Boato, Elza Soares, Garrincha. Blog do Mário Marinho

BOATO, ELZA SOARES, GARRINCHA

BLOG DO MÁRIO MARINHO

Passei momentos agradáveis na tarde de ontem, domingo, frente à televisão, assistindo ao saboroso desfile de sambistas no programa do Faustão.

Durante praticamente uma hora, os melhores sambistas do Brasil desfilaram pela tevê, trazendo a alegria do samba e a aquecer almas e corações tão sofridos nesses cruéis tempos de pandemia.

Houve um momento especial.

Foi quando apareceu Elza Soares.

Sentada em uma cadeira, pois tem limitação de mobilidade e trazendo no rosto não só a marca dos 90 anos de idade, mas, bem mais profundas, as marcas de uma vida sofrida desde que, aos 12 anos de idade, foi obrigado pelo pai a se casar.

Aos 21, ficou viúva e mãe e quatro filhos.

Eu conheci Elza Soares já cantora de sucesso, quando ela se apresentou em Belo Horizonte, em 1961.

Naquele ano, Elza brilhava no rádio com três sucessos: Beija-me; Mulata Assanhada; e Boato.

Eu era vidrado nessa música composta por José Roberto Kelly e que ganhava cores e calor na voz às vezes grave e rouca de Elza Soares.

Eu estava com meu 17 anos de idade quando Elza fez sua apresentação em Belo Horizonte, no ginásio do Paiçandu, um espaço para espetáculos populares que havia em Belo Horizonte, junto à estação Rodoviária.

Não tive a menor dúvida: fui lá.

E não me arrependi. Durante uma hora meu embalei pelo samba daquela mulata bonita, que cantava e requebrava como ninguém.

O destino me premiou e por mais duas vezes na vida me encontrei com a Elza.

A última foi nos estúdios da Tv Record quando eu era diretor de um programa diário apesentado por Nei Gonçalves Dias todas as tardes.

Deixei minha sala e fui para o estúdio ver de perto a mulata que sempre me encantou.

Mas na segunda vez que nos encontramos foi bastante especial.

Era 1968 e eu estava no Rio de Janeiro cobrindo alguns jogos pelo torneio de então, o Robertão, para o Jornal da Tarde.

Era o final do mês de novembro de 1968.

Garrincha jogara no Botafogo de 1953 a 1965.

Era chamado de “Alegria do Povo” pelos dribles desconcertantes que dava em seus marcadores.

Foi campeão do Mundo com o Brasil em 1958, na Suécia.

Quatro anos depois, no Chile, sagrou-se bicampeão e foi o jogador mais importante do Brasil naquela Copa, já que Pelé fez apenas um jogo e se contundiu, ficando fora do resto da Copa.

Um ano antes, em 1961, Garrincha e Elza se conheceram e começaram a namorar. Garrincha era casado.

No Botafogo, participou de 615 jogos, marcou 245 gols.

Não havia quem o marcasse, até que foi derrotado pelo álcool. E por sua ingenuidade.

Garrincha jogava com dores no joelho, mas, era obrigado a entrar em campo pois o cachê que o Botafogo recebia com ele em campo era um, sem Garrincha, era menos da metade. Muitas vezes, sofria infiltrações no joelho no intervalo da partida para voltar a campo.

Além disso, Garrincha era chegado no álcool – seu mais severo marcador.

Saindo do Botafogo, Garrincha perambulou por diversos times: Corinthians (1966, 13 jogos); Portuguesa Santista (1967, 33 jogos); Atlético Jr da Colômbia (1968, 1 jogos); Flamengo (1968-69, 20 jogos) e depois Novo Hamburgo (1969, 1 jogo); Rio-Grandense (1968, 1 jogo); Cordeiro-São Gonçalo-RJ (1972, 1 jogo) e, finalmente, Olaria (1972, 10 jogos).

Mas, naquele ano mês de novembro de 1968, eu estava no Rio de Janeiro e cobri um jogo do Palmeiras na quarta-feira.

Na quinta, deveria voltar para São Paulo, mas informei à redação que Garrincha faria sua estreia no Flamengo domingo seguinte, dia 30.

Recebi então a incumbência de tentar uma entrevista com Mané Garrincha.

Naquela mesma tarde fui à Gávea, acompanhar um treino. Já fazia quase um mês que Garrincha treinava todos os dias, tentando recuperar a forma física severamente abalada pela falta de treinos e pelo excesso de álcool.

Encontrei um Garrincha sorridente, de alto astral, que me recebeu com jovialidade. Falei sobre a entrevista e ele não colocou o menor obstáculo.

– Gente boa, por que você não vai à minha casa?

“Gente boa” era a expressão que Garrincha usava para conversar com alguma pessoa que ele não sabia o nome. Passou-me o endereço do apartamento que ficava na rua República do Peru, em Copacabana.

Às 16 horas, conforme o combinado, lá estava eu na rua República do Peru, uma ruazinha estreita, arborizada e elegante em Copacabana.

Mais elegante era o apartamento em que Elza e Garrincha viviam. Fui recebido numa sala ampla, arejada, grandes janelas e um grosso tapete branco que combinava com a elegância e o mesmo branco dos sofás.

Garrincha me apresentou à Elza e explicou que eu era do Jornal da Tarde, que ele conheceu nos seus tempos de Corinthians. Aliás, a contratação dele pelo Timão foi furo do Jornal da Tarde.

Nos sentamos e Garrincha começou a contar como se preparou nas últimas semanas para essa estreia.

Uns 30 minutos depois, a conversa rumou para os tempos de Botafogo. Quis saber se Garrincha estava recuperado do joelho.

– Tá muito bom, Gente Boa!

– Você sofreu muito lá no Botafogo, não é?

– Nada, nada. Foi tudo normal. Gosto muito do Botafogo. Lá tem muita gente boa.

Elza Soares que até então ouvia calada, pouco participando, interrompeu bruscamente.

– Que gente boa que nada! Eles destruíram seu joelho! Te exploraram. Não fica com essa conversa mole não, conta tudo.

– Calma, Nêga, calma.

Era assim que ele a tratava, com um carinhoso Nêga.

– Olha aqui, Neném. Vai fazer um café pra nós que eu vou dar essa entrevista. Vou contar tudo.

Obediente e em silêncio, lá se foi o Neném fazer o café.

Elza desatou a falar.

Só interrompeu um pouco pra gente tomar o café que o Neném preparou.

Ela falou muito, mas não contou novidades. Repetiu o muito que já se havia publicado sobre o problema: as injeções, analgésicos, contratos mal feitos, exploração da imagem e por aí foi.

Eu achei ótimo.

Saí de lá com um montão de anotação. Para minha frustração, no outro dia, em São Paulo, ao contar tudo o que ouvi, fui informado que não havia novidades naquilo.

A matéria que eu pensava que seria uma bomba de efeitos devastadores, foi transformada numa matéria normal de apresentação da estreia.

Pouco do que disse a Elza foi aproveitado.

Mas, para mim, foram marcantes aquelas três ou quatro horas em companhia dos dois – era um casal muito alegre.

Garrincha navegava entre a ingenuidade e a irresponsabilidade.

Elza, muito sofrida na vida, era mais experiente, realista.

Só voltei a encontrá-la, ao vivo, naquela tarde na tevê Record, em 1992.

Mas, jamais esqueci aquela noite em Belo Horizonte, no Ginásio do Paiçandu, a voz rouca e a ginga cantando Boato.

Ouça:

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Mário Marinho – É jornalista. É mineiro. Especializado em jornalismo esportivo, foi FOTO SOFIA MARINHOdurante muitos anos Editor de Esportes do Jornal da Tarde. Entre outros locais, Marinho trabalhou também no Estadão, em revistas da Editora Abril, nas rádios e TVs Gazeta e Record, na TV Bandeirantes, na TV Cultura, além de participação em inúmeros livros e revistas do setor esportivo.

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