Cai o mais longevo dos técnicos. Coluna Mário Marinho

CAI O MAIS LONGEVO DOS TÉCNICOS

COLUNA MÁRIO MARINHO

Queda de técnico não é novidade no futebol brasileiro.

A bem da verdade nem deveria ser notícia. Afinal, um dos pilares da sustentação para que uma notícia mereça ser veiculada é o fato de ser novidade.

A história do nosso futebol está repleta de técnicos com passagens relâmpago por times – times grandes e técnicos de prestígio.

Júnior, hoje comentarista de respeito da TV Globo, um dos maiores laterais esquerdos do futebol brasileiro foi técnico do Corinthians por 10 dias.

Apenas dez dias: três jogos – uma vitória e dois empates. Pediu demissão no 10º dia.

Aliás, o Corinthians tem sua história repleta de passagens curiosas com técnicos.

Na década de 60, seu técnico ficou sabendo que estava demitido pelos jornais. Aliás, por jornais, não – por um jornal: o Jornal da Tarde.

O grande furo jornalístico foi dado pelo repórter Vital Bataglia que ficou sabendo na véspera que Filpo Nuñes seria demitido no dia seguinte.

Ousado, mas bem informado, Bataglia escreveu a matéria com todos os detalhes. A Manchete foi: “Filpo, Você está demitido”.

Naquela época, como autêntico vespertino, o Jornal da Tarde circulava às 15 horas.

O desavisado Filpo Nuñes chegou ao Parque São Jorge para treinar o time às 15,30 horas (treino marcado para as 16 horas).

Ao chegar à porta do vestiário, alguém lhe mostrou o exemplar do JT com a manchete esportiva: “Filpo, Você está demitido”.

“No, no, no creo”, balbuciou o argentino Filpo fazendo cara de vítima.

Mas, o presidente do time então, o deputado Wadih Helu confirmou, a contragosto, a notícia. A contragosto porque Wadih Helu não gostava de jornalista. E não só não gostava, como era acusado de mandar espancar alguns.

Mas o técnico que estamos falando de agora é o Mano Menezes, que também dirigiu o Corinthians, e caiu na noite desta quarta-feira, depois de ver o seu time, o Cruzeiro, derrotado pelo Internacional no Mineirão, pelo jogo de ida das quartas de final da Copa do Brasil.

O competente e sério Mano Menezes chegou ao Cruzeiro em setembro de 2015, ficou por um ano e se transferiu para o chinês Shandong Luneng.

Em julho de 2016, Mano Menezes voltou ao Cruzeiro para escrever bela história que rendeu dois títulos mineiros (2018 e 2019), além de dois títulos da Copa do Brasil (2017 e 2018).

Esse ano, após a conquista do título mineiro, o campeão, chamado por seus torcedores de Cabuloso, o clube entrou em ebulição fora de campo.

Descobriram-se uma série de irregularidades administrativas, denúncias de fraudes, de corrupção, coisa tão feia quanto cabulosa, suja e malcheirosa que está sendo investigada pelo Polícia Federal.

Aliás, os torcedores se referem ao time como “cabuloso” demonstrando orgulho. No meu entendimento, “Cabuloso” sempre quis dizer repulsivo.

Por isso, fui consultar o Michaelis e lá está:

Cabuloso – Que é antipático; que traz azar, má sorte, azarado; que é intrincado, maçante.

De certa forma, essas definições batem com o que eu ouvia nos meu tempos de criança: “Fulano é cabuloso” ou seja: deveria ser evitado.

Talvez o torcedor do Cruzeiro tenha empregado no sentido de que é um time que os adversários evitam por medo.

Faz sentido.

Mano Menezes dirigiu o campeão mineiro por 235 jogos. Venceu 112, empatou 69 e perdeu 54. Seu time marcou 333 gols e sofreu 205.

Mas os últimos 18 jogos foram terríveis: apenas 1 (uma) vitória, 8 empates e 9 derrotas. E mais: nos últimos 8 jogos não marcou um golzinho sequer.

Essa marcha triste coincide com os escândalos cruzeirenses.

Que o time está totalmente inseguro, é coisa que se vê a cada minuto em campo.

Os jogadores erram passes de meio metro de distância; ninguém arrisca um chute de fora da área; um drible, uma jogada bonita, nem pensar.

No domingo passado, ao perder para o Atlético por 2 a 0, Mano Menezes colocou o cargo à disposição da diretoria, mas ouviu dos diretores que a confiança no trabalho dele continuava firme.

Ao entrar no Mineirão nesta quarta-feira, Mano foi até aplaudido pela torcida – sinal de confiança.

Mas, ao final do jogo, derrotado por 1 a 0, o coro mudou e ele ouviu os torcedores o chamando de burro, burro!

Foi o bastante.

Calmo, sereno, Mano explicou que deixava o Cruzeiro pois sente que é preciso que alguma coisa mude.

“Um novo nome, novas ideias”, disse.

E mais:

“O futebol nem sempre tem todas as explicações. Não tivemos briga que afetou o relacionamento com os jogadores. Não tenho problema com nenhum deles. O futebol que dá é o mesmo que tira. As coisas são mais complexas que só dentro de campo. Mas é sobre dentro de campo que sou responsável.”

Mano sai dignamente, sem atirar em ninguém.

Mas essa sua frase: “As coisas são mais complexas que só dentro de campo” … é sintomática e reveladora.

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FOTO SOFIA MARINHO

Mário Marinho – É jornalista. Especializado em jornalismo esportivo, foi durante muitos anos Editor de Esportes do Jornal da Tarde. Entre outros locais, Marinho trabalhou também no Estadão, em revistas da Editora Abril, nas rádios e TVs Gazeta e Record, na TV Bandeirantes, na TV Cultura, além de participação em inúmeros livros e revistas do setor esportivo.

(DUAS VEZES POR SEMANA E SEMPRE QUE TIVER MAIS
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