Mesa de bar. Por Meraldo Zisman

MESA DE BAR

 MERALDO ZISMAN

A mesa agora passou a ser lugar de briga. Palavras convivem bem com mais de um sentido. Não existe certo ou errado nessas circunstâncias. Assim, por questões regionais, a macaxeira pode ser chamada de mandioca ou aipim…

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Revolucionário, reacionário, liberal e conservador são palavras muito empregadas neste momento da vida nacional. As mesas dos bares passaram a ser lugar de embate, ofensa e desamor. Não é mais lugar de boêmia, conversas, dor de corno e música com sensíveis letras:

A mesa agora passou a ser lugar de briga.

Palavras convivem bem com mais de um sentido. Não existe certo ou errado nessas circunstâncias. Assim, por questões regionais, a macaxeira pode ser chamada de mandioca ou aipim.

George Orwell (1903- 1950), escritor inglês, escreveu um livro intitulado entre nós, brasileiros, de A Revolução dos Bichos, mas em Portugal ganhou outro nome: O Porco Triunfante/​O Triunfo dos Porcos/​A Quinta dos Ani­mais. Dizia o escritor: se o pensamento corrompe a linguagem, a linguagem também pode corromper o pensamento.

Adjetivos como liberal, conservador, revolucionário, reacionário e similares são hoje empregados no Brasil sem se saber o seu verdadeiro significado e tudo termina — no momento — em samba-briga. E, pior ainda, por ignorância dos significados, passaram a ser empregados como julgamentos políticos, finalizando em brigas entre socialistas e fascistas, nas camadas mais comedidas, e nas mais irritadiças de comunistas e até de nazistas.

Daí, os nossos filósofos “públicos” do YouTube ou privados, do WhatsApp (temos muitos e de sobra), gostam de proferir um mote roubado dos cantadores nordestinos que diz que no Brasil perdemos o “bonde da história”. Mas bonde é um transporte popular que praticamente não existe – e há coisas mais modernas e rápidas…

Prossigo na minha exposição:

O avarento, chama de pródigo o liberal; o covarde, de temerário o valente; o distraído, de hipócrita o modesto; e cada um condena o que não tem, por não confessar o que lhe falta. E eu digo e acrescento: conservador é uma pessoa covarde demais para se bater e gordo demais para combater; o revolucionário quer que tudo mude repentinamente, enquanto o reacionário quer que tudo volte para trás.

…as mesas dos bares foram desvirtuadas por ideologias, as mais estapafúrdias. Relembro que o nazismo foi parido numa cervejaria de Munique. Cuidado. 

Sei também de outras coisas que aprendi com a idade: comete tolice quem perde seu tempo dando conselhos apaziguadores, pois somos péssimos consoladores e amaldiçoados sofredores. De uma coisa certeza tenho: não conspira quem nada ambiciona.

O revolucionário quer que tudo mude e de repente. O reacionário quer que tudo volte para trás. Acredito no velho ditado espanhol que diz: “Sem baionetas não há revolução, além de que ninguém pode nelas sentar-se”. “A revolução é uma opinião que encontra o apoio das baionetas” afirmava o guerreiro Napoleão Bonaparte.

Dessas balbúrdias que estamos vivendo têm surgindo acertados modismos que se fundamentam em erros grosseiros, outros são tolos ou se desgastam pela repetição. Na maioria das vezes, a lógica e o questionamento são o que se convencionou chamar de politicamente correto, expressão que funciona como camuflagem para resolver e enfrentar os nossos problemas reais, cuja raiz foi/permanece sendo a escravidão.

Costumo dizer e escrever: o escravo liberta-se, e deixa de ser escravo; o senhor de escravo deixa como herança a mentalidade distorcida – pela descendência afora.  A escravidão humilha o escravo, mas embrutece o senhor.

Como meu pai era um judeu-russo, tocava balalaica e não bandolim. Ainda bem que não mais se encontra por aqui para ver como ficou o seu lugar na mesa do bar em que tocava e dialogava com os amigos.

Mas, a saudade foi tanta que escrevi um livro e intitulei-o Jacob da Balalaica. A saudade está cada vez maior pois as mesas dos bares foram desvirtuadas por ideologias, as mais estapafúrdias. Relembro que o nazismo foi parido numa cervejaria de Munique. Cuidado.

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Meraldo Zisman Médico, psicoterapeuta. É um dos primeiros neonatologistas brasileiros. Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha). Vive no Recife (PE). Imortal, pela Academia Recifense de Letras, da Cadeira de número 20, cujo patrono é o escritor Álvaro Ferraz.

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