As regras do jogo. Coluna Carlos Brickmann

AS REGRAS DO JOGO

COLUNA CARLOS BRICKMANN

EDIÇÃO DOS JORNAIS DE DOMINGO, 18 DE NOVEMBRO DE 2018

Em boa parte dos meios jurídicos, o depoimento de Lula à Justiça não foi bem visto. Com a oportunidade de ver sua defesa divulgada na íntegra para todo o país, teria tido atitude prepotente, ao tentar interrogar a juíza Gabriela Hardt – o que lhe valeu uma resposta dura – e ao pôr em dúvida o tema do julgamento, algo que seus defensores devem ter-lhe informado.

Pode ser – mas o que aconteceu em Curitiba é que Lula não estava nem um pouco interessado em melhorar sua posição como réu. Seu objetivo, e não é de hoje, é político, não jurídico: é reforçar sua imagem de Salvador da Pátria e Defensor Perpétuo dos Pobres, impedido pelos poderosos, que não gostam de misturar-se à plebe nos aeroportos, de voltar à Presidência da República. Para ele, toda a questão jurídica se resume nisso: a Justiça é o instrumento de seus adversários para evitar seu grande retorno, vitorioso no primeiro turno. Lula jamais ganhou eleição presidencial no primeiro turno. Mas, já que não disputou mesmo, que mal faz proclamar a vitória?

O problema é que essa tática beneficia apenas Lula e fere seu partido. Fingir que Lula seria candidato, sabendo que não seria, custou ao PT uma pesada derrota nacional. Se Lula tinha mesmo a força que acha que tem, não precisaria fingir: bastaria dizer que, como a Justiça o perseguia e o impedia de disputar, Haddad seria seu candidato. Mas não buscava a vitória do partido: buscava, e para ele isso era o importante, crescer como lenda.

Rei morto, mas vivo

Nossa História está cheia de salvadores que só não nos levaram ao Paraíso porque algum inimigo do povo os bloqueou. Em Pernambuco, havia o “chá de Arraes”: o cidadão pegava uma foto de Miguel Arraes, fervia e guardava a água. O chá era milagroso, curava qualquer doença. Getúlio Vargas, falecido há muitos anos, foi usado por grileiros que procuravam posseiros e lhes davam algum dinheiro, “por ordem do dr. Getúlio”. O posseiro assinava o recibo com a impressão digital – e o recibo era o documento de compra e venda da terra.

Muito antes, houve Dom Sebastião, rei de Portugal: morto em batalha na África, criou-se a lenda de que um dia voltaria. Lula tem tudo, até a imagem de amigo dos pobres, para virar lenda. É nisso que aposta. E espera que o PT trabalhe para isso.

Por outro lado

O antigo presidente nacional do PSDB, Eduardo Azeredo, está preso por envolvimento no Mensalão tucano. Paulo Preto, engenheiro de destaque em governos tucanos, é investigado na Suíça. Surge agora outra investigação, na Suíça, de uma movimentação equivalente a R$ 43 milhões. O nome dos envolvidos não foi divulgado. A origem dos recursos, informam os suíços, é uma campanha presidencial tucana.

Se gritar…

Muda o partido, mudam as alianças, há gente que passa o tempo falando da corrupção (dos adversários), mas é impressionante: sai uma minhoca a cada enxadada. Como diria o sábio Sílvio Santos, quem procura acha.

Nome de peso

Foi um sucesso o nome do presidente do Banco Central escolhido pelo presidente Bolsonaro: Roberto Campos Neto, descendente de um dos criadores do Banco Central e ministro do Planejamento de Castello Branco, Roberto Campos. O ministro foi tão lembrado que, em algumas páginas de notícias, havia mais fotos dele do que do neto. Algumas lembranças foram equivocadas. Afinal, Campos deixou o Planejamento há 51 anos.

É mas não foi

O primeiro engano é dizer que Campos foi um guru do liberalismo brasileiro. É verdade: perto do que havia na época, Campos era ultraliberal. Mas não é verdade: ele trabalhava com controle de preços. Lembram também de Campos como economista. Não: era diplomata e historiador.

Nada que tenha a menor importância. Campos entendia de economia e, homem culto, conhecedor de História, sabia qual o destino dos países cheios de controles. Tinha humor refinado. E como escrevia bem!

Caso médico

Com a saída dos médicos cubanos, haverá problemas de atendimento ou a substituição será simples? Os cubanos, como funcionários públicos, ganhavam aqui o mesmo salário dos que ficaram em Cuba, ou eram explorados, porque dos R$ 11 mil mensais pagos aqui só podiam ficar com R$ 3 mil?  Este colunista já encontrou as duas versões. Uma reportagem do Huffington Post traz boas entrevistas com médicos cubanos.

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2 thoughts on “As regras do jogo. Coluna Carlos Brickmann

  1. “Rei morto, mas vivo”: “Chá de Lula” dá diarreia…
    “Caso médico”: “Este colunista já encontrou as duas versões.” – Pois é… Um dos piores males das ditaduras é a dúvida, plantada através de mentiras ou de ocultação da verdade.

  2. Ok, o programa Mais Médicos sempre foi matéria de muita controvérsia, aí inclusa aquela sobre o financiamento disfarçado que, por meio dele, o Brasil destina ao regime ditatorial. Há muito a se discutir sobre esse programa inventado por dona Dilma, a mentecapta, mas a ausência dos médicos cubanos será muito sentida especialmente por aquelas populações que tinham apenas nesses profissionais sua tênue esperança de um primeiro tratamento médico decente. Nos rincões do país e nas periferias dos maiores centros urbanos, a falta que esses médicos farão poderá ser facilmente documentada desde já. Veremos as filas de desatendidos e ouviremos suas reclamações. O que já era ruim, será um pouco pior. Trata-se de alguns milhões de pessoas desde sempre mal-atendidas em suas necessidades elementares, e que agora terão de esperar até que a famigerada agilidade burocrática nacional dê conta de repor essa metade do programa Mais Médicos que o capitão, com muita sensibilidade, mandou embora antes mesmo de começar a dar ordens. Com sorte, terminado o primeiro ano do novo governo, já estaremos falando sobre, quem sabe, os editais para os concursos públicos – ou eventualmente sobre a falta de fundos no CNPq, na CAPES e outros financiadores de pesquisa acadêmica para pagar bolsas aos recém-formados que se dispuserem a encarar o trabalho. Mais fácil será contar os mortos do período.
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    PS – Não será qualquer tipo de infusão de Lula. ‘Essence de Lula’ virá mesmo é de algum alambique de proporções industriais, do qual surgirá a mais letal invenção de todos os tempos. Com a vantagem de que, na provável ausência de assinatura escrita, sua impressão digital, no rótulo, será sua Appellation d’origine controlée…

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