Educação à distância está engolindo a escola presencial. Por Aylê-Salassié F. Quintão

EDUCAÇÃO À DISTÂNCIA ESTÁ ENGOLINDO A ESCOLA PRESENCIAL

AYLÊ-SALASSIÊ QUINTÃO

…Isso tudo vai refletir na educação e revelar distorções históricas (injustiças e privilégios) que os discursos ideológicos escondem da sociedade. Em que pese o véu das cotas  para pessoas de cor, indígenas e deficientes, as universidades públicas continuam a abrigar  uma maioria de estudantes originários das categorias de renda mais alta…

Cinco anos depois de ser demitido do quadro docente de uma universidade onde havia sido professor por 15 anos, ao retornar ao campus, à convite, para receber uma homenagem, alguém me consultou, se estaria disposto a voltar. Minha resposta foi rápida e rasteira:

– Não.

– Por quê!?

– É uma questão de “time” (momento adequado)

A sala de aula não era mais o meu lugar. Não que estivesse zangado ou que me sentisse mais importante. Acabava de escrever o livro “Rupturas”, mostrando mudanças estruturais que estavam ocorrendo, na educação inclusive.  Concluíra que era ainda um analógico. Irritava-me ver os alunos manuseando telefones celulares em sala ou fotografando os conteúdos inscritos no quadro ou projetados em powerpoint.

Descobri que gente de fora da classe presencial assistia minhas aulas, em tempo real, por meio da internet e, sem constrangimento, até davam palpites sobre o conteúdo. A demissão fora um prêmio. Desafogara a ansiedade – vinda dos tempos “brabos” da vigilância política – e, com a indenização trabalhista reforcei meu caixa, que estava baixo.

Ora, essa pandemia e esses debates inócuos promovidos, dentro do Aparelho de Estado, é enganação, tentativas de desviar a atenção de um cenário desafiador, que tende a afetar as estruturas de Poder, as atividades e as políticas públicas. A educação não será exceção. Não se resumirá às tentativas de descobrir soluções para finalizar o calendário de 2020, mas para o que virá a partir de 2021. O Covid-19 está ajudando a desmistificar alguns segredos protegidos no espaço do Estado e, particularmente, da educação brasileira.

Metade, pelo menos, do corpo docente das escolas de nível superior não sabem manusear as ferramentas digitais que estão desembarcando por aqui.  Em razão das novas tecnologias, as demandas pedagógicas passaram a requerer outros conhecimentos, novas estratégias e habilidades compatíveis com o desenvolvimento do sistema produtivo e das relações sociais. Convive-se no meio acadêmico brasileiro com um tipo de aristocracia aburguesada que fetichiza a ideia de que a universidade destina-se preparar massa crítica de professores e pesquisadores, e não profissionais para o mercado de trabalho.

 A partir de 2021, essa questão vai ter de ser repensada – e desde o ensino médio – a exemplo da velha reforma do ensino de 1º e 2º graus, feita sob encomenda para atender ao Programa Nuclear Brasileiro, que introduziu novas tecnologias e habilitações específicas de alta qualificação.

Caiamos na real. O coronavírus tirou a economia da ilusória trajetória da recuperação. Os produtos agrícolas estão voltando à liderança do comércio, registrando, ao contrário, quedas significativas na produção industrial e dos serviços.  Projeta-se, para 2020, uma queda do Produto Interno Bruto do Brasil entre 6 à 7 % (Fundação Getúlio Vargas) e, para o 2º semestre, de 12 a 16 % (Bancos Goldman Sachs, UBS, XP Investimentos). Até o Itaú está calculando menos 10,6%.  Last but not least, a dívida bruta de governo (União, estados e municípios) vai atingir este ano o patamar de 79,7 % do PIB, conforme previsões do Banco Central.

 Isso tudo vai refletir na educação e revelar distorções históricas (injustiças e privilégios) que os discursos ideológicos escondem da sociedade. Em que pese o véu das cotas  para pessoas de cor, indígenas e deficientes, as universidades públicas continuam a abrigar  uma maioria de estudantes originários das categorias de renda mais alta – acessam à internet, os smartphones o WhatsApp e outras tecnologias – e que, por isso, não tiveram o semestre interrompido, senão algumas disciplinas. As aulas são online.

Os estudantes filhos de famílias mais humildes utilizam, no máximo, um telefone celular sem aplicativos adequados. O preço dos equipamentos os deixam de fora. De acordo com a Anatel, existem no Brasil ainda 70 milhões de pessoas com acesso precário ou sem acesso à Internet. Cerca de 23 milhões nunca chegaram lá. Nem sabem o que são redes de conexão digital. Considerada a renda familiar, somam 59 milhões. No meio rural são 56 milhões. Trinta milhões ainda usam tecnologias 2G. Observe-se que estamos entrando na 5G.

As diferenças vão refletir cada vez mais no seletivo, mercado de trabalho e nas relações sociais, gerando instabilidades e conflitos inesperados. Esse caminho começa a ser traçado no ensino médio, com a educação primorosa nos onerosos colégios particulares e cursinhos frequentados pelos ricos. Apenas 8% dos alunos do ensino médio estão matriculados em programas vocacionais.

A universidade inverte essa equação. São 8 milhões de estudantes, mas a ociosidade está perto de 40 por cento. A evasão também. Enquanto isso o ensino superior à distância (EAD) cresceu, desde o seu aparecimento há 15 anos, em 2.000 por cento: pulou de 100 mil para dois milhões de estudantes, e oferece mais vagas dos que as escolas presenciais.

O que se pode esperar da volta às aulas presenciais? Um aumento da reprovação dos mais pobres e uma deserção em massa à procura do trabalho.

Quem for brasileiro, siga o raciocínio – meio catastrófico, sim – mas não se deixe ser surpreendido.

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Aylê-Salassié F. Quintão*Jornalista, professor, doutor em História Cultural. Vive em Brasília

 

 

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