Um caso de vida ou de morte. Coluna Carlos Brickmann

UM CASO DE VIDA OU DE MORTE

COLUNA CARLOS BRICKMANN

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EDIÇÃO DOS JORNAIS DE DOMINGO, 10 DE MARÇO DE 2019

O presidente da República se queixa de que é impossível viajar de carro sem ser multado, critica a fiscalização eletrônica e diz que não vai gastar mais dinheiro com isso. Não investirá em novas lombadas eletrônicas e, quando as atuais esgotarem sua vida útil, não serão renovadas.

Há estradas em que a oscilação da velocidade máxima parece mesmo uma pegadinha para multas. Mas este é problema do Governo, não da tecnologia. E, num país em que mais de 50 mil pessoas morrem por ano no trânsito e 350 mil vão para o hospital, que vale mais: evitar multas ou evitar mortes?

A instalação da lombada eletrônica no Brasil, em 1992, foi decisiva para reduzir os acidentes de trânsito em 70%. O BID, Banco Interamericano de Desenvolvimento, cita a experiência brasileira como referência mundial. No lugar onde há lombadas eletrônicas, os acidentes se reduziram em 30% e as mortes em 60%. Em pontos mais perigosos, as mortes caíram a quase zero.

Ninguém gosta de ser multado, mas pesquisa de 2002 dá 84% a favor do monitoramento eletrônico. Estudo do Ibmec mostra que em 2004 as lombadas eletrônicas evitaram mais de mil mortes. Custo das lombadas? Comparando, pequeno: cada acidente com morte nas rodovias federais custa R$ 418 mil ao Governo; cada ferido, R$ 86 mil. Mesmo que os acidentados se recuperem totalmente – o que nem sempre ocorre – saturam o SUS.

Vale a pena morrer para não ser multado?

Fala muito!

Não há dúvida de que os três zeros à esquerda, 01, 02 e 03, dão trabalho ao PaiPai. Mas Bolsonaro, o Zero Alfa, também não perde uma oportunidade de provocar polêmicas que, se perder, farão mal ao Governo, e se ganhar não lhe trarão qualquer vantagem. Já brigou com Daniela Mercury, Caetano, com dois senhores que acham que ficar nus no centro de São Paulo, com o dedo no ânus e urinando um no outro, é um protesto contra sabe-se lá o que. A briga com os referidos senhores (que dizem fazer oposição aberta, mas não revelam seus nomes) repercutiu no mundo – e repercutiu mal. Bolsonaro fala muito, durante o Carnaval soltou 29 twitters, sobre os mais diversos temas, mas só tocou no que é importante, a reforma da Previdência, na sexta, 7. Aí falou sobre reforma tributária e retomada dos investimentos. Aliás, a reforma da Previdência é o que interessa à economia, aqui e lá fora.

A opinião de dois peladões pouco higiênicos não tem a menor importância. Pois foi com eles (mais alguns artistas) que o presidente gastou boa parte de seu tempo.

Muiiiiito!

Bolsonaro, em frase infeliz, disse que democracia e liberdade só existem quando as Forças Armadas querem. E a Constituição, nada? A coisa pegou tão mal que o general Augusto Heleno teve de explicar que não era bem isso. E, em sua permanente campanha para ignorar jornais e jornalistas, Bolsonaro anunciou que todas as quintas usará um live para contar o que o Governo faz. Trabalho inútil: em menos de três meses, e apesar do tempo no hospital, Bolsonaro encaminhou a maior parte da reforma da Previdência e o pacote anticrime de Sérgio Moro. Seria mais que suficiente para consagrar seu início de Governo, apesar de alguns ministros esquisitos – desde que não quisesse discutir também questões celestiais de gênero, como o sexo dos anjos.

Problemas…

Há forte desaceleração nos mercados internacionais, em grande parte por causa da disputa comercial entre EUA e China. As exportações chinesas caíram 20,7% em fevereiro. Esperava-se a queda, mas algo como 6%. Em dinheiro: o superávit previsto para fevereiro era de US$ 24,5 bilhões. Ficou em US$ 4,12 bilhões. Em janeiro, o superávit tinha sido de US$ 39,16 bilhões. E algo que afeta o Brasil: as importações caíram 5,2%, contra 2,5% previstos. A Bolsa de Xangai perdeu 3% em um só dia.

…e resultados

Nos Estados Unidos, onde a economia vive uma fase de pleno emprego (até 4% de desempregados), houve alguma criação de vagas: de 4%, o índice de desemprego caiu para 3,9%. O salário médio subiu 0,3% em fevereiro; de um ano para outro, a alta salarial foi de 3,3%, contra 3,2% de janeiro. Não são taxas espetaculares, mas são positivas. E Trump já começa a se preparar para a reeleição. Os opositores democratas ainda não têm nomes fortes.

A vida como ela foi

Um livro notável, de um jornalista notável, com depoimentos de notáveis jornalistas, será lançado amanhã, na sede da ABI, Rio, às cinco da tarde. Aziz Ahmed, em Memórias da Imprensa Escrita, conta tudo o que viu, e que não foi pouco: Carlos Lacerda, antes de ser político, queria ser autor de novelas; De Gaulle jamais disse que o Brasil não é um país sério; uma festa no dia da posse do presidente Kennedy foi suspensa pela polícia, chamada por um cidadão incomodado com o barulho. Leia ali a última entrevista de Ricardo Boechat. Há Samuel Wainer, há o próprio Aziz Ahmed.

Não dá para perder.

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1 thought on “Um caso de vida ou de morte. Coluna Carlos Brickmann

  1. Prezados colegas de leitura, prezado jornalista, prestem atenção: Capitão Zero reclama das multas que leva quando pega o volante. Não é notícia. É confirmação do que a gente já sabia, ou intuía. Fico imaginando a velocidade que esse bronco atinge quando comanda o carro. Fico a imaginar a fúria, a raiva com que atravessa sinais vermelhos e invade ruas na contramão. Deus do céu! E não quer ser multado… Salve-se quem puder! Bolsonaro precisa publicar sua agenda pessoal. Quando o cara sai de carro, melhor a gente ficar em casa. Não garante nada, já que ele sempre pode enfiar o carro numa calçada, romper um poste, invadir uma residência e matar, ou aleijar, os infelizes que ali nem suspeitam do pior, mas lá dentro as chances de escapar são maiores do que passeando em praça pública. Ou seja, o carcamano não apenas assegura que filha sua não se casa com negro; não apenas elogia tortura como método legítimo de investigação policial; não apenas sente saudades de Stroessner e garante que não estupra deputada federal porque ela não merece. Nada disso. Ele também – agora confirmamos – pretende dar às bestas que barbarizam o trânsito brasuca, e o transformam num dos piores do mundo, um alívio a mais, uma impunidade a mais, o direito a uma crueldade motorizada a mais. Que mais ele fará conosco? Onde terminará essa infinita sequência de estultices, burrices, asnices e más intenções puras e simples que esse sujeito arremessa contra o bom senso e a inteligência alheia? Que outra cretinice incivilizada perpetrará ele neste exato momento?

    Pouco antes do início deste governo, um amigo me confidenciou que, em sua opinião (que ele quer manter secreta, pois fora simpatizante do PT), Bolsonaro é a Dilma da direita. Ou Dilma é o Bolsonaro da esquerda, tanto faz. Ri muito. Achei engraçada a comparação entre os desmiolados. Disse a ele que nunca gostei do capitão, e que me recusara a votar nele só para Haddad não vencer a eleição, mas também lhe disse que a comparação seria injusta ao bronco, dadas as excepcionais qualidades mentais de dona Dilma.

    Hoje, confesso, não sei mais se partilho dessa minha própria opinião.

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