Inspirado em Murphy, pauta-se no caos. Por Aylê-Salassiê Quintão

INSPIRADO EM MURPHY, PAUTA-SE O CAOS

AYLÊ-SALASSIÊ QUINTÃO

… Pauta-se no caos, não o sugerido pelos grandes teóricos da Política, mas assentado nos ensinamentos do pragmático Edward Murphy sobre a natureza das coisas. Incomodado com o ambiente vivenciado, o engenheiro Luiz Henrique Ceotto desenterra, sem ironizar, as “Dez leis de Murphy “para explicar as perspectivas em causa no Brasil neste momento…

Aparentemente a pandemia está passando. Não vai embora. Vai ficar por aqui, rondando os incautos. O momento é de começar a enfrentar as sequelas, com otimismo. Ninguém tem indicações claras do que fazer, embora esteja evidente a necessidade urgente de um Plano de Reconstrução, nome dado por alguns economistas de plantão para a correção dos impactos negativos do coronavírus no Brasil. Opinam aleatoriamente. Mas, já se projeta que sem a transferência emergencial de renda, o número de brasileiros vivendo na pobreza chegaria a 48 milhões.

Os analistas mais conservadores acham que o mercado encontrará o próprio equilíbrio e que as soluções poderão vir da retomada das reformas (administrativa, tributária, trabalhista). Os menos compromissados com a governabilidade insistem, contudo, em gastos maiores do Estado, com a instituição de uma renda social básica permanente, extensiva aos trabalhadores  informais;  corte de salários, sobretudo  no Judiciário e no Legislativo; aumento das alíquotas de impostos; sobretaxação de heranças  e o fim das isenções fiscais para dividendos e ações. A necessidade de um plano para a saúde primária e para a educação à luz das novas tecnologias são pouco lembrados.

Enquanto isso, o governo age, pré-eleitoralmente, distribuindo dinheiro, sem licitações, e encobrindo os malfeitos com bate bocas inócuos. Movimentos como os LGBT, antirracistas, antifascistas aproveitam-se da oportunidade para aprofundar o caos. Não estão nem aí para os empresas que fecharam as portas, para os trabalhadores que perderam seus postos de trabalho ou para as famílias que começam a ter dificuldades para se alimentar.  Ocupam-se em fazer contraponto às provocações baratas. Das populações indígenas ninguém se lembra também. Pior é que o País não tem lideranças com credibilidade para negociar soluções comuns como se fez no Afeganistão e em Israel, diante das divisões políticas internas.

… Concomitante, as eleições batem às portas. Para eleger quem? Existe algum candidato qualificado para enfrentar um quadro desses, seja a nível da União, dos 27 estados ou dos 5.500 municípios? Em nome da pandemia, todos só sabem gastar, sempre mais do que arrecadam. O Estado está quebrando, e o governo perde ainda o Mansueto, o homem que administra o caixa do Tesouro…

No cenário conjuntural a previsão do Banco Mundial é a de queda de 8% do PIB brasileiro e, com ele, da produção e da produtividade. Os negócios pararam e os investidores fugiram. O desemprego retornou ao patamar dos 14 milhões de trabalhadores. As tais reformas desapareceram e os condenados por corrupção com o dinheiro público foram soltos pela, chamada, “Alta Corte”. Também foi defenestrado o Plano de Enfrentamento aos efeitos da Pandemia, da Secretaria de Assuntos Estratégicos. Mesmo assim, os apocalípticos da saúde anunciam para julho o pico da pandemia no Brasil.

Concomitante, as eleições batem às portas. Para eleger quem? Existe algum candidato qualificado para enfrentar um quadro desses, seja a nível da União, dos 27 estados ou dos 5.500 municípios? Em nome da pandemia, todos só sabem gastar, sempre mais do que arrecadam. O Estado está quebrando, e o governo perde ainda o Mansueto, o homem que administra o caixa do Tesouro. O afrouxamento das regras ai, pode dar à governabilidade ferramentas para retomar os velhos hábitos do toma lá, dá cá, apoiado no Centrão.

A realidade exige, de imediato e, no mínimo, uma Comissão para discutir saídas para o caos que se anuncia. Os fatos mostram que se tem uma crise real e outra alimentada por uma cabulosa injunção política correndo em sentido contrário, cuja estratégia é saber “O que fazer para que tudo fique ainda pior?”. Pauta-se no caos, não o sugerido pelos grandes teóricos da Política, mas assentado nos ensinamentos do pragmático Edward Murphy sobre a natureza das coisas. Incomodado com o ambiente vivenciado, o engenheiro Luiz Henrique Ceotto desenterra, sem ironizar, as “Dez leis de Murphy “para explicar as perspectivas em causa no Brasil neste momento:

        1. A Natureza está sempre a favor da falha. Tudo tende a dar errado.
        2. Tudo relegado a sua própria sorte tende ir de mal a pior.
        3. Nada é tão ruim que não possa piorar (tudo que começa bem, termina mal e tudo que começa mal, termina pior).
        4. Se algo poderá dar errado, dará. Se algo não pode dar errado, dará também.
        5. Se algo está dando certo, cuidado, algo está errado.
        6. Se existe várias formas de algo dar errado, dará na forma de maior impacto e prejuízo.
        7. Se a solução e um problema parecer fácil, você não entendeu o problema.
        8. Erros sempre acontecem em série.
        9. Toda nova solução cria novos problemas.
        10. Tudo é possível. Apenas não muito provável e dentre eventos prováveis, sempre haverá um improvável.

Para sobreviver, é quase compulsório ser otimista. Mas, segundo Ceotto, sem esquecer que essas leis funcionam. Seus efeitos patéticos são mais rápidos que as promessas políticas. Vozes iluminadas, como a de Muhammad Yunus, o banqueiro dos pobres de Bengala, prêmio Nobel de Economia, sugerem que quaisquer planos de reconstrução do processo de desenvolvimento, deve passar pela correção da rota suicida do atual sistema econômico. No Brasil, não bastaria reformar o modelo ou derrubar estátuas. Exige, contudo, um redesenho da cultura e da ética, tal a dimensão alcançada pelas vulgaridades.

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Aylê-Salassié F. Quintão*Jornalista, professor, doutor em História Cultural. Vive em Brasília

 

 

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