Implicações pandêmicas. Por Meraldo Zisman

IMPLICAÇÕES PANDÊMICAS 

                                                        (Economia e Vida Humana)

MERALDO ZISMAN

… o efeito desta pandemia informática está inventando uma patologia que batizo de “pânico globalizado”` apresentando os seguintes sintomas:  insônia, raiva, medo extremo de doenças, aumento do uso de álcool e tabaco, drogas ilícitas, calmantes, tranquilizantes e retraimento social, transtorno de estresse pós-traumático, tumultos de ansiedade, depressão, somatização… 

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O que tem ocorrido com o coronavírus (2019-nCoV) é a criação de uma histeria coletiva que se espalha mais rapidamente do que a própria pandemia. Por curiosidade selecionei algumas manchetes dos dias 7 e 8 deste mês de março na mídia nacional: Brasil tem 25 casos confirmados de coronavírus e desses, 4 por transmissão local. Sem casos suspeitos, o estado do Amapá pede Forças Armadas para conter coronavírus. O poder legislativo de França foi atingido, identificados casos de coronavírus entre legisladores franceses. E na de data 8 de março (Dia Internacional da Mulher) as marchas pela igualdade e oportunidade para ambos os sexos, justo em seu dia, criaram mais um desafio para as mulheres, pois tiveram de evitar aglomerações, como recomendado pelas autoridades sanitárias. Apesar disto, as mulheres ao redor do mundo reivindicaram igualdade entre os sexos, apesar do medo globalizado do novo coronavírus. O medo ao desconhecido aumenta o nível de ansiedade mesmo nos indivíduos saudáveis e muito mais naqueles com patologias psiquiátricas preexistentes. Tais manchetes e imagens impressionantes e sensacionalíssimas acrescentaram ansiedade e medo nas pessoas e as que estão supostamente contaminadas pelo vírus tornam-se sujeitas à rejeição social, discriminação e estigmatização.

Devemos nos lembrar de que o efeito desta pandemia informática está inventando uma patologia que batizo de “pânico globalizado”` apresentando os seguintes sintomas:  insônia, raiva, medo extremo de doenças, aumento do uso de álcool e tabaco, drogas ilícitas, calmantes, tranquilizantes e retraimento social, transtorno de estresse pós-traumático, tumultos de ansiedade, depressão, somatização…

O medo é uma poderosa e primitiva emoção humana. Ele nos alerta para a presença de perigo e foi essencial para manter nossos antepassados vivos.  O medo pode, na verdade, ser dividido em duas fases, bioquímica e emocional. A resposta bioquímica é universal, enquanto a resposta emocional é altamente individualizada. O que está debaixo da cama? Quem está atrás da porta? Todas essas situações brincam com esses medos e fazem com que percebamos quão frágil nosso sistema vital é e como realmente não temos controle sobre a vida.

… Toda epidemia tem um ápice de intensidade e depois vai decrescendo. Por fim desaparece ou seu agente fica sazonal.

A cotação do petróleo abalou com sua queda as bolsas de valores, mas creio que a Netflix, Amazon Prime e outras quetais podem ter-se dado muito bem na crise. Foram beneficiárias óbvias, os consumidores ficaram em casa por conta das preocupações com o vírus, e isso se viu refletido no considerável aumento no preço das ações das companhias de entretenimento, na última semana.

Fato inusitado foi a disseminação da crise descrita pelo franco-argelino Albert Camus (1913-1960) prêmio Nobel de literatura. A sua obra A Peste (1947) teve recentemente suas vendas incrivelmente aumentadas. Tomo a liberdade de sumarizar o final do livro. Vamos lá.

O local da peste é a cidade de Orã, na Argélia, que sofre uma epidemia. Ela desaparece tão repentinamente quanto tinha surgido. O sofrimento de seus habitantes é descrito por um médico.

Toda epidemia tem um ápice de intensidade e depois vai decrescendo. Por fim desaparece ou seu agente fica sazonal.

Na Orã de Camus, passado algum tempo, depois de um anúncio público de que a epidemia parece ter terminado, é dada uma grande festa nas ruas. O livro termina com a sombria observação de que, embora o bacilo da peste possa se esconder por anos a fio, ele nunca morre nem desaparece de todo. Interessante que as notícias das quedas das bolsas de valores são mais destacadas na mídia do que o número de sofrimentos e mortes causados pelo coronavírus (2019-nCoV). Com feiras literárias sendo adiadas, salas de cinemas fechando as portas e turnês de bandas canceladas, a economia da Cultura no mundo vêm sofrendo fortes prejuízos em consequência da epidemia. Devemos ter muito cuidado e evitar polarizações (divisão em dois campos antagônicos), seja na saúde, na política, até no amor e em qualquer situação da Vida. A Economia é importante, porém as vidas humanas valem muito mais. Disto tenho certeza.

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Meraldo Zisman Médico, psicoterapeuta. É um dos primeiros neonatologistas brasileiros. Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha). Vive no Recife (PE). Imortal, pela Academia Recifense de Letras, da Cadeira de número 20, cujo patrono é o escritor Álvaro Ferraz.

 

 

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