O que é ser negro? Por Jaime Pinsky

O QUE É SER NEGRO?

JAIME PINSKY

Claro que a maior parte dos estereótipos atribuídos ao negro são resquícios daqueles estabelecidos durante os longos séculos em que o mundo ocidental adquiria escravos, frequentemente capturados na África e os escravizava, tratando-os como mercadoria e força de trabalho, não como gente. Daí a ideia de que negros são preguiçosos, ironia terrível, para quem era obrigado a trabalhar até não ter mais forças…

Não é a nossa roupa, é a nossa epiderme - Natália Silva - Medium

Quando Simone de Beauvoir afirmou que a mulher é fruto da sociedade, não da biologia, ela escancarou uma porta que, uma vez atravessada, ajuda a entender e explicar atitudes preconceituosas e discriminatórias. Claro que a pensadora francesa sabia que as pessoas nascem com uma determinada aparência, de homem, ou de mulher. O que ela afirmava com a frase seminal é que a compreensão social do que é uma mulher não tem a ver com sua conformação física, mas com a imagem de mulher que a sociedade elaborou sobre o que é ser mulher. Por essa razão diferentes sociedades elaboram imagens diferentes do que é ser mulher. Diferentes grupos sociais, dentro de uma mesma sociedade nacional elaboram imagens diferentes. Nós elaboramos imagens diferentes para mulheres de diferentes grupos sociais.

Para facilitar o argumento e não entrar em polêmicas desnecessárias, exemplificarei com uma situação em processo de extinção, mas que foi muito marcante em nossa sociedade e, infelizmente, ainda tem resíduos em rincões geográficos e culturais. Não faz muito tempo ainda se falava de “mulheres para casar” como uma categoria diferente da de “mulheres para sair”. Era comum o noivo preocupar-se com a manutenção da virgindade de sua namorada, devolvê-la à casa dos pais depois de levá-la ao cinema e ir buscar a outra, aquela com quem não iria se casar, com quem podia fazer de “tudo”. Ou, simplesmente, dar uma passadinha no prostíbulo e pagar por isso.  As características biológicas das diferentes mulheres (a noiva, a outra, a prostituta) eram semelhantes, mas o papel social de cada uma era diferente do da outra. Assim, a mulher não nasce mulher, mas é criada pela sociedade.

Não é a nossa roupa, é a nossa epiderme - Natália Silva - Medium… É fundamental lembrar: negros não escolheram serem escravos; negros não pediram para vir para as Américas. Sua pele mais escura seria apenas uma pele mais escura (como temos cabeças redondas ou ovais, lóbulos de orelha presa ou solta, altura e peso variado), não fosse o fato de a melanina ter sido identificada como diferença qualitativa, não simples variação, como tantas outras.

Assim, o negro. A raça negra, biologicamente falando, não existe. Existe, sim, uma raça humana. Existe o homo sapiens. Então seria errado falar em raça negra? Ora, se ela tem existência social, histórica, ela existe. Afinal, vivemos em sociedade e a percepção social é definidora das relações sociais. Claro que isso provoca alguns problemas de ordem científica. Quanto de melanina na pele é necessário para definir a negritude de alguém?  Brasileiros se espantam ao ver african-americans nos EUA que aqui seriam considerados brancos. A tal “gota de sangue”, definidora da raça naquele país, aqui não é. No Brasil, o sucesso social pode amenizar a quantidade de melanina. E a pobreza, com frequência, aumenta.

Claro que a maior parte dos estereótipos atribuídos ao negro são resquícios daqueles estabelecidos durante os longos séculos em que o mundo ocidental adquiria escravos, frequentemente capturados na África e os escravizava, tratando-os como mercadoria e força de trabalho, não como gente. Daí a ideia de que negros são preguiçosos, ironia terrível, para quem era obrigado a trabalhar até não ter mais forças. Daí a concepção de que levam jeito apenas para a música e a dança, já que estas eram das poucas diversões a que tinham quando escravizados. Daí o estereótipo de que são mais eróticos, tanto os homens (que eram vistos com pouca roupa e desenvolviam musculosos por conta do trabalho no peito), quanto as mulheres (usadas como objetos sexuais, seja pela violência, seja com promessas de vantagens, ou até com acenos de liberdade para um possível filho concebido).

É fundamental lembrar: negros não escolheram serem escravos; negros não pediram para vir para as Américas. Sua pele mais escura seria apenas uma pele mais escura (como temos cabeças redondas ou ovais, lóbulos de orelha presa ou solta, altura e peso variado), não fosse o fato de a melanina ter sido identificada como diferença qualitativa, não simples variação, como tantas outras. Assim, quando os escravos conquistaram liberdade formal continuaram carregando uma imagem socialmente determinada, vinculada a uma suposta aparência diferente.

Discriminar as pessoas por terem a pele mais clara ou escura não tem respaldo em qualquer evidência científica – e olha que dirigentes e cientistas racistas tentaram intensamente estabelecer vínculos entre desempenho intelectual e diferencias cromáticas da epiderme, sem conseguir. Já é mais do que hora de sociedades como a americana desmontarem estruturas carregadas de preconceito, como seu sistema de justiça, a partir das organizações policiais. Episódios como o assassinato de um cidadão por alguém que deveria, no máximo, deter um suspeito, mas se permitiu ser também promotor, juiz e carrasco, são simplesmente inadmissíveis. Também nós, no Brasil, devemos fazer uma cuidadosa autocrítica e verificar se nossas atitudes e nossas práticas sociais não estão carregadas de preconceito e discriminação, fatores determinantes na criação de guetos sociais e raciais.

Crescimento econômico e alto nível tecnológico são essenciais, todos estão de acordo. Mas não serão suficientes para construir um país democrático. Entre outras medidas, seria necessário desenvolvermos uma escola pública universal e de qualidade. Oportunidades iguais formarão uma sociedade mais justa. E escola precisa e pode ser um fator positivo, dando chances equivalentes a todos, pobres e ricos, negros e brancos.

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JAIME PINSKY: Historiador, professor titular da Unicamp, autor ou coautor de 30 livros, diretor editorial da Editora Contexto. Autor de vários livros sobre preconceito, cidadania e escravidão.

jaimepinsky@gmail.com
www.jaimepinsky.com.br

 

 

 

IMAGEM ABERTURA: Augusta Savage posa ao lado de uma de suas esculturas, 1938. (Archives of American Art)

 

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