Prisão domiciliar. Blog do Mário Marinho

PRISÃO DOMICILIAR

BLOG DO MÁRIO MARINHO

MARIO MARINHO E VERA MARINHO: DIÁRIO DE UMA QUARENTENA CONSCIENTE

Eu e a Vera, a quem eu chamo de Sofia, estamos em prisão domiciliar como milhões de outros inteligentes habitantes desse mundo chamado Brasil.

Estamos entrando na terceira semana de uma pena cuja duração ainda não está bem clara.

Moramos em um pequeno apartamento um espaço que, a princípio, pode parece pequeno para duas pessoas em convivência tipo 24 horas por dia.

No começo elas se toleram. Depois, qualquer esbarrãozinho, seja real ou imaginário, pode parecer uma provocação e desencadear desde um olhar mais severo até uma crise tsunâmica de efeitos devastadores.

Posso assegurar que não é o nosso caso.

Depois de 50 anos de convivência normal, aquela que alterna bons e maus momentos, broncas e afagos a gente tira de letra.

Nossos dias têm sido mais ou menos da forma que passo a relatar com a maior fidelidade possível.

Levanto cedo. Faço o café, coloco a mesa, busco o jornal na portaria (para tanto, calço o tênis que ficou condenado a essa função: só trabalha fora de casa).

Leio o jornal ao mesmo tempo em que assisto e escuto a televisão.

A Sofia levanta-se um pouco mais tarde e já encontra a mesa posta.

Sou inquieto, longe do sedentarismo.

A Sofia já é mais contida, mais pacata.

Eu desço para fazer minha caminhada. Ela não.

Para esclarecer, somos ambos integrantes do Grupo de Risco, doravante dominado GR.

Ambos já estamos na idade que, não sei por quê, alguns decidiram denominar a “Boa Idade”. Bah!

E também somos colocados no GR porque: eu tenho pressão alta e diabete (controladíssima. Minha última medição apontou 99).

A Sofia, hipertensa desde tempos imemoriais, resolveu acrescentar ao currículo um infarto, uma parada cardíaca e uma trombose, tudo praticamente junto no mês de setembro passado. Um sufoco.

Daí, maior cautela por parte dela.

Acaba de tomar o café, senta-se à varanda para ler o jornal e tomar sua dose diária de vitamina D com a luz do sol.

Eu vou para minhas atividades.

Moramos no primeiro andar, em um condomínio bonito, simpático, bem cuidado que tem duas torres de 8 andares cada.

Saio do meu apartamento e subo pelas escadas até o 8º andar. Desço e vou para a área comum iniciar minha caminhada.

Passo pela nossa mini horta, contorno as duas churrasqueiras, momentaneamente desativadas, passo ao lado da piscina e da quadra soçaite, ambas desativadas, passo pelo espaço que convencionamos chamar de pomar (um pé pitanga, um de goiaba, um de manga e um jovem pé de abacate).

Contorno a Academia, também desativada, assim como a brinquedoteca, a sauna, o salão de festas, o salão kids. Só funciona o lounge que serve de escritório para alguns moradores.

O trajeto dessa minha pista tem, segundo minhas medidas, mais ou menos 150 metros. Dou 15 voltas, percorrendo o total de 2.250 metros em 30 minutos com passos em ritmo de boa caminhada.

Volto para o apartamento e vou direto para a “academia”. Faço abdominais, alongamentos e exercícios de reforço muscular.

Daí como uma fruta, de preferência sumarenta melancia.

“Fecho” a “academia” e abro o escritório que, coincidentemente, ocupam o mesmo espaço.

Então, ligo o computador e começo meu dia de trabalho.

Primeiro as correspondências.

Vamos, Sofia e eu, para o almoço que quase sempre revezamos no preparo. Revezamento na base de 70% a 30%. Ela fica com a maior parte.

Acabo de almoçar, vou para a pia lavar pratos e talheres que usei.

Como ela muita esperta, assim que me encaminho para a pia, ela acaba de almoçar rapidinho para colocar seus talheres na pia a tempo de eu lavar.

Não me importo de lavar louças e talhares – só não gosto de lavar panelas.

Passo a tarde no escritório.

Minha tarefa atual é a reestruturação do site do Sindbol (Sindicato das Associações de Futebol do Estado de São Paulo) tarefa para a qual fui contratado pelo presidente Ayrton Santiago há dois meses.

A Sofia se reveza entre o sofá da sala e a sala de TV para assistir a capítulos do canal ID (Investigação Discovery) com seus saborosos casos policiais.

Mais ao final da tarde assiste à reprise da ótima Avenida Brasil.

Nesse meio tempo, nos encontramos na sala para o lanche da tarde.

Ela gosta de um sanduíche no pão integral e eu de granola diet com leite e banana.

Por volta das 19 horas, nos encontramos na sala para ver os telejornais da Bandeirantes e da Globo.

Terminado o Jornal Nacional, nos ligamos em alguma série ou filme da Netflix.

Aliás, neste domingo foi difícil assistir a “Ozark” uma interessante série que estamos acompanhando: a transmissão travava seguidamente.

E aí, pensei: se essa cod-19 é capaz de travar a poderosa Netflix, imagina o que ela pode fazer com o nosso precário sistema de saúde?!

Nosso atarefado dia termina por volta das 23 horas.

Às vezes, à tarde, encontro um tempinho para leitura.

Atualmente, leio o divertido “O Senhor da Festa”, do jornalista Napoleão Sabóia, companheiro dos tempos do Jornal da Tarde.

A Sofia lê “A sutil arte de ligar o foda-se”, de Mark Manson, que, espero, não seja nada pessoal comigo.

Ah!, à noite, antes de dormir, costumo fazer um pouco de palavras cruzadas.

Assim, vamos tocando nossa parte, nossa obrigação e fazendo ouvidos de mercador para os exemplos desestimulantes oferecidos diariamente pelo nosso irresponsável presidente.

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Mário Marinho – É jornalista. É mineiro. Especializado em jornalismo esportivo, foi FOTO SOFIA MARINHOdurante muitos anos Editor de Esportes do Jornal da Tarde. Entre outros locais, Marinho trabalhou também no Estadão, em revistas da Editora Abril, nas rádios e TVs Gazeta e Record, na TV Bandeirantes, na TV Cultura, além de participação em inúmeros livros e revistas do setor esportivo.

(DUAS VEZES POR SEMANA E SEMPRE QUE TIVER MAIS
 NOVIDADE OU COISA BOA DE COMENTAR)

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