Governados por doentes. Por Aylê-Salassié F. Quintão*

GOVERNADOS POR DOENTES

AYLÊ-SALASSIÊ QUINTÃO

…O País estaria vivendo, portanto, um tempo da patologias explícitas. Há algum tempo, os brasileiros vêm sendo vítimas de seguidos dirigentes mentalmente confusos, que transitam pelas responsabilidades do Estado como uma partilha entre amigos…

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Quando os funcionários chegaram para trabalhar no gabinete do ministério da Fazenda, encontraram o novo ministro, com um grande charuto na boca, esparramado numa enorme cadeira reclinável, vestido com uniforme militar de campanha, pés calçados com botas de couro, sobre a mesa, e um fuzil ao lado. Resultado: o país quebrou. O novo ministro sabia desmontar, mas não montar de volta. Tarde foi substituído.

Passando de uma atitude simbólica para as vias de fato, no Brasil, com sua informalidade comportamental e verborrágica inapropriada, o capitão Presidente vem gerando sistematicamente situações e confrontos, extinguindo programas considerados desnecessários, fazendo concessões inapropriadas e criando arestas com outros chefes de Estado, países e organizações internacionais.

Com suas atitudes intempestivas, desnudou, é verdade, vários temas impostos à sociedade brasileira, sobre os quais a população evitava discutir, constrangida que era pelos policiamentos ideológicos. A maioria dos cidadãos optava pela mudez. O resultado foi a eleição, legítima, para Presidente da República, com 57 milhões de votos, de um ex capitão do Exército.

Desnudou-se uma realidade. Em compensação, gerou-se inusitadamente outra, de tal forma agressiva e inconsistente que, com frequência, leva o governo a negar a si mesmo. Com ousadia retórica, o Presidente acaba de acusar o ator norte-americano, Leonardo Di Caprio, um dos mais prestigiados no mundo, e que já foi parceiro de uma brasileira (Gisele Bündchen) de financiar queimadas na Amazônia. Que coisa, no mínimo, desagradável!

Com atitudes como essa, gerou confronto desnecessário com o Presidente da França, quase prejudicando o Brasil na reunião do G-7 (países mais ricos). Inspirou um confronto verbal com o novo presidente da Argentina, um dos principais parceiros comerciais do Brasil; com o da Venezuela; com os países membros da Conferência do Clima, reunidos esta semana, em Madrid ; com a intempestiva afirmação de que iria transferir a embaixada brasileira, em Israel, de Tel Aviv para Jerusalém, produzindo um desconforto perante os países árabes, grandes compradores do Brasil; pela maratona de tentar fazer o filho – sem qualquer formação específica – ser o embaixador brasileiro em Washington; pelo desmanche do partido pelo qual foi eleito; e outras tantas.

Em suas atitudes, Bolsonaro tem seguido por vias totalmente inversas aos rumos que o País adotou nos últimos anos. Ideias extremadas, pouco inovadoras, tem contrariado expectativas públicas, o pensamento das forças armadas e, inclusive, de seus assessores mais próximos, a maioria generais. Por razões como essas, aos poucos os aliados foram deixando os cargos ou sendo defenestrados, incompatibilizados com as decisões e o comportamento do Presidente.

A partir daí, é de se temer que o presidente capitão, com sua linguagem e atitudes surpreendentemente intempestivas e genéricas, venha a pôr os brasileiros numa fria.

Para o Presidente e os filhos, que se sentem governantes, não há limites. Comportam-se, como se estivessem administrando a casa da família no condomínio da Barra da Tijuca. A presidente da Comissão de Justiça do Senado, Simone Tebet, advogada, ex-prefeita, ex vice-governadora e ex deputada estadual, entende que o governo só vai se sustentar até o final do mandato, se a economia der retorno. E não há clima para um AI-5. Tebet, uma candidata potencial a presidência do Senado, prevê que 2020 será um ano difícil, com as eleições municipais batendo às portas, e o governo sem partido de sustentação.

…Parece faltar, no Brasil, coragem e instrumentos que submeta os pré-candidatos a cargos públicos, como o de Presidente da República, ministro do Supremo Tribunal Federal e até parlamentares (pelo menos, no Senado), à exames de sanidade…

O País estaria vivendo, portanto, um tempo da patologias explícitas. Há algum tempo, os brasileiros vêm sendo vítimas de seguidos dirigentes mentalmente confusos, que transitam pelas responsabilidades do Estado como uma partilha entre amigos. Comportamentos e angustias pessoais misturam-se com o narcisismo, a mania de grandeza e a loucura mesmo. Um presidente nos Estados Unidos lembrava sempre aos amigos: “Se não quer que descubram que você é louco, fique com a boca fechada”.

Convenhamos, também, que transitar pelo espaço da anomia é muito difícil. Aristóteles advertiu que “o homem é, por sua natureza, um animal político” e que ele está “destinado a viver em sociedade”. Mas ensinou ainda que “o objeto principal da política é criar a amizade entre os membros da polis”, e não o contrário: “Um pouco de radicalismo faz bem”, disse um líder político brasileiro. Faz bem para quem, cara pálida?

Nação nenhuma consegue sair fácil de uma recessão econômica e seus cidadãos terem ideias inovadoras, se gastam o tempo a discutir processos de impeachment ou eternos recursos judiciais originários da transgressão.

Parece faltar, no Brasil, coragem e instrumentos que submeta os pré-candidatos a cargos públicos, como o de Presidente da República, ministro do Supremo Tribunal Federal e até parlamentares (pelo menos, no Senado), à exames de sanidade. Quantos seres doentios não estão escondidos atrás dos cargos e mandatos políticos! A consequência de tudo isso, lembrando Zygmunt Bauman, é que nós nos vemos diante de muros, e não de pontes.
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Aylê-Salassié F. Quintão*Jornalista, professor, doutor em História Cultural. Vive em Brasília

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