O pneu e a pandemia. Blog do Mário Marinho

O PNEU E A PANDEMIA

BLOG DO MÁRIO MARINHO

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Atendo o telefone. É o zelador do condomínio onde moro avisando que o pneu do meu carro está vazio, tá murcho, diz ele.

Coloco o meu disfarce para que o coronavirus-19 não me reconheça, a máscara, e desço até a garagem.

Realmente, o pneu está vazio.

O jeito é trocar e ir até o borracheiro.

Trocar? Há quanto tempo não troco o pneu de um carro?

Lembro-me que o seguro do carro oferece esse serviço. Pego o celular e faço a ligação. É tudo muito rápido.

Não se passaram 20 minutos e o atendimento da Porto Seguro chega.

O atendente é altamente profissional, gentil no trato, educado e vai logo ao que interessa.

Mais 15 ou 20 minutos e pronto: pneu trocado.

Nem nos meus bons tempos de trocar pneus em viagens, há uns 30 anos atrás, tinha essa facilidade, essa rapidez.

E olha que troquei muito pneu.

Comprei meu primeiro carro em 1969, um Fusquinha 1968, vermelho, bonitão.

Com ele, atravessei a Fernão Dias rumo a Belo Horizonte durante anos.

Eu e minha caríssima metade, a Sofia.

Sempre falo para ela que nós somos sobreviventes de uma época.

Naqueles anos, cada quilômetro dos 580 que separavam São Paulo de Belo Horizonte, era uma aventura.

A começar pelo carro.

O Fusquinha não oferecia conforto e muito menos segurança.

Cinto de segurança? Não havia.

O freio era à lona o que significava que se você quisesse parar, era preciso começar a frear 50-60 metros antes. Freada de emergência seria um Deus nos acuda.

A Fernão Dias era pista única com duas mãos de direção. Sinalização quase inexistente, assim como o acostamento.

Asfalto cheio de buracos, de irregularidades e caminhões à beça.

Acredito que os pneus, que, à época, tinham câmara, eram também mais fracos. Ou as irregularidades do piso eram muitas. Sei que quase toda viagem tinha pneu furado.

Tornei-me um craque.

Mas uma viagem entrou para a história.

Foi em 1974.

Naquele ano, comprei um Maverick que era a grande novidade da Ford.

Um carrão. Grandão, pesadão e beberrão.

O bólido tinha apenas um mês de rodagem quando botei na estrada rumo a Belo Horizonte.

Viagem de ida, tudo normal.

Na volta, saímos de BH por volta das 8 da manhã. Segundo minhas previsões, chegaríamos em São Paulo por volta das 16 horas. Eu, a Sofia e minha filhinha, a Cuca, com seus adoráveis dois anos de idade.

Havíamos rodado cerca de 50 quilômetros quando furou um pneu.

Como assim? Carro zero, pneus zero!

Mas, aconteceu. Furou. O carro e, consequentemente, os pneus não tinham mil quilômetros rodados.

Tudo bem, coloquei o estepe.

Rodei mais uns vinte e poucos quilômetros e… fura outro pneu.

Aí, danou-se porque eu ainda não havia consertado o outro furado.

Por sorte, logo um carro parou. Expliquei o problema e o motorista me deu carona até um posto de gasolina à entrada da cidade de Itaguara.

A Sofia e a Cuca ficaram lá no carro.

Fui ao borracheiro e pedi um atendimento de emergência, explicando que minha mulher e filha estava na estrada sozinhas.

O borracheiro me compreendeu e me atendeu primeiro que outros clientes.

Quando ele acabava, vi chegar um carro da Polícia Rodoviária.

Fui até a eles e expliquei o drama.

Também compreenderam e me levaram até o carro, deixando o cafezinho para depois.

Troquei o pneu e fui até à borracharia de Itaguara.

Aproveitamos para um lanche rápido e botamos o carro na estrada.

Uns 100 quilômetros depois, o que que aconteceu? Pneu furado. O mesmo que já havia furado antes.

Bota o estepe e pé na estrada até o próximo borracheiro.

Novo conserto, mais um lanche e estrada novamente.

Uma hora e pouco depois, o que aconteceu? Pneu furado.

Sempre os dois mesmos pneus.

Encontrei um borracheiro um pouco mais experiente e que ouviu, pacientemente, toda a minha dramática história.

Tirou o pneu, fuçou, fuçou e descobriu: os dois pneus tinham uma fissura interna.

Ali, estava o problema.

Quando o pneu encontrava alguma irregularidade mais acentuada no asfalto (e havia muitas), aquela pequena fissura se abria e “mordia” a câmara de ar. Daí, o pneu esvaziava.

A solução foi colocar um manchão: um pedaço de câmara de ar entre a câmara e o pneu.

Santa solução.

Chegamos a São Paulo. Não às 16 horas, conforme havia previsto, mas às 21 horas. Foram 13 horas de viagem.

No dia seguinte, fui à revendedora onde havia comprado o Maverick, a Caltabiano, loja perto do estádio do Pacaembu.

O vendedor me ouviu e chamou o gerente da loja que examinou o problema e já tirou o corpo fora.

– O problema é do pneu, é da Pirelli. Não é nem da nossa loja, nem da Ford.

Argumentei que foi ali que comprei o carro. Não teve jeito: o cara ficou irredutível.

– E aí, que eu faço? Perguntei.

– Bom, às quintas-feiras o técnico da Pirelli passa por aqui. Mas ele passa entre 7,30 e 8 horas. Só que não é toda quinta-feira. Você tem que vir aqui e ter sorte.

– E ele vai mandar trocar os pneus?

– Eu acho que não. Ele vai ter que estudar o problema, ver se não foi mau uso, má conservação…

– Como má conservação, mau uso? Não tem nem mil quilômetros!?!!?

Era uma outra época. Assim como não havia segurança nas estradas, não havia também a menor proteção para o consumidor.

Para não esquentar muito a cabeça, decidi:

  1. Comprei quatro pneus novos. Claro, jamais voltei a comprar um Pirelli.
  2. Nunca mais comprei carro na Caltabiano.

Lembrei-me dessa epopeia enquanto o borracheiro, mascarado como eu nesses dias de pandemia, diagnosticava o meu pneu.

Não havia furo: era só um defeito da válvula. E, como o carro também está de quarentena, o pneu foi esvaziando aos poucos até murchar de vez.

Assim como sou um sobrevivente daquela época, sou candidato a sobrevivente agora.

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Mário Marinho – É jornalista. É mineiro. Especializado em jornalismo esportivo, foi FOTO SOFIA MARINHOdurante muitos anos Editor de Esportes do Jornal da Tarde. Entre outros locais, Marinho trabalhou também no Estadão, em revistas da Editora Abril, nas rádios e TVs Gazeta e Record, na TV Bandeirantes, na TV Cultura, além de participação em inúmeros livros e revistas do setor esportivo.

(DUAS VEZES POR SEMANA E SEMPRE QUE TIVER MAIS
 NOVIDADE OU COISA BOA DE COMENTAR)

3 thoughts on “O pneu e a pandemia. Blog do Mário Marinho

  1. Essa história do pneu furado é magistral. Depois que comecei a ler fui acompanhando como se estivese lendo um conto de suspense. As boas histórias são assim, casos reais que pareçam ficção. Na verdade aquela velha história de que a vida imita a arte é mesmo verdadeira.
    Antonio Contente
    Campinas

  2. Bom dia Marinho,

    Que paciência você teve com a Caltabiano, eu iria brigar muito.
    Também tive um Maverick ( 2º carro ), no qual viajei muito também. Mas sem tanta troca de pneu. Ainda bem que na época a gasolina era barata. Pois era beberrão.
    Boa história.
    Ricardo Abud

    Caro Ricardo,
    naquela época, teria sido uma briga inglória. Nós, consumidores, não tínhamos nenhuma chance contra os poderosos. Obrigado pela leitura.

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