MENSAGEIROS

Culpando o mensageiro. Por Edmilson Siqueira

CULPANDO O MENSAGEIRO

EDMILSON SIQUEIRA

… se os “mensageiros” fossem calados para não divulgar a “mensagem”,  talvez o Brasil estivesse hoje expondo números que seriam o dobro ou o triplo dos que, hoje, triste e tetricamente, expomos ao mundo. A omissão e a mentira também matam…

MENSAGEIRO

Em São João do Meriti (RJ), uma mulher entrou na Justiça contra a Rede Globo de Televisão, solicitando ao juiz uma liminar que proibisse a emissora de continuar informando o número total de mortos pela covid-19 no Brasil. Para a mulher, a exibição dos números totais, aumentando todos os dias, causa insegurança e mal-estar na população. Ela pediu à Justiça que obrigasse a emissor a omitir tais mortes e a divulgar apenas os mortos das últimas 24 horas.

A juíza que julgou o caso foi rápida: extinguiu o processo rapidamente, sem necessidade de a Globo se defender da “acusação”. E o advogado da mulher disse que não pretende recorrer. Ainda bem que ainda há juízes em São João do Meriti e ainda há advogados com bom senso.

O absurdo de tal pretensão é tão grande que nos remete a uma das piores censuras que a ditadura já impôs no Brasil. Na década de 70, um surto de meningite no Estado de São Paulo se alastrava e o precário atendimento à saúde (sim, era precário na ditadura também, talvez bem mais que hoje), não dava conta de atender todo mundo. A ditadura, para quem notícias reais e ruins não deviam ser publicadas (qualquer semelhança com os fanáticos bolsonaristas de hoje não é mera coincidência), decidiu proibir notícias sobre o surto de meningite. A censura piorou a situação, já que as pessoas não sabendo do perigo, se expunham mais ao contágio. Contágio que, aliás, é parecido com a da covid-19, pois ocorre através de gotículas de saliva oriundas da tosse, espirro ou beijo. Uma pessoa infectada pode ser assintomática também e transmitir sem perceber o que está causando.

O Brasil é o segundo país mais infectado do mundo pela covid-19 e o segundo também em número de mortes. Diariamente vemos pela televisão inúmeras cidades onde as aglomerações ocorrem, sendo proibidas ou não, e medidas simples como o distanciamento e o uso de máscaras sendo solenemente descartadas pela maioria.

O que a Rede Globo faz em seus noticiários é jornalismo. Mostrar à população o que está acontecendo num país é obrigação de qualquer veículo jornalístico que queira honrar seu nome. Notícias ruins muitas vezes são muito mais importantes que notícias boas, porque elas alertam para o perigo do contágio, para a mortalidade da doença. E não só nesse campo. A notícia ruim avisa que tal região está muito perigosa, que a estrada está esburacada, que o mar está bravio, que o sol está quente demais e que a secura do clima afeta os alérgicos. Vemos e ouvimos, diariamente, e principalmente num país de terceiro mundo como o Brasil, dezenas de notícias ruins e algumas poucas boas.

O jornal – seja impresso, radiofônico, televisivo ou virtual – que quiser dar só notícias boas (para alegrar o público?) com certeza terá pouca audiência e não sobreviverá. Isso porque jornalismo é informação, é serviço de utilidade pública e uma notícia boa só será informação útil para alguém se resolver um fato ruim. Só que antes, o fato ruim foi notícia e muita gente por ele se interessou, pois é, por exemplo, útil saber que um assassino está solto e é bom saber que ele foi preso.

MENSAGEIRO…Mostrar à população o que está acontecendo num país é obrigação de qualquer veículo jornalístico que queira honrar seu nome. Notícias ruins muitas vezes são muito mais importantes que notícias boas, porque elas alertam para o perigo do contágio, para a mortalidade da doença. E não só nesse campo. A notícia ruim avisa que tal região está muito perigosa, que a estrada está esburacada, que o mar está bravio, que o sol está quente demais…

Todos os governos autoritários têm na imprensa um inimigo. A censura (e não só à imprensa – alcançava também músicas, peças de teatro, livros, revistas de variedades, programas de televisão e rádio) durou toda a ditadura. Foi menos rigorosa nos últimos anos, mas, infelizmente, mesmo depois de oficialmente extinta no governo Sarney, jamais deixou de existir. Até hoje, juízes ignoram solenemente a Constituição e decretam censura sobre assuntos a pedido de partes envolvidas. Até hoje, o STF, por exemplo, partindo de um esdrúxulo processo, inventado por ele mesmo, investigado  por ele mesmo e julgado por ele mesmo (o que fere as mais elementares normas de Justiça em qualquer lugar civilizado do mundo) se arvora a pisotear a liberdade de expressão inserida na Constituição como cláusula pétrea.

Claro que diante de tais exemplos, qualquer cidadão também se sente poderoso a ponto de pedir à Justiça que determine como um jornal deve expor os números de uma tragédia nacional e mundial. E não só esse cidadão.

Durante os governos petistas, não foram poucas as tentativas de se criar um conselho de comunicação (ou algo parecido) que, nomeado pelo governo, iria julgar e, com certeza, depois determinar o conteúdo do noticiário de todos os veículos de imprensa do Brasil. A bronca do PT era com a Rede Globo, com a revista Veja e com os jornais O Globo e O Estado de S. Paulo e com blogueiros sérios e independentes. Os outros grandes – TV, jornais e revistas – o PT havia conseguido dominar através da infiltração em suas redações de jornalistas de esquerda, que rezavam de acordo com a cartilha oficial. Já blogueiros de esquerda ou desonestos mesmos, eram beneficiados com farta propaganda oficial (qualquer semelhança…).

As tentativas petistas não conseguiram êxito, para o bem da liberdade e da democracia. Mas causaram grandes estragos. Boa parcela da população, “educada” pela imprensa militante, acredita até hoje que Lula é inocente, que Moro é desonesto e que Dilma sofreu um golpe.

No governo Bolsonaro, a bronca começou já na campanha, embora meio tímida. Mas na primeira semana de governo, Bolsonaro proibiu seu ministro de Relações Institucionais de receber um diretor da Globo, afirmando que ele, o ministro, estava proibido de falar com “seus inimigos”.

A partir daí, a máquina de destruir reputações através de fake news passou a atacar a Rede Globo e todos os jornais, revistas, rádios e até blogueiros que não estivessem alinhados com a política do governo, embora desse governo não se possa dizer que tenha alguma política. Bolsonaro mesmo chegou a berrar numa de suas “lives” contra a Folha e contra a Globo, embora as reportagens que provocaram a ira do “mito” não contivessem mentiras sobre ele ou seu governo. Eram apenas notícias ruins para ele e seu governo.

Os números da covid-19 no Brasil e no mundo são verdadeiros. São terríveis mesmo. Apavoram mesmo qualquer cidadão sensato. E os que não são sensatos e que consideram que o ex-capitão que está no poder é um “mito” não querem que notícias ruins sejam divulgadas. Quando a pandemia era apenas uma ameaça, mas já estava causando prejuízo nas gigantescas linhas de montagem em Wuhan, na China, eu alertei um amigo, numa conversa num café. Ele, bolsonarista convicto, não só desdenhou a minha preocupação, como afirmou que, para acabar com a tal gripe, bastava desligar a televisão.

A televisão não foi desligada, claro, como queriam os bolsonaristas. Mas se os “mensageiros” fossem calados para não divulgar a “mensagem”,  talvez o Brasil estivesse hoje expondo números que seriam o dobro ou o triplo dos que, hoje, triste e tetricamente, expomos ao mundo. A omissão e a mentira também matam.

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Edmilson Siqueira é jornalista

 

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