Um divisor de águas. Por Edmilson Siqueira

UM DIVISOR DE ÁGUAS

EDMILSON SIQUEIRA

a saída de Moro e o processo todo que se forma no seu rastro são, desde já, divisores definitivos da popularidade de Bolsonaro. É certo que as consequências dos motivos expostos por Moro para sair podem até derrubar Bolsonaro do cargo, mas antes desse desejado hoje pela maioria “grand finale”, o prejuízo para a imagem presidencial é gigantesco…

Embora o governo Jair Bolsonaro venha tendo um comportamento errático há vários meses, e não só no enfrentamento da pandemia da covid 19, a pendenga com o ex-ministro Sergio Moro dividiu, definitivamente, seu eleitorado. É que a briga que ora se avizinha não traz apenas a sensação de que o “mito” aprontou mais uma das suas ao forçar a barra da demissão de Moro, como havia feito com Mandetta e outros menos conhecidos.

É que as demissões anteriores foram de ministros que não chegavam nem aos pés em termos de popularidade construída antes de ser convidado para o ministério. Com Henrique Mandetta, a popularidade foi obtida já como membro do governo, em consequência de sua conduta na luta contra o novo coronavírus e, principalmente, por se opor, com sensatez, ao que preconizava o presidente. E a população, em sua maioria, temerosa pelo avanço da doença, ficou ao lado daquele que preconizava a proteção e o confinamento para evitar o contágio, regras, aliás, ditadas pela própria medicina.

Curioso: se Bolsonaro tivesse, desde o começo, se colocado ao lado da ciência, seguido determinações dos especialistas em infectologia e defendido o isolamento social, Mandetta seria apenas um bom ministro da Saúde seguindo as recomendações científicas e obedecendo ordens do seu chefe.

Como tem acontecido no resto do mundo. O presidente ou primeiro ministro é que aparece fazendo apelos à população pra ficar em casa, ladeado por seus auxiliares. Tivesse assim se comportado, e, com certeza, toda a popularidade que Mandetta angariou, iria para o presidente. Mas, esperteza política (no bom sentido) e inteligência são atributos raros na família Bolsonaro, a começar pelo próprio presidente.

Mas, voltando ao que interrompi para uma reflexão óbvia, a saída de Moro e o processo todo que se forma no seu rastro são, desde já, divisores definitivos da popularidade de Bolsonaro. É certo que as consequências dos motivos expostos por Moro para sair podem até derrubar Bolsonaro do cargo, mas antes desse desejado hoje pela maioria “grand finale”, o prejuízo para a imagem presidencial é gigantesco.

Uma pesquisa divulgada neste domingo, 3 de maio, em que traço essas linhas, mostra que, pela primeira vez, os índices de “ruim” e “péssimo” somados, chegam a inéditos 41%, ultrapassando a casa dos 40% pela primeira vez. Outro fato marcante dessa definitiva divisão é a presença de grupos em frente ao prédio da Polícia Federal de Curitiba onde Moro foi depor: um deles, bolsonarista, chamando Moro de traidor, e outro defendendo o ex-juiz da Lava Jato. Um grupo não era maior que o outro e ali estavam, com certeza, apenas eleitores de Bolsonaro.

Outro fato que acaba por enterrar cerca de 50% (ou mais) do eleitorado bolsonarista, também tem relação com Moro. Quando o presidente percebeu que as investigações da Polícia Federal estavam chegando perto dos mandantes de crimes vários e esses mandantes podem ser – e são, quase com certeza – um dos zeros à esquerda presidenciais, e quando o processo contra as fake news passou a mirar em seus produtores e descobriu que outro zero à esquerda pode ser o chefão do esquema, Bolsonaro tentou cooptar Moro para melar as investigações. Ou seja, o presidente queria abafar crimes de corrupção e outros e, para tanto, desejava a cooperação do maior símbolo da luta contra a corrupção que o Brasil já teve. A negativa, óbvia, de Moro em encampar essa conduta criminosa, iniciou sua fritura, que culminou com seu pedido de demissão.

… as consequências são tantas que, ouso dizer, Bolsonaro dificilmente sairá incólume de mais essa malfada aventura. Se escapar do impeachment, será por obra e graça de suas novas “alianças” para se manter no poder. E essas alianças o remetem justamente para aquilo que ele jurou combater durante a campanha e nos primeiro meses de governo: a “velha política”…

A falta de ética e pudor, pelo menos político, é tanta em Bolsonaro que um ex-ministro da STF, Francisco Rezek, disse, em entrevista, que os crimes denunciados por Moro não precisariam de qualquer processo, pois o próprio presidente confessou todos eles no obtuso discurso que fez logo após a saída do ministro. Ali ele diz, com todas as letras, que queria um superintendente na PF com o qual pudesse conversar diariamente, obter informações dos processos e relatórios de inteligência. Ora, isso é confissão espontânea da intenção de cometer crimes. Crimes esses que, com a saída de Moro e a nomeação de “amigos” tanto para o cargo de Moro como para a diretoria geral da PF, vão ser consumados. Tanto é que um ministro do STF, Alexandre Moraes, impediu a posse do novo diretor, alegando possível abuso de poder, desvio de finalidade e outras irregularidade cometidas pelo presidente.

Enfim, as consequências são tantas que, ouso dizer, Bolsonaro dificilmente sairá incólume de mais essa malfada aventura. Se escapar do impeachment, será por obra e graça de suas novas “alianças” para se manter no poder. E essas alianças o remetem justamente para aquilo que ele jurou combater durante a campanha e nos primeiro meses de governo: a “velha política”. Como ele jamais conseguiu substituí-la por uma “nova política”, quando se viu na iminência de perder o cargo, apelou para o maldito centrão, um grupo cujos integrantes não ousam dizer que a ele pertencem e que vem apoiando todos os governos em troca de cargos e verbas – e muita corrupção – desde que Cabral aportou por essas terras tropicais.

O mesmo Centrão que o general Heleno tanto criticou. Num discurso até então pouco divulgado, numa reunião do PSL, então partido do presidente, Heleno desanca o grupo, quase chamando-o de “lixão” para aplausos calorosos dos presentes. Ao fim do discurso, o general afirma que fará algo inédito em sua já longeva carreira: vai cantar ao microfone algo que não seja um hino pátrio. E canta o refrão de um famoso samba, substituindo a palavra “ladrão” por “Centrão”: “E se gritar pega Centrão, não fica um meu irmão”.

Pois são esses membros do Centrão, repudiados durante a campanha que o levou à Presidência, a quem agora Bolsonaro se alia para, com a velha prática do toma-lá-dá-cá, se manter no poder. Assim, Bolsonaro passa a ser um presidente comum, uma mistura de Sarney e Lula na corrupção e uma espécie de Dilma nos discursos e nos atos.

Um mix que, convenhamos, vai desgraçar ainda mais o já desgraçado Brasil.

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Edmilson Siqueira é jornalista

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