O inimigo errado. Por Edmilson Siqueira

O INIMIGO ERRADO

EDMILSON SIQUEIRA

… A imprensa, de um modo geral e com raras exceções, quer que o Brasil dê certo até por uma questão de sobrevivência, seja lá quem for o presidente. Jornais, emissoras de rádio e TV, revistas, blogs, sites e portais, todos dependem de uma economia forte para produzir lucros com suas atividades…

Inteligência, como se tem visto nos últimos 13 meses, não é exatamente um ingrediente farto no núcleo duro do governo federal. Logo nos primeiros dias de 2019, Bolsonaro suspendeu uma audiência que um de seus ministros ia ter com o homem da Rede Globo encarregado das relações institucionais. O capitão no exercício da presidência disse que ministro seu não falaria com inimigo seu, tá ok?

À época, não precisava ser muito esperto pra entortar o nariz pela postura: o PT também elegeu a Globo como inimiga e não deu certo. Ditadores, ou protótipos,  costumam eleger a imprensa independente como inimiga e, quando podem, destroem-na. Argentina e Venezuela estão aí como exemplo recentíssimos.

A partir da declaração oficial de guerra à Globo que partiu de dentro do Palácio do Planalto, a esgotosfera bolsonarista começou a inundar as redes sociais com versões imbecis, pra dizer o mínimo, de fatos jornalísticos da Globo ou de suas afiliadas, que pudessem comportar alguma invenção de suspeita de jornalismo comprometido com os inimigos do capitão.

Uma delas dizia que Bolsonaro visitou a Arábia Saudita, uma ditadura das mais ferozes, porque três outros países árabes, inimigos da Arábia Saudita, eram os verdadeiros proprietários da Globo. Ou seja, os irmãos Marinho haviam vendido a segunda maior rede de televisão do mundo para países árabes e só um privilegiado anônimo (sei lá se o mentiroso assinou a fantasia que fez circular nas redes sociais) sabia desse fato. E muita gente acreditou, por ingenuidade, desinformação ou alinhamento incondicional a tudo que seja a favor do “ídolo”.

Outro boato que a central de fake news bolsonarista fez circular era de que a Globo estava contra Bolsonaro porque ele havia cortado a publicidade endereçada a ela e, por isso, a empresa estaria à beira da falência. Pois é só dar uma olhada no noticiário de economia e, com uma pesquisadinha rápida, descobre-se que, em 2018, por exemplo (são os dados disponíveis) a Globo faturou qualquer coisa perto de 14 bilhões de reais, com um lucro de cerca de 1,2 bilhão, menor até que em outros anos, por causa da Copa do Mundo na Rússia, um investimento altíssimo no meio do ano, cuja margem de lucro deve ter sido pequena.

Trabalhei numa afiliada da Globo há uns tempos e havia fila para conseguir um espaço para comerciais locais. É assim até hoje. A Globo não depende do governo e já disse isso até no Jornal Nacional. Não sei se SBT, Record e Band podem dizer a mesma coisa, mas são as preferidas atuais do governo, como foram com Lula e Dilma. Também não por coincidência, há todo um histórico de suspeitas ligações dos donos dessas emissoras com o poder. Nas redes, não se vê nada contra elas.

Outra ação ridícula desse ridículo núcleo espalhador de mentiras, foi uma arte anunciando a entrevista de Sergio Moro no Roda Viva. Anunciar espontaneamente para que houvesse uma boa audiência, é até salutar, já que Moro e Paulo Guedes são, de longe, os melhores ministros desse governo e têm o que falar e, principalmente, o que mostrar de suas gestões.

Só que a arte vinha acompanhada de uma frase em destaque: “Vamos desbancar a Globolixo” ou algo parecido. Ou seja, o apelo não era porque Moro é o que é: estavam tentando usá-lo para impingir uma derrota à Globo na guerra de audiências.

…E, claro, não custa lembrar que não há democracia digna desse nome sem uma imprensa livre.                       

O tiro, como era óbvio, saiu pela culatra. Os índices de audiência não modificaram a tranquila liderança do Globo, que tem, na maior parte das 24 horas de sua programação, praticamente o triplo de audiência da concorrência. O Roda Viva com Moro teve média de audiência de 1,5 ponto com pique de dois, o que foi comemorado pela TV Cultura, que é um deserto em termos de telespectadores.

A mais recente boataria espalhada foi considerar que a possível entrada de Regina Duarte no governo, na espinhosa Secretaria de Cultura, foi um golpe de mestre contra a Globo. E a “tese” teria sido reforçada porque Willian Bonner disse (constrangido!!!) no Jornal Nacional que, caso ela assuma o cargo, seu contrato com a emissora será suspenso.

Evidente que a Globo deu publicidade a uma cláusula do contrato de seus empregados para que ninguém comece a falar que Bolsonaro cooptou a Globo e que Regina, empregada da Globo, vai favorecer a emissora em sua atuação numa área sensível à emissora, em troca de um jornalismo, digamos, mais bonzinho com o governo do capitão.

Acho que a campanha tende a prosseguir até descobrirem que estão atacando o inimigo errado. Ou não, talvez continuem batendo no inimigo errado até perderem as próximas eleições, já que, como disse, inteligência não é o forte da turma.

A imprensa, de um modo geral e com raras exceções, quer que o Brasil dê certo até por uma questão de sobrevivência, seja lá quem for o presidente. Jornais, emissoras de rádio e TV, revistas, blogs, sites e portais, todos dependem de uma economia forte para produzir lucros com suas atividades. E sabem que não ajudarão o país com campanhas sistemáticas e ideológicas contra o governo. Os bons veículos não abrem mão da informação correta e da crítica justificada e isso é bom para o país

E, claro, não custa lembrar que não há democracia digna desse nome sem uma imprensa livre.

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Edmilson Siqueira é jornalista

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