O ensino da pediatria no futuro. Por Meraldo Zisman

O ENSINO DA PEDIATRIA NO FUTURO

MERALDO ZISMAN

Os pediatras clássicos não permitem, até hoje, a penetração da Psicologia Infantil dentro da Pediatria oficial, quando as necessidades estão se tornando paritárias. O psiquiatra do adulto sabe que ele herda atributos da criança, muito dos seus conhecimentos: transtornos cristalizados.  Pouco sabe do crescimento e desenvolvimento da pessoa…

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A Pediatria lida com o crescimento e o desenvolvimento. Como o indivíduo vai do ovo à idade adulta e atinge a senectude. Ou, muito antes de o novo ser se formar, é resultado das gerações anteriores.

Os aspectos psicológicos têm uma importância fundamental neste momento dos grandes avanços médicos. Outrora, as doenças e moléstias infectocontagiosas ocupavam a maior parte do tempo da atividade do médico. Os estudantes de Medicina esperam, dos professores, aprender a medicina baseada em evidências: os novos avanços genéticos e instrumentais técnicos e científicos. Sentem o imperativo de conhecer, de saber, algo da Psicologia Dinâmica (aquela que aproveita o que as outras escolas haviam elaborado e os aperfeiçoou dentro da Psicologia). A função dos psicólogos é tentar compreender o papel e está voltada as funções mentais no comportamento individual e social, estudando também os processos fisiológicos e biológicos que acompanham os comportamentos e funções cognitivas.

Não podemos ficar aguardando que os pediatras orgânicos sejam capazes de ensinar Psicologia Dinâmica, ou que os psiquiatras infantis estejam capacitados a exercer a Clínica Pediátrica.  Ambos devem se completar de acordo com suas vocações. A esses pediatras que se interessam pelo emocional da pessoa, quando em crescimento e desenvolvimento, costuma-se denominar de psiquiatras infantis, geralmente com residência anterior em Psiquiatria de Adulto.

Que pena! Existe maior ligação da Pediatria Clínica com a Psiquiatria Infantil que desta com a Psiquiatria do Adulto. Não interessa assumir de quem é a culpa e, sim, saná-la. Os pediatras clássicos não permitem, até hoje, a penetração da Psicologia Infantil dentro da Pediatria oficial, quando as necessidades estão se tornando paritárias.

O psiquiatra do adulto sabe que ele herda atributos da criança, muito dos seus conhecimentos: transtornos cristalizados.  Pouco sabe do crescimento e desenvolvimento da pessoa. Há certamente áreas de superposição entre Psicologia Clínica, Acadêmica, Psiquiatria de Adulto.
Há lugar para todos, porém seria bom pormos uma certa ordem para que a coisa fique “trans” ([Medicina]— Prefixo que indica através; além de…), e não interdisciplinar. Os Departamentos de Pediatria do futuro terão que ter um professor de Pediatria Física e Pediatria Psicológica – Departamento Duplo! O essencial é que a formação do psiquiatra infantil venha da Pediatria, porém nada impede que tenha o seu baseamento na Psiquiatria do Adulto.

Os caminhos são individuais assim como as razões. Porém temos que aprender com a experiência. Estamos com uma experiência de prática pediátrica e de ensino de Pediatria de mais de 50 anos, e vejo, com grande apreensão, o caminho que está seguindo a Medicina em geral e a Pediatria, em particular.

Tornando ao território mais afim, veem os experientes de quem os estudantes de Medicina cobram a mesma postura para o ensino da Medicina: que continuem ensinando a Medicina Física baseada em avanços de Anatomia e de Fisiologia, Bioquímica, Imagem e Genética.

Necessitam começar a aprender a Psicologia Dinâmica, além dos óbvios avanços da Neurobiologia e o que mais venha a acontecer. Estão sendo desastrosas para todos e, principalmente, para os pacientes, essas divisões mais políticas do poder médico que propriamente de cunho científico. Quando os interesses dos mantenedores do estabelecido se cristalizam, quem perde é a população e, no caso da Medicina, os pacientes e os profissionais de Saúde.

Não podemos esperar que os professores de Pediatria  saibam para ensinar Psicologia da Criança e do Adolescente. Nem se espera dos mais afetos a essa área igual capacidade. O que proponho aqui e agora é que os Departamentos de Pediatria possuam um professor de Pediatria Infanto-Juvenil Clínico e outro da Área Psicológica. Pode continuar a ser chamado de psiquiatra infantil, porém deve fazer parte do mesmo departamento. No dizer de Donald Winnicott (1961), um Departamento de Pediatria deveria ser o espaço equânime entre a Pediatria dita física e a Psicologia do Ser e Estar em processo de crescimento e desenvolvimento.

Quanto à Psiquiatria do Adulto, ela está interessada nas doenças degenerativas vasculares, cerebrais, bioquímicas, traumáticas, porém pouco se sabem do funcionamento cerebral de um bebê, de um pai ou de uma mãe, do colégio ou nos esportes etc. apesar de buscarem a maioria dos fatos na época da infância. Nisso está a interface entre a Psiquiatria do Adulto e a da Criança. O Departamento de Pediatria do Futuro precisa ter um Departamento de Psicologia Médica como espaço dele mesmo.

 É importante dizer aqui que os pediatras clínicos continuam excessivamente lerdos em reivindicarem essa associação imprescindível com a Psicologia Infanto-Juvenil. O mesmo nas Sociedades de Pediatria e de Adolescentes.

 Acho que há lugar para todos. O conhecimento médico está se expandindo com tal monta que devemos possuir maestros experientes que conduzam o inter-relacionamento, o conhecimento subdividido no departamento. Porém, transdisciplinar.

A longa formação necessária para o profissional de Saúde ser treinado a atender às duas áreas torna impossível ser a vastidão abarcada por uma só mente.

 

Veja os outros artigos onde o autor versa sobre “VIOLÊNCIA”:

artigo I Medicina e Política. Por Meraldo Zisman

artigo IIA Epidemiologia algorítmica na prevenção da violência. Por Meraldo Zisman

artigo IIICélulas espelhos. Por Meraldo Zisman

artigo IVViolência Interpessoal. Por Meraldo Zisman

artigo V – O Medo Ancestral. Por Meraldo Zisman

artigo VIViolência e Drogas. Por Meraldo Zisman

artigo VII Apreciações gerais e tipologia da violência. Por Meraldo Zisman

artigo VIIIViolência Oculta. Cripto-violência. Por Meraldo Zisman

artigo XIXGravidez na Adolescência. Por Meraldo Zisman

artigo XSíndrome da criança espancada. Por Meraldo Zisman


Meraldo Zisman Médico, psicoterapeuta. É um dos primeiros neonatologistas brasileiros. Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha). Vive no Recife (PE). Imortal, pela Academia Recifense de Letras,  da Cadeira de número 20, cujo patrono é o escritor Alvaro Ferraz. Toma posse no próximo dia 15 de agosto.

 

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