O subversivo inconformado. Por Angelo Castelo Branco

O SUBVERSIVO INCONFORMADO

ANGELO CASTELO BRANCO

… Em alguns minutos Pessoa já havia citado meia dúzia de filósofos gregos que o sargento e o oficial nunca tinham ouvido falar. Rolou um clima de entreolhares perplexos. Foi uma tarde difícil e cheia de correções que Pessoa fazia para um datilógrafo já confuso com tantas citações em grego e em latim.  Aos poucos o entusiasmo inicial do sargento ia se transformando em pavor…

Em plena caça às bruxas, nos anos de chumbo, Pessoa foi intimado a prestar depoimentos numa unidade militar do Recife. Em quartel temido pela má fama de seus inquisidores.

Tudo o que se dizia ou se escrevia à época, podia vir a ser interpretado como ameaça à segurança nacional. Pessoa escreveu e publicou textos com conteúdos inadequados e ininteligíveis. Era “coisa de comunista infiltrado na sociedade” que precisava ser esclarecido perante os oficiais em inquéritos abertos à revelia das leis.

No dia e hora determinados pelos oficiais, Pessoa foi pontual. Até porque se assim não procedesse, ia ser fatalmente conduzido debaixo de porrada. O interrogador iniciou suas perguntas e um atento, lépido e disposto sargento datilografava as respostas do interrogado.

Em alguns minutos Pessoa já havia citado meia dúzia de filósofos gregos que o sargento e o oficial nunca tinham ouvido falar. Rolou um clima de entreolhares perplexos.

Foi uma tarde difícil e cheia de correções que Pessoa fazia para um datilógrafo já confuso com tantas citações em grego e em latim.  Aos poucos o entusiasmo inicial do sargento ia se transformando em pavor.

No segundo dia de depoimentos a coisa complicou porque Pessoa entrou pela escola do pensamento alemão. O sargento pediu arrego e o oficial suava de estresse com tantas teses e antíteses sobre fundamentos dos direitos naturais do livre pensamento. Quando o depoimento chegou a Schopenhauer – Musik drückt die höchste Philosophie in einer Sprache aus, die die Vernunft nicht versteht -( A música exprime a mais alta filosofia numa linguagem que a razão não compreende) foi a gota d’água. Oficial e sargento entraram em síndrome de pânico.

E ficou pior quando Pessoa citou o filósofo alemão Kierkegaard. Ficou furioso porque o escrivão grafou Kierkegaard sem dois A e sem trema na primeira vogal. Uma falha gramatical imperdoável.

No terceiro dia de inquérito o próprio Pessoa pediu licença ao sargento visivelmente acuado e passou ele mesmo a datilografar a peça em face das acusações de subversão. A cena era desconcertante. O sargento e o oficial sentados num canto da sala enquanto Pessoa  datilografava seus argumentos e citações em vários idiomas.

No quarto dia do interrogatório, ao chegar no portão de ferro do quartel, Pessoa foi impedido de entrar na unidade militar. Ordens expressas do comando. Ninguém queria mais ouvir o intelectual subversivo. Todos corriam do processo. Nenhum militar desejava mais ver ou ouvir Pessoa. Nem de longe. Um horror.

Mas a recusa incomodou Pessoa.  Ele não havia ainda concluído o texto. Faltava um capítulo sobre a escola italiana mãe dos fundamentos do Direito de Família.

 Deu-se então a inusitada cena. Na porta do quartel, Pessoa bradava impropérios para entrar no temido salão de interrogatórios. Mas os soldados cruzavam as baionetas impedindo o acesso do “subversivo”.

Inconformado, ele chegou a fazer gestões junto ao alto comando, mas sem êxito. Frustrado, desistiu de concluir o seu libelo e ficou chateado com os militares  que se recusaram a dar continuidade ao interrogatório.

 Assim terminou o inquérito daquele suposto elemento pernicioso à segurança nacional. Era muito complicado.

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Resultado de imagem para Angelo Castelo Branco, jornalistaAngelo Castelo Branco –  Jornalista. Recifense,  advogado formado pela Universidade Católica de Pernambuco. Com passagens pelo Jornal do Commercio, Jornal do Brasil, Diário de Pernambuco, Folha de S. Paulo e Gazeta Mercantil, como editor, repórter e colunista de Política.

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