Os mudos falantes. Coluna Carlos Brickmann

OS MUDOS FALANTES

COLUNA CARLOS BRICKMANN

Macacos Cego Surdo e Mudo | Elo7

EDIÇÃO DOS JORNAIS DE DOMINGO, 19 DE JULHO DE 2020

As Forças Armadas, em tempos de normalidade, comportam-se como “O Grande Mudo”. E juiz, desde a Primeira Instância até aquilo que gostam de chamar de Pretório Excelso, só fala nos autos. Tudo tem lógica: as Forças Armadas e o Judiciário são instituições de Estado, não de Governo. Não têm de dar opinião sobre governos. E juiz, de qualquer instância, quando fala pode tocar em assunto que um dia terá de julgar. Não é saudável que as teses do juiz sejam conhecidas antes dos julgamentos. Nem é saudável que, a cada momento, ele precise se declarar impedido, por já ter falado sobre a questão.

Portanto, o debate entre o general Eduardo Pazuello e o ministro Gilmar Mendes só provocou polêmica porque nenhum deles deveria estar falando. O problema não é um general chefiar o Ministério da Saúde: Serra foi um bom ministro e não é médico. Fernando Henrique, sociólogo, chefiou o time que baixou dramaticamente a inflação – triunfou onde economistas notáveis, Bulhões, Mário Henrique Simonsen, Delfim, não tinham tido êxito. Quando deixou o cargo para disputar a Presidência, quem liderou a implantação do Plano Real foi o advogado Ciro Gomes. Mas Fernando Henrique não lotou sua equipe com sociólogos, nem Ciro com advogados. Apenas comandaram o processo.

Não é o caso de Pazuello, que baixou um protocolo saudando a cloroquina (lembra Dilma com a mandioca, não?) e cobra do Fiocruz que dê cloroquina para todos. Como diria o técnico Tite, “fala muito!” E faz pouco.

 Brasil

Este, definitivamente, não é um país para amadores. Gilmar Mendes, com sua toga de bela confecção, o General Cloroquina, com a farda a ser honrada, brigam como crianças. E quem estabeleceu a paz foi aquele sujeito belicoso, que aparece em público de chinelo e camisa não-oficial do Palmeiras. Resta uma pergunta: se cair com Gilmar alguma ação contra a gestão do General Cloroquina, se dará por impedido, privando-nos de seus argumentos?

Meu Brasil brasileiro

O presidente Bolsonaro disse que o ministro Pazuello é ótimo e fica no Governo. Mas, nos dois meses e pouco que o general está ministro da Saúde, Bolsonaro se reuniu duas vezes com ele. Afinal, embora muita gente esteja morrendo, “todos vamos morrer um dia”.

Deve ter algo mais urgente a fazer.

 Boa notícia…

O ministro Paulo Guedes está marcando reunião virtual com dirigentes do Congresso, para amanhã, segunda-feira. Tema: reforma tributária (aquela que seria encaminhada tão logo Bolsonaro tomasse posse, há pouco mais de um ano e meio). Guedes ainda não sabe o que fazer: Bolsonaro já rejeitou o imposto de Transações Financeiras, antigo CPMF, demitiu Marcos Cintra, o secretário da Receita que o defendia; mas o poderoso Guilherme Afif, muito ligado a Gilberto Kassab, que levou o Centrão a apoiar Bolsonaro, defende o novo imposto. De certa forma, conseguiu atrair o vice Mourão, para quem a questão tem de ser debatida no Congresso.

No Congresso, já adiantado, há um elogiado projeto de reforma tributária, preferido pelos parlamentares, do economista Bernard Appy, apresentado pelo líder do MDB, Baleia Rossi.

 …até certo ponto

O problema é que as reformas, que Guedes julga básicas para retomar o desenvolvimento, têm andado lentamente. A reforma do Congresso é adiada para esperar a proposta do Governo, que até hoje não se conhece. A reforma administrativa foi enviada a Bolsonaro há alguns meses, e o presidente está ainda sentado em cima. O Projeto de Emenda Constitucional que elimina o foro privilegiado está há quase 600 dias no Congresso, e Maia não a libera.

 A hora do caçador

Lembra do Japonês da Federal? Foi condenado pelo juiz Sérgio Luis Ruivo a pagar multa de R$ 200 mil e a perder o cargo público, por facilitar contrabando. Newton Ishii, o Japonês da Federal, foi identificado em 2003, na Operação Sucuri. Dos 28 réus da Operação Sucuri, 24 foram condenados.

 Enfim!

A Sabesp, estatal paulista de Águas e Esgotos, assinou na semana passada quatro contratos, no valor de R$ 459 milhões, para concluir a despoluição do Rio Pinheiros – poluidíssimo, correndo por alguns dos bairros mais caros de São Paulo. Os trabalhos devem ser concluídos até 2022. Desde o início da obra, foram investidos na limpeza do rio R$ 1,7 bilhão de reais. São Paulo luta há anos para despoluir seus principais rios, Tietê, Tamanduateí e Pinheiros. O Pinheiros deve ser o primeiro a ter o problema resolvido.

 Estratégia tucana

Dos quatro governadores eleitos pelos tucanos em São Paulo, de 1994 até hoje, dois foram indiciados pela Polícia Federal. É algo bem preliminar: falta a opinião do Ministério Público, a aceitação do processo pela Justiça, o julgamento. Mas chama a atenção a tranquilidade tanto de Serra quanto de Alckmin. Nenhum dos dois manifestou indignação. Parecem sossegados.

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2 thoughts on “Os mudos falantes. Coluna Carlos Brickmann

  1. O Brasil é um país peculiar. Os mudos se põem a falar, os que sempre falaram demais por ora se calam (conveniência pura), e o povo, comido por um vírus, não sabe o que dizer. Que situação! Estou sem palavras.

  2. Rio Pinheiros despoluído até 2022 parece mais piada de mau gosto, escárnio contra os cidadãos paulistanos, muitos dos quais centenários que no passado nadaram e pescaram em suas águas, que nos períodos secos do ano se tronavam bem claras. Em todo caso é melhor o pessoal da USP – ainda tem quem pratique o remo? – continuarem a utilizar aquela raia aquática que existe naquele campus, protegida por parede de vidro grosso. Que tal a prefeitura já ir instalando em convênio com a USP, e outras instituições, um viveiro de peixes de espécies que sempre viveram no passado no Pinheiros para repovoarem o que espero d e coração venha a servir de exemplo para o rio Tietê e tantos outros Brasil afora, que são destruídos pelo rompimento de barragens – são em torno de 17.000, das quais 150 em situação crítica – de rejeitos de mineração, que são somados aos esgotos urbanos não tratados que muitas instituições públicas reguladoras parecem tolerar, pois o povo não fala, resmunga pelos cantos.

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