Concordam em concordar. Coluna Carlos Brickmann

CONCORDAM EM CONCORDAR

COLUNA CARLOS BRICKMANN

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EDIÇÃO DOS JORNAIS DE QUARTA-FEIRA, 29 DE MAIO DE 2019

Não, eles não eram maioria: mas havia, entre os bolsonaristas que foram às ruas, estridentes grupos radicais, que pediam o fechamento do Congresso e do Supremo e insultavam Rodrigo Maia, o articulador das reformas. Bolsonaro elogiou os manifestantes. E qual foi a consequência de tudo?

O amor é lindo: o presidente Bolsonaro tomou café da manhã com Rodrigo Maia, presidente da Câmara, Dias Toffoli, presidente do STF, David Alcolumbre, presidente do Senado, e todos decidiram apoiar uma agenda conjunta pelas reformas. Maravilha: concórdia, em nome dos superiores interesses do Brasil (e válida até que ocorra nova troca de insultos).

Mas que concórdia é essa? Um ministro do Supremo, a quem cabe julgar a constitucionalidade do que é votado, não pode fingir que não viu nada de ilegal, se ilegalidade houver. Ou seja, só apoia por apoiar. A Câmara aprovou a medida provisória que reduziu o número de ministérios de 29 para 22, e manteve o Coaf com Guedes, não com Moro. Bolsonaro se conformou (se o Senado mudar algo, a MP tem de voltar à Câmara, e talvez não haja tempo de votá-la até dia 3, quando expira e voltam a existir 29 ministérios). Mas o líder de Bolsonaro no Senado quer o Coaf na Justiça, e luta para mudar a MP. Ministro de Bolsonaro, Moro também quer que a MP mude. E ninguém se entende. Alcolumbre não fala, mas presta muita atenção.

Traduzindo, eles concordam apenas em concordar. Talvez funcione. E seja o que Deus quiser.

Centrão sem centrão

Diante das críticas dos manifestantes ao Centrão, visto como interessado só na Oração de São Francisco (“é dando que se recebe; é perdoando que se é perdoado”), Rodrigo Maia, mais Centrão impossível, convidou deputados para formar uma frente suprapartidária, deixando o Centrão de lado. Entram na lista desde Kim Kataguiri e Pedro Lupion, do DEM, até Sílvio Costa, do PRB, partido de Valdemar Costa Neto, e Tábata Amaral, a musa do pessoal de primeiro mandato, do PDT de Ciro Gomes. Objetivo: montar uma agenda positiva, seja lá isso o que for. Ou, mais simples, lutar pelas reformas, ao lado da equipe econômica, que se reunirá frequentemente com eles. A ver.

Precisa dar certo

A barafunda política atrapalhou algo que, diante da crise, estava correndo sem obstáculos: as reformas (já que, sem elas, não haverá investimentos nem a Previdência conseguirá pagar as aposentadorias). A demora no andamento das propostas já se reflete pesadamente no prestígio de Bolsonaro entre os investidores institucionais. A pesquisa da empresa de investimentos, que busca informações para seus investidores) mostra que a aprovação de Bolsonaro entre agentes do mercado financeiro caiu de 28% para 14%, de abril para cá. E 43% dos investidores institucionais avaliaram como ruim ou péssimo o desempenho do Governo. Em abril, esta era a sensação de 24% dos ouvidos.

Quem melhorou, para esse nicho específico de investidores institucionais, foi o Congresso: seu trabalho foi considerado ótimo ou bom por 32% (em abril eram 15%), e a porcentagem de ruim e péssimo caiu de 40% para 25%. Importante: 80% confiam na aprovação da reforma da Previdência neste ano. O percentual é o mesmo desde fevereiro. Espera-se que todas as votações no Congresso estejam concluídas no quarto trimestre. Mas se acredita que a reforma poupará R$ 700 bilhões em dois anos, embora a proposta original do Governo trabalhe com R$ 1,237 trilhão de economia.

Visão de futuro

De acordo com a pesquisa, se a reforma da Previdência não for aprovada, a Bolsa cairá 20%, para 75 mil pontos, e o dólar subirá 12%, para R$ 4,50. Se a reforma trouxer metade da economia proposta, a Bolsa subirá 7%, para 100 mil pontos, e o dólar ficará em R$ 3,90. Caso a reforma proposta pelo Governo passe integralmente, a Bolsa subirá 28%, para 120 mil pontos, e o câmbio irá para R$ 3,60 por dólar. Espera-se que, em quatro anos, a venda de ativos do Governo, no processo de privatização, atinja R$ 300 bilhões.

Aliados, mas desafetos

O ministro da Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas, tem um esporte favorito: falar mal do diretor-geral da Agência Nacional de Transportes Terrestres, Mário Rodrigues, de quem é desafeto. Diz insistentemente que a ANTT está fragilizada por ter seu diretor citado em delação premiada, o que é ruim para a imagem e a credibilidade da agência.

Pois é: quando era subordinado ao ministro Moreira Franco, igualmente citado em delações, Tarcísio não se preocupava – tanto que não pediu para sair. Mas agora, para se livrar do desafeto, pensa até em mudar a estrutura do Ministério, fundindo a ANTT com a Antaq, Agência Nacional de Transporte Aquaviário.

O atual Governo parece copiar o PSDB, um partido de amigos composto 100% por inimigos. Os aliados do presidente querem exclusividade: não conseguem admitir a existência de outros aliados e os combatem com fervor.

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1 thought on “Concordam em concordar. Coluna Carlos Brickmann

  1. Seria bom saber qual, exatamente, é ‘a pesquisa da empresa de investimentos’. Sem saber o currículo da dita-cuja, ela pode ser o DataCapitão, fundado na casa do Zero-Dois , ou o IboPT, que realiza pesquisas desde uma cela em Curitiba. Pelo que diz o parágrafo intitulado ‘Visão de futuro’, no entanto, a instituição parece mesmo é encomenda da FIESP – e a pesquisa, o objeto encomendado. De fato, o que está ali exposto mais parece uma ‘visão do terror’ que do ‘futuro’. Terror, ou chantagem terrorista, contra o Congresso Nacional, bien entendu… Como está, parece que, se não agir ‘patrioticamente’, e aprovar tudo que Sua Alteza Real Paulo Guedes deseja, o Congresso afunda de vez o país no brejo e assume a culpa sozinho. A pesquisa sugere que, agindo de acordo com as ordens do Príncipe mandão, o Congresso não só nos salva de nosso destino abismal, mas igualmente nos põe no rumo glorioso do Primeiro Mundo Desenvolvido. Ou seja, ou o Congresso se une aos venturosos (por acaso, o governo, que o chantageia na cara dura), ou veste a máscara do malfeitor (oposicionista, claro) que trama contra os empregos que a massa implora. Que ele fique, pois, ao lado de nosso bom governo e dos resultados que nos entregará, agindo com responsabilidade cívica! Será isso mesmo? Tenho minhas dúvidas quanto aos resultados prometidos pelas ‘previsões’ dos ‘investidores’ (e vai saber quem são…), mas não tenho nenhuma sobre a chantagem canalha que a divulgação dessa loteria desenvolvimentista fantasiosa – rigorosamente, um bingo que sorteia porcentagens, dada a precisão e a aferibilidade desse delírio otimista – representa diante da população que quer resultados já, e está sempre disposta a identificar e punir os responsáveis pela sua miséria.
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    Em tempo: ‘Precisa dar certo’, creio, deu um erro: lá no final, em meio a tantos números improváveis que surgem dos sonhos em Brasília, menciona-se a poupança de ‘R$ 700 bilhões em dois anos, embora a proposta original do Governo trabalhe com R$ 1,237 trilhão’ em dez. Ou o respeitado jornalista quis escrever ‘dez’ e não ‘dois’, ou aposta no bingo.

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