A volta do contador de histórias. Por Meraldo Zisman

A VOLTA DO CONTADOR DE HISTÓRIAS

MERALDO ZISMAN

…Geralmente, não possuem boa voz, têm uma maneira de cantar seu canto acompanhando os versos. O resultado é agradável. São os jornalistas do sertão, contando e cantando a história dos homens famosos, acontecimentos importantes, aventuras e casos extraordinários…

É no relato de um bucólico contador de estória, nas feiras e praças desses Brasis, que se perpetuam as tradições e singularidades das gentes do subcontinente [brasileiro]. São lendas e verdades; crenças e crendices; episódios e acontecimentos; casos e causos; estórias e histórias, vitórias e derrotas; cantorias e cantos, fartura e pobreza; alegria e sofrimento; nascimento e morte. Cordel e viola; bicho e gente. Operário e patrão; empregado e desempregado; pobre e rico. Depoimento oracular da gênese do Povo Brasileiro. Fenômeno Universal…

Não é à-toa que está na moda, nas escolas, ajustar contratos com os contadores de história, leitores em voz alta. Os cantadores são comuns no Nordeste, cantam versos de sua própria autoria ou repetem composições alheias ou, ainda, histórias tradicionais da memória coletiva.

…o final é o mesmo: todo ato justo é recompensado; os inocentes são vingados; a bondade triunfa.

Geralmente, não possuem boa voz, têm uma maneira de cantar seu canto acompanhando os versos. O resultado é agradável. São os jornalistas do sertão, contando e cantando a história dos homens famosos, acontecimentos importantes, aventuras e casos extraordinários, histórias tradicionais europeias, principalmente da península ibérica, ou contos e cantos populares, de origem indígena ou africana.

Qualquer que seja o tema, porém, o final é o mesmo: todo ato justo é recompensado; os inocentes são vingados; a bondade triunfa. Toda essa literatura, em verso ou em prosa, é impressa, de modo rudimentar, em folhetos – é a “literatura de cordel”.

Será bom rememorar que a arte literária ultrapassa a conjuntura abrangida pela mídia e inventos eletroeletrônicos. As inseguranças provêm de uma ênfase muito acentuada na ciência e procedimentos.

As conquistas científicas aumentaram muito o conhecimento e o poder do homem, mas deve ser ensinada a pessoa a utilizar este “poder”, de maneira sensível e moral.

O perigo da tecnologia é implantar no Homem a convicção enganosa de que ele é onipotente, impedindo de ver sua imensa fragilidade. A grande ditadura da técnica se aproxima para libertar as pessoas de certos problemas e escravizá-los aos botões de comando.

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Meraldo Zisman Médico, psicoterapeuta. É um dos primeiros neonatologistas brasileiros. Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha). Vive no Recife (PE). Imortal, pela Academia Recifense de Letras, da Cadeira de número 20, cujo patrono é o escritor Álvaro Ferraz.

2 thoughts on “A volta do contador de histórias. Por Meraldo Zisman

  1. IMPERDÍVEL enquanto FORMIDÁVEL, Dr. M raldo!

    “Será bom rememorar que a arte literária ultrapassa a conjuntura abrangida pela mídia e inventos eletroeletrônicos. As inseguranças provêm de uma ênfase muito acentuada na ciência e procedimentos”.

  2. Extraordinário Meraldo. Os jornalistas do sertão. Acho que você encontrou uma excelente denominação. Figuras como Leandro Gomes de Barros e Francisco das Chagas Batista , por exemplo ,criados , lavados , batizados e imortalizados pelas águas da Serra do Teixeira estariam bem qualificados como Jornalistas dos Sertão.

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