Ditadores são todos iguais. Por Edmilson Siqueira

DITADORES SÃO TODOS IGUAIS

EDMILSON SIQUEIRA

…por que estaria eu interpretando as palavras do capitão reformado de maneira tão radical? Ora, porque todos os ditadores fizeram a mesma coisa, todos eles acham que liberdade é a liberdade de esmagar os oponentes e ter uma enorme milícia armada espalhada pelo país que lhe garanta que, qualquer tentativa de tirar-lhe o poder, resultará num banho de sangue…

Ao revelar sua intenção de armar o “povo” para que nenhum “filho da puta” queira instalar aqui uma ditadura, o presidente Jair Bolsonaro talvez tenha revelado sua faceta mais obscura. Deixando de lado seu modo primitivo de se comunicar com seus subordinados e de achar que há inimigos sob a mesa e sob a cama, o presidente do Brasil, fechado em seu miúdo mundo de ideias, mostrou a que veio. Sua intenção é que sua turminha possa se armar da melhor forma possível para apoiá-lo. Mas enganam-se aqueles que pensam que esse apoio será para ajudá-lo a manter a democracia e a liberdade no Bananão. Não. É para apoiar suas intenções de transformar isso aqui num ditadura. Sim, você não leu errado: Bolsonaro, ao pregar a liberdade quer dizer exatamente o contrário.

E por que estaria eu interpretando as palavras do capitão reformado de maneira tão radical? Ora, porque todos os ditadores fizeram a mesma coisa, todos eles acham que liberdade é a liberdade de esmagar os oponentes e ter uma enorme milícia armada espalhada pelo país que lhe garanta que, qualquer tentativa de tirar-lhe o poder, resultará num banho de sangue.

Quando Lênin e Trotsky chegaram a poder, começaram imediatamente a destruir a oposição, começando pela família do czar, assassinada inteira, de uma vez só, sem qualquer clemência. Depois, com a oficialização do Exército Vermelho e o poder de vida e morte dado aos comissários, a missão de extermínio da oposição (ou de quem parecesse oposição) continuou país afora. Sem Lênin, morto, foi fácil para Stalin isolar Trotsky e completar a tarefa de ter um povo dócil a seus pés, assassinando milhões de russo que poderiam (ou não) lhe oferecer qualquer resistência. Inclusive Trotsky, assassinado no México por um enviado de Stálin.

Mussolini na Itália, não foi diferente. É dele a frase (não sei se originalmente pronunciada, talvez um outro ditador a tenha dito antes) de que um povo só é livre se estiver armado. A repetição dela por Bolsonaro não é mera coincidência. O fato de Mussolini ser fascista e Stalin comunista não significa nada nesse caso: ditadores são iguais no totalitarismo que impõem. Mudam algumas nuances de como eliminar fisicamente seus opositores apenas. O resto é idêntico, sempre.

Pois aqui em na nossa atrasada América Latina, o protótipo de ditador Hugo Chávez, cujo regime socialista do século 21 vem desgraçando a maior parte da população da Venezuela, não foi diferente. Reportagem da Folha do último dia 24 estampava: “Em 2006, seu oitavo ano de mandato, o então presidente venezuelano Hugo Chávez (1954-2013) afirmou que se deveriam armar 1 milhão de venezuelanos. O objetivo de ter a população armada, segundo disse o ditador, era defender o país contra uma suposta invasão dos Estados Unidos.”

As desculpas, como se vê, mudam dependendo do viés ideológico de cada um. Lênin e Trotsky criaram um exército e uma formidável rede de repressão com licença para torturar e matar. Mussolini, se não armou totalmente a população como queria, manteve seu regime ditatorial por mais de 20 anos. Chávez, sucedido por um tiranete de almanaque, Nicolás Maduro, espalhou milícias pelo país que atacam opositores de motocicletas e fuzis. “Povo” armado, mantendo a “liberdade”.

Portanto, por essas e por outras, de todas as besteiras, bobagens e palavrões que saíram daquela reunião que comprovaram que Bolsonaro quer interferir não só no ministério da Justiça (e na PF, por óbvio e necessário para ele) como em todo e qualquer outro ministério que não lhe seja totalmente servil, essas declarações de armar a população para evitar um golpe de esquerda (era isso que ele queria dizer) revela, definitivamente, sua vocação para ditador.

A militarização de seu entorno deixa clara sua intenção, militarização essa se espalhando por onde surjam oportunidades de troca de quadros. Foi assim no Meio Ambiente (o Ibama está cheio de fardados) e, notoriamente, na Saúde, onde a cúpula ministerial deve fazer ordem unida todo dia depois do café da manhã. E tomar cloroquina antes de dormir que, como se sabe, produz efeitos colaterais no cérebro.

Então, não se trata mais de fazermos oposição democrática a Bolsonaro por não concordarmos com suas ideias (ou com a falta delas) e sim de inundar a imprensa de razões para que seu governo termine bem antes da hora como um esforço de defesa exatamente da nossa liberdade. Sim, porque depois de armada a população (os 20% de fanáticos que seguem o “mito” e que ele chama de povo) e estando seu governo coalhado de milicos, inclusive alguns com comando de tropas, aí sim será fácil, muito fácil, como ele próprio diz, instalar uma ditadura. E então perderemos todos nossa liberdade e o país passará a ser comando de modo totalitário pelo capitão boca suja.

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Edmilson Siqueira é jornalista

1 thought on “Ditadores são todos iguais. Por Edmilson Siqueira

  1. Há mais semelhanças no enredo do ex-cabo que dos citados no artigo, mas o texto está corretíssimo e de ótima leitura.

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