O zagueiro assassino. Blog do Mário Marinho

O ZAGUEIRO ASSASSINO

BLOG DO MÁRIO MARINHO

Quem assistiu ao bom faroeste “O homem que matou o facínora” (direção de John Ford com John Wayne, James Stewart e Lee Marvin, entre outros, 1962) não se esquece da lição do filme, resumida nesta frase: “Quando a lenda se torna mais forte que o fato, publica-se a lenda”.

Essa frase me vem sempre à cabeça quando o assunto é lenda urbana.

Recebi, por esses dias, um vídeo que me foi enviado pelo amigo Diniz Cepeda.

Trata-se de um filme histórico, de 1929, com imagens da goleada do Corinthians sobre o italiano Bologna, 6 a 1.

Histórico não só pela antiguidade ou pelo jogo, mas são as primeiras imagens com movimento que se tem notícia na gloriosa história corintiana.

A reportagem, da TV Globo, foi feita na época das comemorações do centenário do Timão, ocorrido em 2010.

Nesse jogo, aparece o lateral Grané. A TV entrevistou a neta de Grané, Janete Fioravanti, que se emocionou ao ver, pela primeira vez na vida, imagens de seu avô em movimento.

Grané, era alto, forte e tinha um chute tão potente que lhe rendeu o apelido de “420”, nome de um canhão alemão, que fez estragos na Primeira Guerra Mundial por sua potência.

Janete conta que havia uma história sobre seu avô.

– Diziam que o chute dele era tão forte que uma vez ele matou o próprio irmão, goleiro do time adversário, que tentou defender um pênalti cobrado por ele. Mas era pura lenda.

Trata-se de uma lenda urbana.

Aí eu me lembrei de minha infância, lá no bairro Parque Riachuelo, em Belo Horizonte.

Aos domingos, meu pai costumava me levar para assistir jogos do Parque, que era o time do bairro. Garoto, talvez uns seis anos de idade, lembro-me que era conduzido pelas mãos fortes, seguras, carinhosas e saudosas do meu pai.

No time do Parque havia dois personagens que me chamava a atenção.

Um era o goleiro que tinha o apelido de Cueca. Talvez pelo short curto que ele usava. Era um goleiro magnífico, pegava tudo.

O outro era um zagueiro, daqueles zagueiros típicos da várzea: barrigudo, botineiro que professava com fidelidade canina a máxima: a bola passa, o adversário não.

O nome dele era Neném Traíra.

Neném, claro, deve ser apelido desde os tempos de berço. O Traíra foi anexado mais tarde, não com o sentido do “traíra” que conhecemos hoje: um falso amigo.

No caso dele, se devia simplesmente às pescarias: era um pescador fanático e gostava muito de pescar traíras.

Neném Traíra chutava muito forte, forte mesmo. Talvez até lembrando o 420 de Grané. E com uma característica especial: só chutava de bico.

Reza a lenda que num determinado dia, foi enfrentar um time cujo goleiro era seu irmão.

Lá pelas tantas, pênalti.

Pênalti naquela época era muito raro. Na várzea, sem a menor proteção e ali ao lado da torcida, naqueles campos de terra, dificilmente um juiz tinha coragem de apitar um pênalti.

Era um acontecimento. E, para não perder o acontecimento, os torcedores corriam de todos os lados do campo para ficar atrás do gol.

Mas, o juiz daquele dia foi corajoso.

Neném Traíra era o cobrador oficial. Afinal, nenhum goleiro era louco o bastante para tentar defender um pênalti daquele zagueiro.

Antes de se posicionar para a cobrança, ele foi até o seu irmão. O diálogo teria sido mais ou menos assim:

– Meu irmão, você conhece o meu chute. É melhor você nem tentar pegar. Você pode se machucar e até morrer.

Ao que o goleiro respondeu com indômita bravura:

– Eu morro, mas, morro cumprindo meu dever.

Neném Traíra tomou enorme distância, como sempre fazia, e disparou seu 420.

Para surpresa de todos, o goleirão agarrou a bola com firmeza e permaneceu estático no chão, agarrado à bola.

Neném Traíra ficou estupefato, pois, nunca havia perdido um pênalti. Mas, reconheceu o mérito do irmão e foi lá cumprimentá-lo.

Ao dar um tapinha em seu ombro, o corpo do goleiro rolou, mostrando olhos estatelados: ele estava morto. A pancada tinha sido forte demais.

Toda vez que ia ao campo e via Neném Traíra, um sentimento confuso tomava conta de mim: olhava com dó, com muita dó, aquele pobre homem que havia matado o próprio irmão.

Ao mesmo tempo, era tomado de uma certa indignação: como pode o cara que matou o próprio irmão ainda estar jogando futebol?

Com o passar do tempo, a lenda foi se esvanecendo até quase sumir.

Mas, volta e meia aquelas cenas ressurgiam em minha memória.

Anos depois, já adulto, jornalista, morando em São Paulo, eis que uma noite, já madrugada, depois de sair da redação do Jornal da Tarde, estava ao lado de uma turma no restaurante Picardia, que nós, do JT, frequentávamos.

O papo da mesa, em determinado momento, passou a ser lendas. E eis que o jornalista Fernando Mitre, também mineiro e hoje, em 2020, é o diretor de Jornalismo da TV Bandeirantes, conta a história que, e mina memória, seria de Neném Traíra, só que passada na cidade dele, na infância dele, lá em Oliveira, onde nasceu.

Então, fiquei sabendo que tudo não passara de uma Lenda Urbana.

Nunca mais vi Neném Traíra.

Mas fiquei feliz ao saber que ele não havia matado o irmão.

Grané, Tuffy e Del Debbio formavam o que a Imprensa chamava de “Trio Final”: o goleiro e os dois zagueiros. No caso, um trio final que fez história no Corinthians de 1924 até 1932.

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Mário Marinho – É jornalista. É mineiro. Especializado em jornalismo esportivo, foi FOTO SOFIA MARINHOdurante muitos anos Editor de Esportes do Jornal da Tarde. Entre outros locais, Marinho trabalhou também no Estadão, em revistas da Editora Abril, nas rádios e TVs Gazeta e Record, na TV Bandeirantes, na TV Cultura, além de participação em inúmeros livros e revistas do setor esportivo.

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