Paciente, cliente, consumidor, beneficiário. Por Meraldo Zisman

PACIENTE, CLIENTE, CONSUMIDOR, BENEFICIÁRIO

MERALDO ZISMAN

…O que sei é quando uma pessoa adoece e não tem plano, seja por inadimplência, dado o valor extorsivo das mesadas (ou paga o plano de saúde, ou compra comida – comida de idoso é mais cara que comida de jovem, advirto), ou por ter perdido o emprego, estará condenado a – se adoecer – entrar no rol dos jogados no chão de corredor de algum hospital público superlotado…

Palavras convivem bem com vários significados, pessoas não. O Jornal do Commercio, periódico do Recife, estampa em primeira página a manchete: “INFLAÇÃO, 4,3%, PLANO DE SAÚDE 8,3% (Ed. de14 de Janeiro de 2020) e vem logo abaixo: “o aumento da Saúde Suplementar (planos de saúde) saiu quase o dobro da inflação em 2019”.

Poucos são os noticiosos que mencionam o aumento abusivo para as mensalidades dos planos de saúde, mormente para os idosos, a maioria dos quais pagaram suas mensalidades desde jovens (risco menor). Além de serem lesados, esses idosos são ainda penalizados com a acusação de que, por terem vivido por muito tempo, aumentam os riscos de necessitarem coberturas caras, como calculado pelos especialistas econômico-financeiros das tais prestadoras de serviço.

Quer me parecer que Plano não é Seguro, muito embora o autor dessas linhas não entenda das filigranas jurídicas que os diferenciam. O que sei é quando uma pessoa adoece e não tem plano, seja por inadimplência, dado o valor extorsivo das mesadas (ou paga o plano de saúde, ou compra comida – comida de idoso é mais cara que comida de jovem, advirto), ou por ter perdido o emprego, estará condenado a – se adoecer – entrar no rol dos jogados no chão de corredor de algum hospital público superlotado.

As mídias propagam com estardalhaço os avanços da Medicina, o ‘marketing’ dos planos de saúde torna a morte e as doenças (quando atendidas por seus planos) como se fossem dentifrícios produtores de sorrisos e dentaduras mais brilhantes…

Além do mais, nossos nosocômios ditos particulares em sua maioria faz inveja aos hotéis de 5 estrelas. Arquitetonicamente. No entanto, o tipo e o preparo do seu pessoal são tão precários que (salvo raríssima, exceções) a maioria da população não deixa seu parente/paciente passar uma noite em tais hospitais sem acompanhante, a não ser nas UTIs, que têm horário de visita. Falo da classe média urbana das grandes cidades brasileiras, à qual pertenço.

No período anterior à Constituição de 1988 o sistema público de saúde prestava assistência apenas aos trabalhadores vinculados à Previdência Social, cerca de 30 milhões de pessoas com acesso aos serviços hospitalares, cabendo o atendimento aos demais cidadãos às entidades filantrópicas como a Santa Casa de Misericórdia e os Hospitais Beneficentes. Essas pessoas, no meu tempo de estudante de medicina e depois médico, eram alcunhadas de “indigentes” (“palavra que designa quem vive uma vida de miséria, não conseguindo suprir as próprias necessidades básicas, pessoa que vive em estado de pobreza absoluta; do mesmo significado de mendigo ou necessitado”).

…Foi a falência da Medicina dirigida aos pobres de nosso país que fez surgirem os tais planos de saúde, uma das principais causas da inflação médico-hospitalar- farmacêutica. Os médicos e demais profissionais de saúde, em sua maioria mal pagos, insatisfeitos e vendo aportar…

Gerou-se, a partir da enorme demanda (para encurtar) um terreno fértil para a instalação das tais entidades adicionais de saúde de caráter privado, sob a fiscalização da Agência Nacional De Saúde Suplementar – ANS.

Foi a falência da Medicina dirigida aos pobres de nosso país que fez surgirem os tais planos de saúde, uma das principais causas da inflação médico-hospitalar- farmacêutica. Os médicos e demais profissionais de saúde, em sua maioria mal pagos, insatisfeitos e vendo aportar uma globalização em que a primazia é para a tecnologia de ponta, deixam de atender às necessidades básicas da maioria da população brasileira, a começar pela deficiência de saneamento básico…

Neste milênio vemos cada vez mais a Medicina e os serviços de saúde como instituições que visam primordialmente o lucro e que utilizam as mais elaboradas técnicas mercadológicas para manter ou aumentar seu faturamento e seus lucros.

…Vê-se que – agora oficialmente – o idoso é considerado como ‘culpado’ pelos problemas de atendimento e altíssimos custos dos ‘Planos de Saúde’. É duro envelhecer neste país…

 

Portanto, não é de estranhar que de paciente tenhamos passado a consumidores.

Não é de encafifar? Os clientes dos planos passaram a ter seus direitos e deveres albergados no denominado Código de Defesa do Consumidor.

No meu entender, consumidor é o que compra alguma coisa, mas não necessariamente a saúde e esta não é uma mera mercadoria. E mesmo mantendo ou aumentando seus lucros, as operadoras querem ampliar suas vantagens. E quem deve sofrer as consequências é o paciente, principalmente se for da “melhor idade”. Convém lembrar que a inflação para o idoso é sempre maior, seja da cadeia alimentar, moradia, cuidados, etc. Espero que o atual governo tome providências e não venham me dizer que: “O envelhecimento da população brasileira é duas vezes mais rápido que a média mundial e, se mantida a taxa atual, irá tornar cada vez mais crítico o pacto intergeracional” como diz a agência responsável pelos planos de saúde:

Conferir:

http://www.ans.gov.br/images/stories/A_ANS/Transparencia_Institucional/Plano-Estrategico-ANS_2020-2023/plano_estrategico_ANS_2020-2023.pdf

Vê-se que – agora oficialmente – o idoso é considerado como ‘culpado’ pelos problemas de atendimento e altíssimos custos dos ‘Planos de Saúde’.

É duro envelhecer neste país…

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Meraldo Zisman Médico, psicoterapeuta. É um dos primeiros neonatologistas brasileiros. Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha). Vive no Recife (PE). Imortal, pela Academia Recifense de Letras, da Cadeira de número 20, cujo patrono é o escritor Álvaro Ferraz.

 

 

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