Um Brasil paradoxal em 2019. Por Edmilson Siqueira

UM BRASIL PARADOXAL EM 2019

EDMILSON SIQUEIRA

..ao mesmo tempo em que o Brasil caminha bem nas áreas mais sensíveis de um governo – segurança e economia – caminha mal, muito mal, nas relações institucionais e políticas que deveriam ser geridas pelo presidente. Suas destrambelhadas ações, suas encrencas diárias, suas acusações sem nexo à imprensa, sua máquina de moer reputações copiada do PT…


“Eu vou trabalhar pela interdição do presidente”. A frase é do advogado e ex-ministro do governo Bolsonaro, Gustavo Bebianno, em entrevista à Jovem Pan. Ela aparece no bojo de uma série de acontecimentos cheios de acusações sem prova, de declarações estapafúrdias e de acontecimentos insólitos. Bebianno, que trabalhou na campanha de Bolsonaro e que foi seu ministro durante alguns meses, elenca fatos que praticamente comprovam que faltam alguns parafusos na cabeça presidencial.

Ao mesmo tempo em que temos um presidente que pode ser considerado louco por um de seus desafetos – e não é a oposição oficial que está dizendo – alguns aspectos do governo parecem ser comandados por gente equilibrada, de bom senso, com olhos voltados para o futuro. É o que acontece na economia, na segurança e na infraestrutura, onde Paulo Guedes, Sérgio Moro e Tarcísio Gomes fazem trabalhos dignos de agentes públicos diferenciados e estão conseguindo resultados surpreendentes.

Mas não deve ser fácil para os três e suas equipes se equilibrarem no meio do caos em que se transformou o governo federal desde seus primeiro momentos.

Paulo Guedes já teve de abandonar posições que, embora corretas, desagradavam ao capitão ou iam de encontro a objetivos de aliados deles, objetivos nem sempre republicanos, diga-se. Moro teve de aprender a fazer a rasteira política brasileira a toque de caixa, já que seus projetos – essenciais para o Brasil – não encontravam o apoio necessário do núcleo duro do governo para ter uma passagem tranquila pelo Congresso. Foi o próprio Moro que teve que se submeter a infindáveis e repetitivas sabatinas políticas para tentar convencer políticos que já sabiam como iam votar, mas queriam aproveitar os holofotes que o ministro mais bem avaliado do governo lhes proporcionava. Blindar Moro desse desnecessário desgaste? Nem pensar.

A discrição do engenheiro militar Tarcísio Gomes e sua área de trabalho bem menos visível que as outras, têm proporcionado certa tranquilidade ao ministro da Infraestrutura e ele não foi entregue, pelo menos por enquanto, à sanha da, digamos, classe política brasileira. Mas, pelo andar da carruagem, pode, a qualquer momento, tropeçar num aliado importante do capitão e cair em desgraça.

Esse é o Brasil que brotou da cabeça de um deputado do baixo clero que percebeu a chance de ser presidente da República na enorme brecha que partidos de centro (esquerda e direita) deixaram ao se verem totalmente tolhidos pela máquina petista. A esperteza inicial de Bolsonaro e família, se lhe serviu para vestir a faixa presidencial, hoje o revela como um dos mais despreparados presidentes que já chegaram ao poder. E olha que a concorrência é grande.

Uma tumultuada entrevista dada à saída do Palácio, na sexta-feira passada, mostrou bem o personagem que está no poder: mal educado, mal informado, grosseiro ao extremo, mostrando ignorância, debochando de profissionais que estavam ali a trabalho e com uma claque de imbecis que aplaudiam sua glossolalia, Bolsonaro transformou o improvisado encontro numa síntese do que ele e seus asseclas são na direção do país (com as honrosas três exceções já citadas). Sua tentativa de ser esperto, ou tentar ser mais esperto do que o repórter, leva-o às raias do ridículo. Ao não responder as perguntas e atacar a imprensa, traveste-se numa mistura de Maluf e Collor, aderindo ao que havia de pior nos dois.

Enfim, ao mesmo tempo em que o Brasil caminha bem nas áreas mais sensíveis de um governo – segurança e economia – caminha mal, muito mal, nas relações institucionais e políticas que deveriam ser geridas pelo presidente. Suas destrambelhadas ações, suas encrencas diárias, suas acusações sem nexo à imprensa, sua máquina de moer reputações copiada do PT, seus complicados – e provavelmente corruptos – filhos, seus ministros sem qualquer condição para exercer o cargo, sua fraquíssima base aliada e o protagonismo executivo dos presidentes da Câmara e do Senado colocam sim em risco a sobrevivência de seu mandato.

Assim, o Brasil termina o ano com um enorme ponto de interrogação sobre seu futuro político para o ano que se inicia. As eleições municipais de 2020, se Bolsonaro sobreviver até lá, poderão ser um sinal de alerta ao governo. Se as pesquisas de hoje se confirmarem, a influência do capitão será ínfima, comparável a de um deputado do baixo clero, que, infelizmente, Bolsonaro nunca deixou de ser. E, dali pra frente, o cheiro de sangue no nariz dos adversários de 2022, transformará o seu governo num inferno total. Se os três ministros sobreviverem ao calor das chamas políticas e levarem adiante seus projetos, restará tênue esperança de que o Brasil se livrará, sem maiores traumas, de um presidente totalmente inepto para o cargo que os eleitores (eu entre eles, por falta de opção no segundo turno) lhe deram.

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Edmilson Siqueira é jornalista

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