Jair Bolsonaro, fotografado por Orlando Brito. O descontrole e o perigo representado por um presidente da República

Um perigo chamado Bolsonaro. Por Edmilson Siqueira

UM PERIGO CHAMADO BOLSONARO

EDMILSON SIQUEIRA

… estamos vivendo no Brasil: um presidente rebelde às determinações científicas de diminuição de danos de uma pandemia. Pior: um presidente que resolveu se transformar em garoto-propaganda de duas empresas farmacêuticas para produção de um remédio cuja eficácia até agora só foi comprovada em relação aos perigosos efeitos colaterais que o mesmo proporciona…

Leio na imprensa que uma médica do Ceará, bolsonarista roxa, morreu de covid 19. Desde o início da pandemia, ela foi ferrenha defensora de tudo que Bolsonaro falou contra isolamento, quarentena etc. Como médica, desdenhou até o vírus, criticou violentamente a imprensa e conclamou, pelas redes sociais, a todos para saírem às ruas para apoiar o presidente e protestar contra o distanciamento social preconizado. Quarentena pra ela, só para os idosos e alguns outros de grupos de risco. O resto – a grande maioria – deveria voltar a trabalhar, com ela escreveu nas redes sociais.

Essas atitudes, que já são inaceitáveis num cidadão comum, pois revelam um fanatismo desmedido e uma ignorância tal a ponto de colocar em risco a própria vida, são muito mais perigosas partindo de uma médica, de quem se espera determinação em proteger e salvar vidas.

E se são perigosas partindo de uma médica, cuja influência se restringe aos seus amigos pessoais e de redes sociais, imaginem agora se tais rebeldias, totalmente contrárias ao que dizem a ciência e a experiência, partem de um presidente da República? Pois é isso que estamos vivendo no Brasil: um presidente rebelde às determinações científicas de diminuição de danos de uma pandemia. Pior: um presidente que resolveu se transformar em garoto-propaganda de duas empresas farmacêuticas para produção de um remédio cuja eficácia até agora só foi comprovada em relação aos perigosos efeitos colaterais que o mesmo proporciona. Pior ainda: um presidente que contesta seu próprio governo, onde a maior autoridade de saúde fica ao lado das recomendações internacionais e tenta se equilibrar no frágil sistema assistencial de enfrentamento da pandemia, mas sofre enormes pressões do seu chefe para mudar de atitude, o que colocaria em risco dezenas, talvez centenas, de milhares de vidas e provocaria total colapso no atendimento médico brasileiro.

Estamos diante de um caso de irresponsabilidade total de um presidente da República. Outras autoridades brasileiras, em nome da preservação da vida humana no país, têm que tomar alguma providência. Os exemplos de que atitudes como essa geraram crises muito maiores do que a necessária são muitos e de gigantescos países. Itália e França desdenharam o problema em seu início e acabaram batendo recordes de internações, de colapsos locais da assistência médica e de mortes. Nos EUA, um presidente que não acreditou muito no potencial de fatalidade do vírus está vendo agora seu país no topo de casos e de mortes, sendo obrigado a enterrar os indigentes mortos em valas comuns, o que é um dos maiores símbolos de uma tragédia. E Trump, como se vê, mudou totalmente de opinião.

Dois outros notórios exemplos, Singapura e Japão, ao perceberem que não estavam sendo rígidos o suficiente, apertaram as medidas, com elevadas multas e, no caso de Singapura, até com prisões para quem desobedecer as regras do confinamento.

… Pois é isso que Bolsonaro parece querer fazer: tal qual um Jim Jones tupiniquim, conclama seu fanático rebanho a se destruir e a colapsar o sistema de assistência médica do Brasil, o que provocará muitas mortes também dos que não comungam com a suicida estratégia bolsonarista…

O número de casos, quando escrevo esse artigo, já passa do milhão e setecentos mil no mundo. As mortes se elevaram acima de cem mil e continuam crescendo. Vários países do terceiro mundo ainda têm uma escalada tímida do contágio, mas as previsões de desgraça anunciada são fortes. Países africanos têm meia dúzia de respiradores para vários milhões de pessoas, o que significa aumento exponencial das mortes que poderiam ser evitadas. O próprio Brasil, dizem os especialistas, ainda não atingiu o auge dos infectados, das internações e das mortes.

Ou seja, o quadro da pandemia tende a se agravar nos próximos dias, como tem se agravado dia a dia, com alguns poucos países, depois de milhares de mortos, iniciando uma curva descendente de casos, mas mesmo assim mantendo o isolamento rigoroso para que não haja uma recaída.

Ainda ontem, desafiando mais uma vez a inteligência e o bom senso, Bolsonaro disse, em mais um “audacioso” passeio pelas ruas, que ninguém pode impedir seu direito de ir e vir, em mais uma de suas exibições de ignorância. Pois se o regime democrático lhe dá o direito de andar por aí em meio a uma pandemia provocada por um vírus altamente contagioso, essa mesma democracia exige de um governante que ele seja um bom exemplo para o povo e não o conduza à doença e à morte.

Pois é isso que Bolsonaro parece querer fazer: tal qual um Jim Jones tupiniquim, conclama seu fanático rebanho a se destruir e a colapsar o sistema de assistência médica do Brasil, o que provocará muitas mortes também dos que não comungam com a suicida estratégia bolsonarista.

Foi o que ocorreu com a médica do Ceará. Ao seguir seu “ídolo”, foi fatalmente atingida. E pode estar levando junto para a cova seu filho, pois informações dão conta de que ele está com sintomas da covid 19.

Bolsonaro deveria ser culpado por mortes desse tipo. Quanto mais cedo nos livrarmos de um presidente que conclama seus seguidores a atitudes que facilitam o contágio do perigoso vírus, mais vidas salvaremos. Calar e isolar esse presidente, dentro das regras constitucionais, é hoje uma questão de defesa da saúde pública.

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Edmilson Siqueira é jornalista

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