Enfrentando pragas. Por Edmilson Siqueira

ENFRENTANDO PRAGAS

EDMILSON SIQUEIRA

… o encontro da coisa ruim com a coisa pior teve um incentivador formidável na receita para que os resultados produzissem essa de sopa do inferno econômica: sim, o presidente da República ao adotar postura negacionista, primeiro desdenhando a doença (lembram da “gripinha”?) e, depois receitando um remédio sem comprovação…

Os últimos números da economia brasileira mostram que não estamos à beira do abismo e sim que já estamos no fundo do poço. Nem supermercados e farmácias, que ficaram abertos por serem essenciais, tiveram índices positivos em abril na comparação com o mesmo mês do ano passado. As aberturas aqui e ali, se levaram muita gente às ruas, não registraram vendas que compensassem as perdas recentes e, muito pior, estão contribuindo para que o novo coronavírus encontre mais abrigos humanos para se reproduzir e matar seus hospedeiros.

O cenário de filme de terror – hospitais lotados e economia negativa – teve ambiente mais favorável no Brasil por um motivo muito simples: a chegada da pandemia e as consequentes e necessárias medidas para sua contenção encontraram um país que tentava, timidamente, sair de uma enorme crise econômica que resultou numa recessão de dois anos. O PIB, negativo em 2015 e 2016, nos três anos seguintes (2017, 18 e 19), não conseguiu, se somados, chegar à marca negativa anterior (-3,5%). Ou seja, a crise econômica, que a pandemia provocou em todo o mundo, no Brasil ela simplesmente destroçou o que restava de tímido crescimento.

Só que o encontro da coisa ruim com a coisa pior teve um incentivador formidável na receita para que os resultados produzissem essa de sopa do inferno econômica: sim, o presidente da República ao adotar postura negacionista, primeiro desdenhando a doença (lembram da “gripinha”?) e, depois receitando um remédio sem comprovação científica de eficácia. Não bastassem essas atitudes ignorantes eivadas da costumeira arrogância, Bolsonaro resolveu que ninguém melhor que ele para enfrentar a pandemia, tentando fazer tudo ao contrário do que a ciência orientava, com a desculpa esfarrapada de salvar a economia.

Peitou o ministro da Saúde que tentava, a partir do próprio conhecimento de médico e da prudência diante dos fatos, acompanhar a sensatez mundial para enfrentar a peste, avisando sempre que a coisa ia ser muito, mas muito feia. Sua saída do governo foi o ato final de uma desgraça anunciada.

Embora premido por outros poderes, Bolsonaro não parou de desafiar o perigo e de tentar mostrar que tinha razão em sua insensatez. Apoiou pessoalmente manifestações, raramente usou máscara, incentivou aglomerações, zombou dos mortos e continuou criando inimigos diários, reais e imaginários, para satisfazer seus medos, suas inseguranças e sua total ignorância do que fazer com todo poder que as urnas lhe deram.

Não fossem Legislativo e Judiciário ameaçarem ou mesmo tomarem medidas a favor da população no combate à pandemia, e estaríamos fácil à beira do milhão de mortes, com o sistema em colapso e dependendo talvez da boa vontade de outros países para enfrentar o caos.

Derrotado em todas as frentes durante a pandemia – a doença se alastrou ao contrário do que previa (somos o segundo do mundo em mortes e avançando), o seu remédio milagroso não fez nem faz milagres e a economia foi para o fundo do poço (isso ele sabia que poderia acontecer, mas se tivesse conseguido aprovar algumas emendas e tivesse outra postura sanitária, o estrago seria menor), Bolsonaro resolveu apostar em duas ações para se manter no poder.

A primeira dela foi jogar no lixo o discurso anticorrupção e convidar o Centrão para fazer parte de seu governo, oferecendo polpudas diretorias para que seus deputados e apadrinhados “tomem conta” delas. Até um Ministério (novo e com uma verba bilionária) entrou na jogada.

… As tais instituições democráticas que garantem o revezamento do poder no Brasil, seja pela via do voto, seja pela troca por destituição legal, estão funcionando e tentando enfrentar as carrancas que vêm do Palácio do Planalto.

Agora, todos aqueles bolsonaristas que juravam que o Centrão era o pior dos males do Brasil, têm de considerar a fina flor da inocência e da honestidade gente como Roberto Jefferson (PTB), que já foi réu, condenado e preso no escândalo do Mensalão; Arthur Lira (PP-AL), denunciado pela PGR por corrupção passiva e lavagem de dinheiro; Wellington Roberto (PR-PB), ex-tropa de choque de Eduardo Cunha e réu por envolvimento no escândalo dos sanguessugas; Marcos Pereira (PRB-SP), bispo da IURD e ex-ministro de Michel Temer; Elmar Nascimento (DEM-BA), também ex-aliado de Cunha e Paulo Pereira da Silva (Solidariedade -SP) que mandava no Ministério do Trabalho no governo do PT e é réu na Operação Espúrio que investiga fraudes e desvios relacionados a registros sindicais. Tudo gente boa, como se vê.

A segunda ação foi apostar no aparato militar que ele botou no governo e, a partir dele, convencer as Forças Armadas a apoiá-lo incondicionalmente, mesmo contra todas as provas, evidências e até condenações por desvios legais, por se contrapor à lei, por desgovernar o Brasil.

A primeira ação tem efeitos rápidos e práticos: no Congresso é ponto pacífico que hoje não haveria votos para um impeachment. Já o apoio das FFAA é meio complicado.

As tais instituições democráticas que garantem o revezamento do poder no Brasil, seja pela via do voto, seja pela troca por destituição legal, estão funcionando e tentando enfrentar as carrancas que vêm do Palácio do Planalto. O Legislativo já chegou até a devolver MP (coisa rara) e o Judiciário mantém os processos contra membros da família Bolsonaro, contra membros do seu entorno mais próximo, contra deputados e membros do seu futuro partido e, principalmente, contra grupos radicais que querem, sem mais nem menos, impor uma ditadura militar e, para tanto, ofendem e até atacam as tais instituições.

A pergunta que não quer calar, nesse momento ímpar de desgraças gerais do Brasil, é: as FFAA vão topar uma aventura com um psicopata no comando? Acho muito difícil, mas num país em que há quem acredite que o novo coronavírus é uma arma comunista, tudo é possível.

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Edmilson Siqueira é jornalista

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