Um exército móvel de metáforas confunde o cidadão. Por Aylê-Salassié F. Quintão

UM EXÉRCITO MÓVEL DE METÁFORAS CONFUNDE O CIDADÃO

AYLÊ-SALASSIÉ F. QUINTÃO

…hoje, nem as palavras esquerda e direita, azul e rosa e outras metáforas criadas por aí parecem dar conta das expectativas da população e da diversidade temática do século 21. Ambas são anuviadas pelo globalismo, pela pós-modernidade e outras tendências em gestação…

Mudam-se os governos, os governantes, os significados: azul se transforma em rosa, rosa é azul, o vermelho mistura-se com o verde, com o amarelo. Nada ruptural, nem revolucionário. Só retórica. Os cidadãos permanecem no mesmo lugar, nas mesmas condições. Tudo que se diz oficialmente sobre resultados é falso. Nenhum indicador alcança o crescimento vegetativo da população. Pobres continuam pobres, alguns até mais pobres; e ricos continuam ricos, alguns até mais ricos. Inamistosamente as pessoas continuam a amaldiçoar umas às outras. Nazista, fascista, comunista, socialista são palavras tão fáceis de falar quanto enganosas ao serem pronunciadas.

O cidadão está sempre sendo envolvido por algo fora da realidade, por uma falsa consciência. Ideologias quando muito. Metaforicamente, inocula-se no senso comum uma ideários de Poder, projetando formas utópicas de mundo e, assim, confundindo sentidos tenta-se transferir opiniões e interesses de pequenos grupos empoderados por uma população confusa. As políticas públicas, cada uma navegando em uma linguagem exclusiva, são esquecidas e mal digeridas. Governa-se com metáforas.

O filósofo Nietzsche explica que a linguagem sempre foi um sistema arbitrário de designação das coisas, sobretudo no campo da política. Convertem-se palavras em conceitos que, no fundo, são apenas metáforas. Os homens criam com elas os significados que adotam. A verdade para o homem comum torna-se um exército móvel delas, acumulando relações enganosas. Resumir uma gama histórica de experiência humana nas expressões esquerda e direita, ou extrema direita e extrema esquerda, por exemplo, constitui-se em uma tentativa caprichosa pequeno burguesa de criar uma ancoragem para as ideologias, instaladas pela força coercitiva da linguagem em uso.

Os termos esquerda e direita significam na sua natureza original sentar-se de um lado ou do outro na assembleia francesa dos anos de 1780. Aqueles que, em plenário, se instalavam à direita eram os representantes da nobreza, a aristocracia latifundiária e cortesã; os que ficavam à esquerda, eram os burgueses – a burguesia disputava espaço de Poder com a aristocracia. À busca de privilégios, aliava-se ou cooptava as classes mais pobres.

Como conceitos sem eixos, explícitos, as distinções vulgares e medíocres do caráter meramente ideológico da prática política no cotidiano são tão fortes que, para os mais frágeis terminam se estendendo às amizades pessoais à busca de conivência ideológica. Não de afeição (philia), pondera Aristóteles, na Ética a Nicômaco. Afastam-se umas das outras ao perceberem as ameaças transversais, via ideologia, aos seus valores e crenças.

Metáforas são como armadilhas às quais estão invisivelmente agregados dezenas de estereótipos, alguns dos mais vís. A distinção maniqueísta das ideologias não é suficiente para refletir a complexidade e a natureza das contradições da sociedade, nem explicitar as visões de mundo de governos e partidos nos dias de hoje. Aplicados à política, esses pseudo conceitos pretendem significar: esquerda, a luta política destinada a promover a justiça social, enquanto a direita busca a liberdade individual. A explicação simples assim é do filósofo Norberto Bobbio.

 Escoimados os conceitos das suas construções metafóricas, o sujeito vai se ver de frente com “várias esquerdas e direitas”. Isso porque elas estão associadas a um feixe enorme de pensamentos e conveniências, representadas por uma extensa, agressiva e gratuita iconografia: bandeiras, siglas, gestos, jargões, líderes carismáticos, manifestos e até uma linguagem repetitiva com conotações próprias. Chegam a adquirir sacralidade.

Sem muito espaço de manobra, diante do crescimento da população, do crescente esgotamento dos recursos e da universalização da dependência, direita e esquerda passaram a tentar se expressar também por regimes e sistemas de governo. A direita abriga o liberalismo (livre iniciativa e a eficiência privada), as monarquias (poder centralizado numa família), ditaduras militares (a ordem coercitiva). A esquerda identificada com o comunismo, o socialismo (a propriedade coletiva, Estado centralizado, a igualdade social) e o anarquismo (a sociedade comunal e o fim do Estado). Há uma inconformidade entre as vertentes, manifesta pelo ódio explícito.

Observa-se que, na história, as diferenças metafóricas ganharam espaço, sobretudo, durante a chamada guerra Fria, liderada pelos Estados Unidos, de um lado, e a Rússia do outro. Foi uma disputa ideológica que fez das populações civis suas maiores vítimas, sem quaisquer remorsos dos querelantes. A queda do Muro de Berlim (1989) – linha demarcatória dos dois mundos -, pôs fim à polarização. Um novo cenário político e econômico se abriu, sem distinções claras, para frustração de alguns segmentos.

Ora, hoje, nem as palavras esquerda e direita, azul e rosa e outras metáforas criadas por aí parecem dar conta das expectativas da população e da diversidade temática do século 21. Ambas são anuviadas pelo globalismo, pela pós-modernidade e outras tendências em gestação. Não significa que a divisão binária defendida por alguns não faça mais sentido, mesmo metaforizadas. Mas, apenas que esquerda, direita, o confronto de cores nenhum deles são conceitos capazes de indicar mais os rumos de um país. São representações arbitrárias, cada vez mais vazias, utilizadas por quem não consegue entender ou explicar, de maneira honesta, como se conduz, ideológica e revolucionariamente, vivendo como pobre ou como rico.

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Aylê-Salassié F. Quintão* – Jornalista, professor, doutor em História Cultural. Vive em Brasília.

 

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