Telemedicina: a consulta médica remota veio para ficar. Por Aylê-Salassiê Quintão

TELEMEDICINA:

A CONSULTA MÉDICA REMOTA VEIO PARA FICAR

AYLÊ-SALASSIÊ QUINTÃO

… Telemedicina ou atendimento presencial, certo é que nunca as categorias de saúde e os governos dedicaram atenção especial à saúde primária e preventiva da população. Os médicos cubanos, que concordaram em enfrentar as carências da assistência à saúde no interior bravio, com remunerações aviltantes, foram expulsos do País…

Reproductive Health Telemedicine Is Here During COVID-19 Outbreak ...

Recuperado do impacto das atividades dos médicos cubanos, que ofereciam atendimento à saúde primária às populações isoladas, o Conselho Federal de Medicina contesta agora o uso da telemedicina pelo sistema nacional de saúde.  É temporário- avisa – só durante a pandemia.

A advertência remete às ponderações do ex-presidente norte-americano Barack Obama, há cinco anos, quando ao apresentar seu programa de saúde, chamou a atenção para o perigo da insurgência de algum vírus desconhecido. O programa foi suspenso por Donald Trump.

Em Brasília, faz lembrar, um projeto de Lei, de 1988, discutido na primeira legislatura da Câmara Legislativa, criando um programa de telemedicina no Distrito Federal. Era de autoria de um deputado novato na política, Tadeu Roriz, na vida privada uma administrador de empresas. A proposta privilegiava o atendimento primário à saúde, via televisão. A internet, como recurso, estava começando.

Fora inspirado nos Cadernos de Saúde publicados, pelos jornais, e produzidos por simples repórteres, mas lidos com atenção pelas classes sociais menos protegidas, segundo revelara uma pesquisa. A superlotação dos hospitais e prontos socorros já era reclamada pela população. Para uma consultas médica comum já se exigia agendamento, às vezes, com três meses de antecedência. Os incomodados eram remetidos aos consultórios e hospitais particulares. Houve um surto de planos de saúde no Brasil.

... enquanto, corporativamente, o Conselho de Medicina tergiversa, já existem várias empresas privadas oferecendo o serviço de telemedicina, tele orientação médica, com propaganda na mídia. Alguns profissionais engajaram-se nas soluções por meio da internet…

As categorias médicas reagiram à introdução da Telemedicina no sistema, enxergando no projeto absurdos, e cobrando credenciais técnicas do autor. A iniciativa terminou desaparecendo da agenda legislativa, por interferência do Conselho de Medicina do DF. Entretanto, o gabinete do parlamentar passou a receber pedidos de diversas assembleias legislativas, São Paulo inclusive, e até do Congresso Nacional pedindo cópias.

Contudo, o cenário propício à Telemedicina foi parcialmente engolido pela criação e multiplicação de altas especializações e de novos cursos na área da saúde: fisioterapia, biomedicina, engenharia da saúde, medicina molecular, biotecnologia e outros. Os de enfermagem multiplicaram-se. Mas, na área da saúde primária, coletiva, as iniciativas continuaram modestas, e os interesses surgiram inibidos: ainda hoje.

Confiantes na natural superação das endemias – Zica, dengue, malária e outras – a categoria dos médicos foi surpreendida agora pelo coronavírus e sua dimensão. Chegou, instalou-se e se expandiu incontrolável. Já não se dispunha daquela frente preventiva de mais de dez mil médicos cubanos. Desafiada, a rede nacional de saúde demonstrou seu despreparo para combater a indisciplinada epidemia.

 O Conselho de Medicina não teve outra saída, senão aceitar, mesmo temporariamente, a experiência, dos atendimentos à saúde via telefonia, internet e televisão. Vários médicos engajaram-se no modelo, divulgando vídeos relacionados com tratamentos preventivos mais comuns. A televisão dava, por conta própria, conselhos médicos.

Assim, enquanto, corporativamente, o Conselho de Medicina tergiversa, já existem várias empresas privadas oferecendo o serviço de telemedicina, tele orientação médica, com propaganda na mídia. Alguns profissionais engajaram-se nas soluções por meio da internet. Em São Paulo tem uma médica que chama isso de “consultas remotas”, para, segundo ela, evitar sobrecargas e aglomerações em unidades hospitalares. Nos EUA fazem-se até cirurgias por meio da televisão. Na Amazônia, a Telemedicina é fundamental

Atropelado pelo coronavírus, o Governo Federal  prometeu injetar  R$ 250 bilhões no Sistema Nacional de Saúde, alvoroçando governadores, sistemas estaduais, mas também  igrejas, bispos, padres, pastores e pregadores,  que vem fazendo orações por telefone e pelo computador , na esperança de que uma rubrica no orçamento do tipo ”assistência à saúde espiritual” os incluam. Os psicanalistas, psicoterapeutas, psicólogos mais afetos à tecnologia estão dentro, enfrentando as depressões.

Embora insistindo em defender o contato direto com o médico, o CFM terminou admitindo a validade da “consulta remota”, sobretudo para acompanhar a evolução do quadro patológico de pacientes, e de pessoas mais idosas necessitadas de assistência contínua. Não se sabe onde cabe nessa frente o  infectologista David Uip, ligado ao Hospital Sírio Libanês e ao governador de São Paulo.

Os planos de saúde e os médicos particulares estão começando a se enrolar, ou a enrolar os pacientes.  Mas dinheiro alto do Estado está circulando nessa área. Receberam, até agora, R$ 15 bilhões, além de autorização para usar R$ 10 bilhões do fundo garantidor, aquele que protege os usuários e ao SUS da insolvência das operadoras dos planos.

Telemedicina ou atendimento presencial, certo é que nunca as categorias de saúde e os governos dedicaram atenção especial à saúde primária e preventiva da população. Os médicos cubanos, que concordaram em enfrentar as carências da assistência à saúde no interior bravio, com remunerações aviltantes, foram expulsos do País.  Contrariamente, os programas de saúde concentrados nas altas especializações – saúde completar ou suplementar – faturaram, no ano passado, no Brasil, R$ 213 bilhões. A Telemedicina não mais vai embora fácil e, após a pandemia do coronavírus, as políticas e cursos da área de saúde terão de ser repensados à luz das novas tecnologias sociais.

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Aylê-Salassié F. Quintão*Jornalista, professor, doutor em História Cultural. Vive em Brasília

 

 

 

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