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A História em perigo… Por Maria Helena RR de Sousa

A HISTÓRIA EM PERIGO

MARIA HELENA RR DE SOUSA

Começo a ficar assustada, temendo que em breve algum grupelho mais fanático ouse sugerir a derrubada do Coliseu em Roma, a destruição da estátua de Napoleão na Place Vendôme, em Paris, ou a retirada da homenagem a Pedro Álvares Cabral no Largo da Glória, no Rio de Janeiro…

ARTIGO PUBLICADO ORIGINALMENTE NO  BLOG DO NOBLAT VEJA ONLINE, 26 DE JUNHO DE 2020 

George Floyd, o negro americano assassinado por um policial branco, despertou manifestações em todo seu país contra o racismo brutal que assola aquela nação desde sempre. Já foi muito pior, já foi mais tenebroso do que é hoje em dia, mas permanece vivo e faz sofrer milhares de pessoas.

Essas manifestações se espalharam por outros países, mas num movimento oportunista que não levará ao fim do racismo, mas a um vandalismo que dará ensejo a outras barbaridades.

Começou justo na Inglaterra, país extremamente democrático e onde a Lei da Nação é respeitadíssima. Em Bristol, famoso porto às margens do rio Avon, alguns manifestantes acharam de bom alvitre derrubar a estátua de Edward Colston, traficante de escravos que no século XVII enviou centenas de milhares de pessoas da África Ocidental para servirem como escravos em países da América do Norte e Caribe. Estátua cravada na entrada do porto, ali foi colocada não pela beleza ou simpatia de Colston, mas pelo dinheiro que ele espalhou pela cidade nas taxas que cobrava dos compradores dos escravos que ele trazia em suas embarcações. Na ocasião os bristolians lhe foram gratos e daí a estátua.

Há muito, ainda bem, os escravocratas são personas non gratas, mas a estátua de Colston fazia parte da paisagem e da história de Bristol e como tal era respeitada pela comunidade. Até que as manifestações de uma sociedade indignada com a morte estúpida, violenta, de Floyd, fez surgir, tendo como base o antirracismo, uma ideia que, peço desculpas a quem a aceitou,  só faz despertar a ignorância e o desprezo pela História.

Começaram a surgir, em diferentes países, sugestões de derrubadas de monumentos que se referissem ao passado de modo a engrandecer o que teria sido uma honra e que hoje, com o passar do tempo, teriam virado anátemas.

Na semana passada li que corria por Lisboa uma petição para a derrubada da Torre de Belém, o encantador monumento às margens da entrada do Tejo que saudava os navegadores portugueses por seu monumental feito. Fiquei estarrecida! Os portugueses fizeram a volta ao mundo em frágeis embarcações e deixaram sua marca, sua religião  e mesmo sua língua desde a China até o Brasil. Foram conquistadores cruéis, foram maus? Ou foram apenas desbravadores, homens de seu tempo? A eles o Brasil deve muito.

Soube que vandalizaram. em Lisboa, uma estátua do Padre Antonio Vieira. Com que intuito? Ou melhor dizendo, visando o quê?

Começo a ficar assustada, temendo que em breve algum grupelho mais fanático ouse sugerir a derrubada do Coliseu em Roma, a destruição da estátua de Napoleão na Place Vendôme, em Paris, ou a retirada da homenagem a Pedro Álvares Cabral no Largo da Glória, no Rio de Janeiro.

Isso, nestes nossos dias, em breve veremos sugestões para a derrubada das Pirâmides no Egito ou da destruição do magnífico Machu Pichu, no Peru. Motivos? Ora, segundo esses animados intelectuais de século 21, para acabar com as homenagens aos escravos que ergueram essas maravilhas.

Acabar com a História para que nunca se possa dizer que descendemos de escravocratas, esse é o motivo!

Sobram os livros. Mas isso é barbada. Se bem que é bom levar em conta que a História apagada impunemente tende a se repetir e sempre de modo mais feroz.

Que soem as trombetas!

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Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa

Professora e tradutora. Vive no Rio de Janeiro. Escreve semanalmente para o Blog do Noblat desde agosto de 2005. Colabora para diversos sites e blogs com seus artigos sobre todos os temas e conhecimentos de Arte, Cultura e História. Ainda por cima é filha do grande Adoniran Barbosa.

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