Marcamos um ponto na zona norte da cidade, em Santana. Entrei em seu carro e ele me levou à sua casa, onde estavam algumas pessoas reunidas. Reconheci Gianfrancesco Guarnieri. Fui para o quarto e me deram um calmante quando desabei em um choro que até então havia controlado.

No dia seguinte Greenhalgh me levou ao aeroporto e me colocou no voo pela pista. Ao chegar à cidade do Rio de Janeiro me dirigi à sede do Jornal do Brasil para encontrar minha cunhada, que trabalhava como chefe de um departamento. Era a segunda vez que a encontrava. Ela chamou Técio Lins e Silva, que me levou para um local que me serviu de esconderijo. Fiquei sozinha no apartamento. Às vezes o dono do apartamento aparecia para conversarmos e para me levar alguma comida. Deu-me um livro: “Alice através do Espelho”.  E me mostrava os desenhos dos dois filhos, Rodrigo e Pedro.

No dia da promulgação da Anistia, dia 28 de agosto de 1979, ouvia no rádio a notícia e soube que um de nossos companheiros,  Carlos Alberto Muniz, pôde finalmente ir à praia,. Tocavam então a música “E vamos botar água no feijão“. Fiquei emocionada. Como gostaria de estar ao seu lado para dar o meu abraço! Mas precisava me manter escondida. Meu companheiro somente seria anistiado três meses depois.

Duas semanas depois foi montado um esquema para que eu reencontrasse meu companheiro. Foi marcado um ponto ao qual eu compareci. Tomei o carro com mais três companheiros e subimos a serra. Ao nos aproximarmos do local fui vendada para não saber onde me levavam.

Cheguei finalmente e encontrei meu companheiro lendo O Pasquim. Ele ficou muito feliz em me ver mas havia algo em seu semblante que me preocupou. E ele me disse: “Como o Fernando Gabeira pôde publicar um livro sobre o sequestro do embaixador americano sem conversar com os outros companheiros que participaram da ação?”

A volta do exílio foi muito comemorada, mas aqueles que, como nós, continuavam clandestinos, precisaram esperar mais algum tempo para ter onde morar. Esta foi a minha tarefa: encontrar uma casa na zona oeste de São Paulo. Depois recebi um bilhete em que meu companheiro, que eu chamava de Beto, me dizia que deveria procurar na zona leste porque na zona oeste já havia outros companheiros morando. Saí andando pelas ruas à procura de uma casa para alugar enquanto pernoitava na casa de meus companheiros Lidia e Lindolfo, que tinham acabado de ter um filho. Dormia na cozinha no colchão do bebê com alguns jornais para evitar o chão frio. Sou grata a Lídia e Lindolfo como àquele que me escondeu em seu apartamento no Rio. Sou grata aos meus companheiros, ao Greenhalgh e ao Técio. Enfim, são muitos episódios que aconteceram em nossas vidas durante o período da ditadura.

Este é somente mais um.

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*Ivanisa Teitelroit Martins, psicanalista, cientista social e gestora pública. Pós-graduada em Teoria Psicanalítica pela UnB, mestre em psicologia clínica pela PUC-SP, membro titular da Sociedade de Psicanálise Iracy Doyle, mestre em planejamento e políticas sociais pela London School of Economics and Political Science, gestora do Ministério do Planejamento (aposentada), título de comendadora na categoria de profissional do ano por mérito social em 2017, publicado em 4 de agosto no Diário Oficial do Governo do Estado de São Paulo

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