Grandes empresas capitalistas cogitam deixar a China. Por  Aylê-Salassié F. Quintão*

GRANDES EMPRESAS CAPITALISTAS COGITAM DEIXAR A CHINA

AYLÊ-SALASSIÊ QUINTÃO

… O alerta surgiu do Japão, o primeiro país a declarar-se oficialmente em recessão, registrando queda de 3,4% no PIB. Os japoneses levantaram a tese de que as empresas dos países capitalistas são os financiadores do crescimento, veloz e assustador, da economia chinesa, resultando na degradação dos indicadores das nações de origem…

O bate-boca cotidiano entre pretensos formadores de opinião e o coronavírus vai distraindo a quarentena. Ao mesmo tempo, atropela os planos estratégicos de governo, e os domésticos, dos cidadãos. Enquanto isso, nos bastidores da economia mundial rolam ideias estranhas e delicadas, talvez até um pouco insanas, como uma suposta retirada das grandes empresas multinacionais da China, assustando membros do Partido Comunista Chinês (PCCh) .

O alerta surgiu do Japão, o primeiro país a declarar-se oficialmente em recessão, registrando queda de 3,4% no PIB. Os japoneses levantaram a tese de que as empresas dos países capitalistas são os financiadores do crescimento, veloz e assustador, da economia chinesa, resultando na degradação dos indicadores das nações de origem. À busca de mão de obra barata e da expansão do mercado consumidor transferem para o território chinês as matrizes da produção e do consumo. Os Estados Unidos, a Inglaterra e a Alemanha acompanham o raciocínio. A Rússia opta pelo silêncio.

Uma reavaliação dos economistas japoneses do plano de Deng Xiaoping – Economia de Mercado Socialista, da década de 1980, mostra que os elevados índices de crescimento da economia chinesa traz a reboco, a liderança da China no campo da política. Tudo estaria sendo financiado pelas empresas ocidentais, instaladas em território chinês, mesmo lidando com regras rígidas de remessa de lucros e de transferência de tecnologia, logo apropriadas; com a obrigação de gerar milhões de empregos internos; de dividir a direção das companhias imigradas; e de consumir prioritariamente matérias-primas chinesas.

Face à constatação, o primeiro-ministro do Japão, Shinzo Abe, propôs fosse repensada sua política comercial externa, e está criando incentivos para o retorno ao País daqueles que se instalaram na China.  Duas ou três empresas francesas fecharam suas portas por lá. Não se sabe se por causa do corona vírus ou por inspiração de uma política, não explícita, de repatriação do capital. Os ingleses e alemães não deram ainda nenhum sinal, mas os EUA, cujo PIB caiu, nos primeiros meses do ano, em 4,8%, tenta conduzir a questão pelo lado dos contenciosos fiscais. Os chineses já detém quase US$ 30 trilhões em títulos norte-americanos.

Os países capitalistas que lideraram o processo da globalização equivocaram-se na análise da abertura econômica de Deng Xiaoping, cujo propósito era atrair capital internacional para financiar da economia interna. A contrapartida oferecida era o fetiche da criação de um mercado consumidor amplo, que resultaria da “inclusão” de milhões de chineses que mal produziam para o próprio consumo. Ávidas de dominar e controlar o mercado mundial, e curiosas com os 40 anos de uma China fechada pelo regime maoísta, as grandes empresas correram, e abriram grandes filiais na China.

Maior parceiro comercial do Brasil, a China vem se tornando o principal protagonista do crescimento comercial no planeta.  Dos US$ 31 bilhões de superávit brasileiro, em 2019, US$ 24,9 bilhões vieram do intercâmbio com os chineses. Suas compras e, sobretudo, as vendas, estão começando a liderar as relações de comércio com vários países, inclusive na América, em que pese a difusão de que tudo  que sai nas mãos do chineses se deteriora rápido. Isso não impediu, contudo, que o déficit dos EUA com a China chegasse a U$ 800 bilhões. A maioria dos países europeus estão em condições deficitárias também com os chineses e com os PIBs em rota decrescente. Vem aí uma recessão.

Mas, o que vem assustando, de fato, não é nem o impacto sobre a economias de países acostumados a fixar as regras para o comércio mundial, mas o suporte que o poder econômico chinês, gerado no capitalismo, vem dando à liderança política da China no mundo. A discussão pegou o brasileiro Roberto Azevedo – indicado por Dilma Roussef – pelo pé, tendo de se afastar da direção geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), onde a China tem transitado, com facilidade, com argumentos pouco compatíveis com as do livre mercado. De certa forma, está atravessando também o Mercosul e outras organizações de comércio.

Aparentemente, o mundo está com medo, não do coronavírus, mas da China.

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Aylê-Salassié F. Quintão*Jornalista, professor, doutor em História Cultural. Vive em Brasília

 

 

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