A segunda batatada. Por  Alexandre Schwartsman

A SEGUNDA BATATADA

POR ALEXANDRE SCHWARTSMAN

Além de misturarem resultados primários com aquisição de reservas e empréstimos para bancos públicos, os Defensores do Gasto se esqueceram de separar a inflação do crescimento real do PIB. Quando se faz esta correção, conclui-se que os resultados primários tiveram importância bem maior para as variações da relação dívida-PIB do que o crescimento real do produto.

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PUBLICADO ORIGINALMENTE NO INFOMONEY DE 20 DE SETEMBRO DE 2019

O erro crasso dos Defensores do Gasto que demonstrei na minha última coluna não esgota, como notei, o estoque de bobagens cometidos pelo coletivo.

Em sua (na falta de melhor palavra) “análise”, afirmam que:

“Nesse período [2007 a 2014], os juros nominais contribuíram em média com 5,7 p.p. (pontos percentuais) do PIB por ano para o aumento da dívida, enquanto o crescimento do PIB nominal contribuiu em montante semelhante (5,6 p.p.) para a redução da dívida (…)

Já entre 2015 e 2018, o aumento da dívida bruta se deveu a dois condicionantes principais: a péssima performance do crescimento econômico (2,8 p.p.) e o aumento do efeito dos juros nominais (cuja contribuição passa de 5,7 p.p. para 7,1 p.p.).”

O problema dos Defensores, neste caso, é tratar de variáveis nominais, isto é, sem levar em conta o efeito da inflação.

De fato, entre 2006 e 2013 o PIB nominal cresceu à velocidade média de 12,0% ao ano, mas o crescimento do PIB real, isto é, descontada a inflação, foi bem menor, 3,9% ao ano. A inflação média naquele período (medida pelo deflator do PIB, que não é o IPCA) atingiu nada menos do que 7,8% ao ano.

PIB

2006 2013 2018
PIB (R$ bilhões) 2.409,4 5.331,6 6.827,6
Crescimento nominal % aa 12,0% 5,1%
Crescimento real % aa 3,9% -0,9%
Inflação % aa 7,8% 6,0%

Já entre 2013 e 2018 o PIB nominal cresceu bem menos, apenas 5,1% ao ano, por força da recessão iniciada no segundo trimestre de 2014. O PIB real caiu em média 1,2% ao ano no período, enquanto a inflação ficou em 6,0% ao ano.

Se queremos, porém, fazer uma análise econômica digna do nome, temos que usar variáveis reais, não nominais, isto é, o crescimento real do PIB, bem como a taxa real de juros.

Ocorre que a tabela do BC não entrega o prato já pronto, só os ingredientes. É preciso certo esforço algébrico para destrinchar o número (interessados podem ver no Apêndice as contas para tanto), o que não parece sequer ter passado pela cabeça dos Defensores.

Vou poupá-los deste trabalho.

A tabela abaixo refaz as contas dos fatores condicionantes do aumento da dívida bruta entre 2007 e 2018, no caso subdividindo este intervalo em dois períodos: de 2007 a 2013, quando o governo geral (União, estados e municípios) registraram superávits primários; e entre 2014 e 2018, quando o governo geral passou a registrar déficits primários. A subdivisão não é igual à adotada pelos Defensores, embora seja bastante parecida, precisamente porque, se queremos medir a eficácia de superávits primários para reduzir a relação dívida-PIB, nos parece de bom tom usar períodos em que houve tais superávits, isto é, de 2007 a 2013.

Fatores condicionantes da evolução da dívida bruta do Governo Geral – % PIB

Total Média anual
2007-13 2014-18 2007-13 2014-18
Juros nominais 40,5 33,7 5,8 6,7
Emissões líquidas -4,0 4,8 -0,6 1,0
   Emissões para bancos oficiais 9,3 -4,2 1,3 -0,8
   Resultado primário do Governo Geral -18,0 7,0 -2,6 1,4
   Operações com reservas internacionais 11,2 0,3 1,6 0,1
   Demais -6,5 1,6 -0,9 0,3
Reconhecimento de dívidas 0,7 0,3 0,1 0,1
Impacto de variações cambiais 0,1 1,7 0,0 0,3
Efeito do crescimento do PIB real -13,4 2,3 -1,9 0,5
Efeito da inflação -26,8 -17,4 -3,8 -3,5
Efeito cruzado PIB real x inflação -1,1 0,2 -0,2 0,0
Variação da dívida -3,9 25,7 -0,6 5,1
Memorando:
 Juros reais (Juros nominais (-) Efeito da inflação) 13,7 16,3 2,0 3,3
                                                                                                                               Fonte: Cálculos do autor, com dados do BCB

Assim, entre 2006 e 2013 a dívida bruta caiu de 55,5% para 51,5% do PIB, queda de 3,9% (há, como se vê, certo arredondamento). O superávit primário respondeu por queda de 18% do PIB (2,6% do PIB por ano, em média). Já o aumento do PIB real colaborou com 13,4% do PIB (1,9% do PIB por ano). A maior contribuição para a queda, contudo, veio precisamente do fator ignorado pelos Defensores: a inflação “comeu” o equivalente a 26,8% do PIB (3,8% do PIB por ano).

Assim, embora o efeito do juro nominal no período seja grande, 5,8% do PIB por ano, o efeito do juro real (deduzida a inflação) é bem menor, embora significativo: aumento de 2% do PIB por ano.

Entre os demais fatores que elevaram a dívida no período destacam-se a aquisição de reservas internacionais (1,6% do PIB ao ano) e a Bolsa-Empresário, isto é, os empréstimos do Tesouro para os bancos oficiais (principalmente o BNDES), 1,3% do PIB por ano, prática que não mereceu qualquer comentário por parte dos Defensores.

Vale dizer, no período de queda da dívida o superávit primário desempenhou papel mais importante do que o crescimento do PIB, precisamente o contrário do que afirmado pelos Defensores.

Já entre 2014 e 2018 a dívida cresceu 25,7% do PIB (5,1% do PIB por ano). Neste período também a influência do resultado primário (no caso déficits primários) foi maior do que a queda do PIB real: 7% do PIB contra 2,3% do PIB.

O efeito da inflação foi similar, em termos das médias anuais, ao observado no período anterior: -3,5% do PIB ante -3,8% do PIB. Já a conta do juro nominal foi mais salgada: 6,7% do PIB por ano, contra 5,8% do PIB por ano, o mesmo se verificando no caso do pagamento de juros reais, 3,3% do PIB por ano contra 2,0% do PIB por ano.

Resumindo, graças a mais um erro grosseiro (diferenciar variáveis nominais de reais é algo que nos ensinam no curso de Introdução à Economia), os Defensores chegaram a outra conclusão errada. Demonstramos aqui que a disciplina fiscal desempenha um papel muito mais importante do que o crescimento real do PIB para a estabilidade do endividamento do governo.

Note-se que até agora tratamos apenas de uma questão contábil, sem considerar a interação econômica entre política fiscal, política monetária, inflação e crescimento, que, reforçam ainda mais a nossa tese. Isto, porém, será objeto de outra coluna.

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* ALEXANDRE SCHWARTSMANDOUTOR EM ECONOMIA PELA UNIVERSIDADE DA CALIFÓRNIA, BERKELEY, E EX-DIRETOR DE ASSUNTOS INTERNACIONAIS DO BANCO CENTRAL DO BRASIL É PROFESSOR DO INSPER E SÓCIO-DIRETOR DA SCHWARTSMAN & ASSOCIADOS

@alexschwartsman
aschwartsman@gmail.com

 

 

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