Pluralidade transgressora torna difícil imaginar um futuro. Por Aylê-Salassié F. Quintão*

Pluralidade transgressora torna difícil imaginar um futuro

Aylê-Salassié F. Quintão*

Seria o nosso apocalipse?  Não tem cara de revolução. Pelo contrário, os governantes reivindicam o reconhecimento do País como um “emergente” liberal. Diante de estranhezas tão plurais, sentimo-nos, por analogia, como se vivêssemos na Beócia, da velha Grécia central, assistindo ao jogo lúdico dos advogados, juízes e meliantes…

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Ao espalhar seus fluídos por aí, Narciso e seus seguidores não dão o menor sinal de preocupação com a governabilidade e os rumos da Nação. Giram todos no vazio à procura de uma “maioria” volátil. Navegar é preciso… Assim, em nome da liberdade de expressão, os cidadãos se divertem espantados com os protestos de algumas moças nuas, pelas ruas do Rio de Janeiro ou, na Bahia, com um grupo de rapazes assistindo, também nus, a uma palestra no campus da Universidade.

Quase ao mesmo tempo, na USP, em São Paulo, debate-se uma tese de doutorado sobre “orgias gays”. Concomitante, o governo libera o uso de armas de fogo e, na internet, mais uma notícia falsa alarmante é desmentida , na “cara dura”, logo depois de veiculada, por aqueles que a criaram.

 Nesse mesmo diapasão, não passa um dia sem que alguém do Governo dê uma opinião inoportuna. É pouco. No Supremo Tribunal Federal admite-se retomar a discussão da condenação em “terceira instância”, negada em plenário por três vezes. Se aprovada, libertará a maioria dos políticos e corruptos presos, inclusive um ex-presidente, e mais uma centena de delinquentes.

 Seria o nosso apocalipse?  Não tem cara de revolução. Pelo contrário, os governantes reivindicam o reconhecimento do País como um “emergente” liberal. Diante de estranhezas tão plurais, sentimo-nos, por analogia, como se vivêssemos na Beócia, da velha Grécia central, assistindo ao jogo lúdico dos advogados, juízes e meliantes, tentando se valer dos permissivos recursos para alcançar a prisão domiciliar, a liberdade condicional ou a prescrição de penas…

 Tornaram-se institutos usuais cautelares na área da Justiça, na qual prevalece a tolerância com o delito: não temos prisão perpétua, nem sanções de morte e os condenados a penas altas podem tê-las reduzidas, segundo as conveniências judiciárias e políticas.

Difícil dizer se essas novas práticas que agridem os costumes e depreciam a institucionalidade, seriam expressões   de vanguarda, explosões de hormônios ou insatisfação mesmo.  A conclusão mais imediata, é a de que os seus protagonistas não tem compromissos com a ordem social que aí está e a organização do País. Inovam no escárnio, deixando clara a disposição para desafiar não somente o Governo de plantão, mas também as leis – até as de trânsito – que sustentam a configuração do povo brasileiro.

 De todos os lados, desencadeiam-se fatos delituosos que invertem as responsabilidades individuais entre a ordem e a criminalidade: o autor do crime é sempre a polícia. Surgem daí cidadãos confusos, inseguros e amedrontados. Ultimamente, assiste-se apenas indignado, a vulgarização da violência contra a mulher e os assassinatos de professores e estudantes dentro das salas de aula torna-se lugar comum. Comportamentos disruptivos encontram abrigo em institutos organizados, até no interior do aparelho de Estado, às vezes sob a forma de conselhos, para diluir responsabilidades individuais.

Intervenções inusitadas e manifestações estapafúrdias emergem, todos os dias,  no caminho da sociedade civil , aparentemente sem origens expressas, comprometendo a coesão social e a governabilidade. Viralizam-se na  cotidianidade à procura de espaços para naturalizar-se, e alcançam fácil os pátios das escolas. Há pouco interesse sobre a tentativa de assassinato do Presidente(candidato). A educação osmótica vai inspirando uma cultura e uma pedagogia da transgressão.

…Vulgaridades discursivas e genéricas – e não a liberdade de expressão – substituem os fracassos na gestão das políticas públicas, expondo incompetências e indicando uma perda de rumo da Nação, fragmentação, cujos riscos o País já experimentou no passado.

 Nesse embate, as esperanças tornam-se frágeis, e o futuro totalmente incerto. Atitudes ardilosas de políticos não descem ao submundo, sobem degraus. O Governo do Distrito Federal cobrava o imposto de policiais militares, civis e bombeiros do DF desde 2003, e ficava com o dinheiro. O Supremo quer a devolução de tudo à União. Enfim, o próprio Presidente da República palpita sistematicamente sobre situações que não lhe dizem respeito na Venezuela, na Argentina, em Israel e em outros países.

 A confusão dos cidadãos, essa mesma gerada pelo mal delineado bolivarismo, vem deixando os venezuelanos à deriva. Lá, quando se decidiu reagir, era tarde. Consertar tudo isso, será muito difícil.    O PIB caiu mais de 60 por cento: faltam recursos para tudo. A dignidade do venezuelano está lá em baixo.  Não dá sinais muito diferentes o PIB do Brasil. Caiu 30 por cento nesses últimos quatro anos.

Vulgaridades discursivas e genéricas – e não a liberdade de expressão – substituem os fracassos na gestão das políticas públicas, expondo incompetências e indicando uma perda de rumo da Nação, fragmentação, cujos riscos o País já experimentou no passado.

Naturalizam-se, desta maneira, pedagogicamente, práticas transgressoras plurais que, aos poucos, pela indiferença e o deboche, vão tomando formas de legitimidade, instruídas – quem sabe-nos subterrâneos por alguma ordem satânica. Ora, se a estabilidade das práticas e costumes institucionalizados estão em risco, por extensão, a governabilidade, a segurança do Estado e da sociedade também estão.

Se é assim que se deseja, terminaremos fazendo piquenique nus nos jardins do Palácio da Alvorada.


Aylê-Salassié F. Quintão* – Jornalista, professor, doutor em História Cultural. Vive em Brasília.

 

 

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