Arrotando faisão. Por Aylê-Salassiê Quintão

ARROTANDO FAISÃO

AYLÊ-SALASSIÊ QUINTÃO

…Grande, meio primitivo, cheio de contradições, com uma riqueza em recursos naturais invejada, o Brasil participa do grupo com a boca arreganhada, querendo sempre tirar proveito dos arranjos comuns, o que o deixa em cima do muro, como um oportunista…

Comia ainda “avoantes”, mas arrotava faisão. Pouco mudou a participação do Brasil no BRICS, esse agrupamento informal de países conhecidos como economicamente emergentes – Brasil, Rússia, Índia, China, e África do Sul – de aparência cordial , que prega um novo quadro regulatório global contra o imperialismo, o capitalismo global e o colonialismo remanescente, e que se reúne, em Brasília, nesta semana (13 e 14).

Na quarta-feira desembarcam por aqui Vladimir Putin, Narendra Modi, Xi Jinping, Cyril Ramaphosa . Serão recebidos pelo presidente Jair Bolsonaro. Juntos, representam 23 % do PIB mundial, 42 % da população e mais de 30 % do território. A sigla identitária comum, BRICS, resulta da reunião das letras iniciais dos nomes desses países. O grupo era chamado, individualmente, até pouco tempo, de países em desenvolvimento. Passou a emergentes.

O BRICS é uma organização que se propõe, teoricamente, à ajuda mútua. A agenda da reunião de Brasília é mantida, até agora, sob reserva, mas, em geral, aprovam-se financiamentos a projetos de infraestrutura, de desenvolvimento nacional, e até de déficits em contas nacionais. Para isso, foi criado um Banco, o New Development Bank (NDB). Funciona, precariamente, como uma alternativa ao Banco Mundial (BIRD) ou ao Fundo Monetário Internacional (FMI). Mais da metade dos ativos são provenientes da China.

O grupo trabalha para desatrelar o crescimento dos países emergentes das regras impositivas das instituições que amparam a expansão do modelo liberal capitalista no mundo, procurando flexibilizar as relações comerciais entre os países mais pobres, longe das obrigações tarifárias da Organização Mundial do Comércio (OMC), capitaneadas pelos mais ricos.

… Enfim é a semana do BRICs, e, no STF, aparelhado, tempo dos sábios e sabidos, daqueles que não comem “avoantes”. Só lagosta.

 

Os cinco membros estão entre as economias mais representativas em cada continente. Seus membros, se puderem criar problemas para a influência norte-americana, inglesa, alemã, japonesa, francesa, saudita e outros da mesma natureza ideológica, não hesitarão. Trabalham, resistindo por meio de diálogos, e ameaças pouco explícitas. São potências (ou potenciais) detentoras de tecnologias nucleares. Desenvolvem programas de conquista espacial e de inteligência artificial, e praticam políticas nacionalistas.

A China busca, particularmente, matérias primas e terras agricultáveis no mundo para garantir a sua expansão industrial e o abastecimento da população. A Rússia assegurar uma posição hegemônica num mundo multipolar. A Índia quer superar, de uma só vez, várias etapas no processo de desenvolvimento. A África do Sul, maior economia continental, aproveita a oportunidade para manter uma posição relativamente autônoma no diálogo global.

Onde o Brasil se encaixa nisso? Grande, meio primitivo, cheio de contradições, com uma riqueza em recursos naturais invejada, o Brasil participa do grupo com a boca arreganhada, querendo sempre tirar proveito dos arranjos comuns, o que o deixa em cima do muro, como um oportunista. Segundo informes do FMI, entre 2001 e 2019, enquanto o PIB médio da China (atual: US$ 13 trilhões), em relação ao PIB mundial ( atual: US$ 82 trilhões), teve um crescimento de 11 %; o da Índia (US$ 2,7 trilhões), de 3,80%; o da Rússia (US$ 1.580 trilhões) encolheu 0,28 %; o da África do Sul (US$ 390 bilhões) – 0,12 %; e o do Brasil (US$ 1,8 trilhão) registrou menos 0,67%. Já havíamos alcançado os US$ 2 trilhões. A ideia é, entretanto, promover um desenvolvimento mais igualitário entre os membros. O PIB dos Estados Unidos é superior a US$ 18 trilhões.

A reunião do grupo BRICS no Brasil chega em um momento inoportuno. Os estrangeiros cultivam a ideia de que aqui é o “Paraíso”, e de que “abaixo do Equador tudo é possível”. Ora, a queda da prisão em 2ª. Instância no Supremo Tribunal Federal e a soltura potencializada de centenas de políticos e empresários criminalizados por corrupção, ativa passiva, só servem para afugentar os investidores e depreciar ativos do Estado no processo de privatização macular a imagem do País.

Resta à população civil acreditar que a salvação do Brasil depende mesmo é da benção de Deus, essa mesma cultivada, irresponsavelmente, pelos nossos artistas e intelectuais. A brasilidade é tão volúvel, que não será surpresa se um desses líderes estrangeiros resolver fazer uma citação ao ex-presidente preso, visitá-lo, recebê-lo ou enviar representantes para saudá-lo, caso ele seja libertado.

Enfim é a semana do BRICs, e, no STF, aparelhado, tempo dos sábios e sabidos, daqueles que não comem “avoantes”. Só lagosta.
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Aylê-Salassié F. Quintão*Jornalista, professor, doutor em História Cultural. Vive em Brasília

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