Violência contra os idosos – I. Por Meraldo Zisman

VIOLÊNCIA CONTRA OS IDOSOS (I)

A IMPACIÊNCIA PARA COM OS VELHOS

MERALDO ZISMAN


… O maltrato infligido a idosos é um tema velado na coletividade, principalmente neste momento em que a reforma da Previdência Social é a bola da vez e um dos principais argumentos para sua aprovação é o aumento cronológico da vida dos velhos aposentados. Não sou contra a reforma da Previdência, mas ninguém pode ser culpado por viver mais ou menos tempo…

Costuma perder a paciência com seus pais idosos?

A vida é movimento: “Movimento não só aquele chamado local, mas é também o movimento da geração da corrupção, de envelhecimento, das mudanças. O cabelo que fica branco é um movimento. Toda e qualquer mudança corpórea, toda e qualquer mudança mental, é sempre um movimento é um motu, é uma mudança.” [Aristóteles (384 a.C. 322 a.C.). & Santo Tomás de Aquino (1225-1274)]. 

As pessoas, em geral, preferem usar o telefone ao invés de ir ao encontro de outras pessoas; isso reflete a impaciência, a vontade de economizar tempo, deixar de realizar um encontro real para se consolidar num encontro virtual. A TV passou pelo mesmo processo de economia de tempo através da evolução tecnológica. Antes as pessoas tinham de se levantar do sofá para mudar de canal; atualmente, o controle remoto evita que a pessoa se levante.

A violência é generalizada, não ocorre exclusivamente nas instituições destinadas a “abrigar” ou ser garagem/depósito de velhos e velhas.

Quem tiver mais cuidado ou não for impaciente vai notar que a maioria das pesquisas a respeito do envelhecimento trabalha com dados coletados em instituições geriátricas. Seja isso por facilidade de realizar o estudo (população investigada) ou para facilitar a aplicação de critérios informáticos ou algoritmos, apressando conclusões como se as emoções humanas pudessem ser expressas por números.  Portanto, a grande maioria dos casos de violência contra os idosos não aparece nessas pesquisas, escondidos estão nos intramuros domésticos ou camufladas por conformidades ditas sociais.

O maltrato infligido a idosos é um tema velado na coletividade, principalmente neste momento em que a reforma da Previdência Social é a bola da vez e um dos principais argumentos para sua aprovação é o aumento cronológico da vida dos velhos aposentados. Não sou contra a reforma da Previdência, mas ninguém pode ser culpado por viver mais ou menos tempo… Ainda bem que as mídias profissional e social abandonaram esse argumento – tipo bode expiatório – de que viver por mais tempo é a causa de todos os problemas.

Para dizer que o idoso merece atenção especial por sua vulnerabilidade, dependência e convergência a maiores morbilidades não é necessário um número estatístico.

… Há pouca informação sobre a extensão dos maus-tratos a populações idosas nos países em desenvolvimento, mas estima-se que 4 a 6% das pessoas idosas em países de alta renda tenham sofrido algum tipo de maltrato em casa, imagine no Brasil.

Antes de adentrarmos o assunto do começo deste artigo, pertinente será recordar que a última classificação das Nações Unidas em relação à divisão da população em grupos etários inclui as seguintes categorias:
• Pessoas adultas: 45 a 59 anos;
+ Pessoas idosas: 60-64 anos;
+ Pessoas idosas: 65 a 90 anos de idade; (negrito do autor).
• Pessoas muito idosas: 90 e mais anos de idade.

Importante seria saber como a Organização Mundial da Saúde avalia a noção de pessoa além dos 65 anos ou velha. Velhice é um processo fisiológico específico de qualquer forma de vida e define o estágio final ontogenético de todos os grupos (animais e vegetais) vivos (ontogenia é a ciência que estuda a origem e o desenvolvimento de um organismo desde o embrião).

A IMPACIÊNCIA não é algo novo. Não é de hoje que as pessoas perdem a paciência quando estão presas num congestionamento ou esperando numa fila ou – para ser mais direto – ensinando o avó ou a avô a usar o computador.

Mas os especialistas que lidam com pessoas idosas acreditam que a impaciência nunca foi tão comum como agora — e por motivos que podem surpreender: “a tecnologia digital, incluindo coisas como celulares, câmeras, e-mails e iPods, está mudando nossa vida. Os resultados imediatos que essa tecnologia oferece têm aumentado nosso apetite por gratificação imediata em outras áreas da vida”. Alguns estudos indicam que muitas pessoas são menos pacientes hoje por causa da tecnologia e por ser impossível obter uma resposta simples para um problema complexo. Como velho psicoterapeuta afirmo: botar a culpa nos outros é fácil…

A maioria das agressões contra idosos parte de jovens ou dos próprios filhos. Lembro a esses agressores íntimos que a impaciência cobra um alto preço. Esse preço inclui dinheiro, amigos, dor, sofrimento e inúmeras outras consequências simplesmente porque a impaciência costuma ser seguida de péssimas decisões.

E lembro ainda o que já estou cansado de tanto repetir:
O maltrato a idosos é um ato que é mortificante, mesmo que seja um único. Nem nos animais ditos irracionais os zoologistas registram entre seus congêneres a matança dos mais velhos *.

Há pouca informação sobre a extensão dos maus-tratos a populações idosas nos países em desenvolvimento, mas estima-se que 4 a 6% das pessoas idosas em países de alta renda tenham sofrido algum tipo de maltrato em casa, imagine no Brasil.

Várias táticas têm sido propostas para prevenir maus-tratos a idosos e criar medidas para mitigar suas consequências, incluindo campanhas de conscientização pública e profissional, rastreio (de possíveis vítimas e abusadores), intervenções de apoio ao cuidador (por exemplo, gerenciamento de estresse, cuidados de repouso), serviços de proteção para adultos e grupos de autoajuda. No entanto, a eficácia desses métodos ainda não está bem estabelecida.

  * Os índios da América do Norte, ao emigrar, deixavam os velhos que não os podiam acompanhar para trás, para morrerem de fome ou de sede ou por ataque de animais… Assim, os velhos deixavam de ser um peso para os mais jovens. Será que os peles vermelhas não são mais sinceros do que nós, os ditos civilizados? Mede-se o grau de civilização de um povo pela maneira como tratam as mulheres, as crianças e os seus idosos.

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Meraldo Zisman Médico, psicoterapeuta. É um dos primeiros neonatologistas brasileiros. Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha). Vive no Recife (PE).

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