Por que tanta odiosidade? Por Meraldo Zisman

POR QUE TANTA ODIOSIDADE?

MERALDO ZISMAN

– Polarização eleitoral –

 

Odiosidade: Característica ou qualidade de odioso; qualidade do que provoca ódio.

Como chegamos à atual crise política? Quando começaremos a ter discussões saudáveis e passar a acreditar que a verdade absoluta não existe e que cada um de nós tem a sua verdade? Por que está ocorrendo tanto extremismo nestas eleições – mesmo em se sabendo, antes da contagem dos votos do segundo turno, que (a não ser por imprevistos) Jair Bolsonaro será o futuro presidente do Brasil.

As desavenças entre os eleitores tornaram-se antissociais, tamanho o estardalhaço das veiculações de agressões, além da boataria e acusações mútuas que antes seriam denominadas de fofocas e agora são apelidadas de Fake News (notícias falsas). Tal é o nível de odiosidade cibernética entre eleitores e candidatos que foram abaladas até as relações humanas dentro da própria família e entre pessoas de diferentes laços sociais…

Amizades foram desfeitas e o grande assunto das sessões psicoterápicas, como comentam diversos colegas, é a eleição majoritária que está acontecendo. A insegurança é geral. E nada mais causador de ódio e infantilização das pessoas do que a insegurança das massas, como descreveu Sigmund Freud no seu livro Psicologia das Massas e Análise do Eu (1921).

A obra traz, inerentes, ecos do momento histórico em que foi elaborada – em uma Europa devastada pela barbárie da Primeira Grande Guerra, onde ganhava força o movimento nazifascista. Hoje, num mundo superpopuloso em que a individualidade muitas vezes é aniquilada pela força das multidões e em que a intolerância religiosa está na ordem do dia, fica ainda mais evidente a genialidade de Freud ao aplicar a psicanálise a outros campos do conhecimento (psiconeurociencias). O ódio é mais agregador do que o amor, nas suas maiores variações e abordagens.

Mas ainda existe a palavra “altruísmo” criada em 1831 pelo filósofo francês Auguste Comte ( 1798-1857), um dos fundadores da Sociologia e do Positivismo, trabalhou intensamente na criação de uma filosofia positiva,   para identificar o conjunto das disposições humanas (individuais e coletivas) que inclinam os seres humanos a se dedicarem a outros.

No Brasil, os positivistas participaram do movimento pela Proclamação da República no ano de 1889 e na Constituição de 1891 e, por isso, a bandeira brasileira acabou com o lema “Ordem e Progresso”, sendo ela uma forma abreviada da frase de Augusto Comte, que diz: “O Amor por princípio, a Ordem por base e o Progresso por fim”. Como simples cidadão afirmo: extremistas são um problema pois com eles não existe diálogo e, sendo radicais, são perigosos. A pessoa extremista só enxerga aquilo que acredita ser a verdade, ignorando todo o resto. A pessoa radical prima pela falta de humor. Você já viu algum caudilho, ditador ou autocrata contar piadas?

Costumo dizer que sem humor não existe psicoterapia e no caso da política (já que estamos falando de eleições), desconheço extremista de qualquer sorte ou tipo que fique sorrindo ou dizendo frases de humor. São frequentemente mal encarados e sisudos.

Para a Psicologia o humor é um estado afetivo, assim como as emoções. Diferentemente das emoções (que são reações intensas, breves e direcionadas a um estímulo), os humores são considerados mais difusos, menos intensos e independem de um objeto, pessoa ou evento desencadeador. Ou seja, as emoções são reações agudas, como a raiva, a tristeza, o medo e a alegria, enquanto a ansiedade, a depressão, a irritação (ou “mal humor”) e a felicidade poderiam ser classificados como humores. (https://pt.wikipedia.org/wiki/Humor).

Creio que os brasileiros de todas as cores ou origens deveriam pensar que o mais importante não é a eleição e sim a frustação de perder ou ganhar e depois descobrir de onde vem o engano ou a incompreensão dos argumentos deles e dos outros e – ainda – que ambos os grupos tinham razão, em muitos aspectos.

Não sou ingênuo para ignorar que a violência e o fanatismo são parte de todos nós, esses animais vaidosos que se intitulam Homo Sapiens.

Onde o ódio impera não existe “ordem e progresso”, como está escrito na bandeira do Brasil.  A uniformidade não passa de forma amena de intolerância e com frequência o culto da personalidade, as ideologias políticas…

O fanático pensa que, se alguma coisa é ruim para ele, a culpa é do seu vizinho, que deve ser eliminado caso não esteja convencido da verdade do fanático ou tenha outra argumentação. Julgam-se mensageiros da verdade absoluta, como se isso fosse possível.

A violência na luta entre contendores causa dores, embora muitos finjam não se importar ou ignorar as dores que causam machucões nos corpos e almas, quando o diálogo se torna impossível. Por isso concordo com Arthur Schopenhauer (1788- 1860): “A fé e o saber não se dão bem dentro da mesma cabeça: são como o lobo e o cordeiro dentro de uma jaula; e o saber é justamente o lobo, que ameaça devorar seu vizinho. O saber é feito de uma matéria mais dura do que a fé, de modo que, quando colidem, a última se quebra.”

Compreendendo isto pergunto: Por que tanto ódio?

Onde o ódio impera não existe “ordem e progresso”, como está escrito na bandeira do Brasil.  A uniformidade não passa de forma amena de intolerância e com frequência o culto da personalidade, as ideologias políticas ou religiosos, os indivíduos doutos e carismáticos, são formas ocultas de fanatismo. Lembrem-se que a nossa bandeira é verde e amarela…Não acredito que algum brasileiro deseje o mal ao Brasil…

Então, por que tanto ódio?


Meraldo Zisman Médico, psicoterapeuta. É um dos primeiros neonatologistas brasileiros. Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha). Vive no Recife (PE).

 

 

 

1 thought on “Por que tanta odiosidade? Por Meraldo Zisman

  1. De uma forma tosca eu diria, “populisticamente”, que a adrenalina, a bílis e falta de bom humor (substituída pelo “mau” humor) explodiram e ganharam racionalidade (digo organização de lógica) ao ver a explosão do esgoto sanitário até então perfumado e escondido pelo domínio de poder do PT. As pessoas até então até toleravam a roubalheira (vide “O rouba mas faz”), mas o escracho foi além de todas medidas. Perdeu-se o pudor de roubar e aí as pessoas começaram a ficar muito, muito, muito putas da vida e , imantadas pelo Bolsonaro, grudaram nele. Poderia ser o Enéas ou outro noviço sem antecedentes criminais que estaria hoje na liderança. Eleger o Bolsonaro será começar a puxar a descarga do vaso sanitário que o PT deixou entupir. E isso não dá pra fazer sorrindo. É com raiva mesmo, todos se sentiram idiotizados. Um pouco até vai, mas excederam.

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