Não vai ser fácil. Por Edmilson Siqueira

Não vai ser fácil

Edmilson Siqueira

…há um sofisticado sistema de rodízio de generais nos quartéis e comando de tropas – o tempo à frente de um comando não passa de três meses – para que os comandados nunca saibam exatamente o que o comandante pensa, para que não se instaure um clima de confiança entre o general e a tropa que ele comanda…

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Oliver Stuenkel, professor adjunto de Relações Internacionais na Fundação Getúlio Vargas (FGV) e coordenador do programa de pós-graduação da Escola de Relações Internacionais da FGV, falou nesta quarta-feira na Jovem Pan sobre a Venezuela. Ele não vê solução a curto prazo, a não ser que as Forças Armadas do país decidam tirar Maduro do poder. Mas isso também é muito difícil de ocorrer. Motivo? Segundo Stuenkel, a Venezuela tem hoje quase dois mil generais que comandam a economia do país, além, claro, de comandar quartéis e tropas.

Muitos generais estão envolvidos também em toda sorte de comércio ilegal, principalmente de gêneros alimentícios, onde arrecadam milhões de dólares. Há até ministros generais para gêneros alimentícios como ministro da carne, ministro do arroz…

Mas tem mais: há generais envolvidos também em tráfico de drogas e de armas, o que resulta em ganhos fabulosos, pois se num país onde essas atividades são reprimidas elas já dão enormes lucros, imagine num país onde esses crimes são comandados por gente das Forças Armadas com autorização do governo.

Resultado de imagem para generais venezuela…Trump pode até estar louco para jogar umas bombas por lá, mas encontra resistência dos militares. Escaldados por outras intervenções que custam bilhões de dólares mensais, além da perda de prestígio político, esses militares consideram que a intervenção poderia até ser fácil: em uns três dias o país poderia estar dominado, mas o problema é o que vem depois.

Stuenkel revelou também que há um sofisticado sistema de rodízio de generais nos quartéis e comando de tropas – o tempo à frente de um comando não passa de três meses – para que os comandados nunca saibam exatamente o que o comandante pensa, para que não se instaure um clima de confiança entre o general e a tropa que ele comanda. Ou seja, há um clima propício para evitar rebeliões que pudessem favorecer a oposição.

Outro fator abordado por Stuenkel foi a influência externa. Rússia e China continuarão apoiando Maduro enquanto não tiverem certeza do futuro. Se um possível novo governo se entendesse com esses países garantindo a continuidade dos negócios, eles fechariam os olhos ao fim da ditadura.  E há Cuba, com milhares de “conselheiros” no país, garantindo inclusive qualidade militar em possíveis confrontos.

Já sobre os EUA, Stuenkel afirmou que Trump pode até estar louco para jogar umas bombas por lá, mas encontra resistência dos militares. Escaldados por outras intervenções que custam bilhões de dólares mensais, além da perda de prestígio político, esses militares consideram que a intervenção poderia até ser fácil: em uns três dias o país poderia estar dominado, mas o problema é o que vem depois. A economia venezuelana está arrasada e os EUA, se invadissem, seriam responsáveis pela retomada do país, o que demoraria anos, talvez mais de uma década, tamanho o estrago feito pelo governo socialista. Stuenkel citou que a Venezuela não só perdeu seus melhores quadros (financeiros e intelectuais) que saíram do país aos primeiros sinais da degringolada geral, como a população que ficou perdeu, em média, cinco quilos de peso, o que é um claro sinal da penúria em que está o país. E a recuperação vai demorar.

Por fim, Stuenkel falou que não há uma previsão segura sobre o fim da ditadura, mas ele passa, necessariamente, pela vontade dos generais. E como eles estão ganhando muito dinheiro e cometeram e cometem muitos crimes, dificilmente apoiarão o fim da ditadura. E sem o apoio deles, Guaidó não tem força para derrubar Maduro.

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Edmilson Siqueira é jornalista

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