Duzentos paus? Por Edmilson Siqueira

DUZENTOS PAUS

EDMILSON SIQUEIRA

… essa nota de 200 reais, sem qualquer justificativa plausível, assusta. Será que para angariar votos para a reeleição, o atual governo estaria planejando encher a praça de dinheiro para contentar multidões de uma forma totalmente insustentável e inflacionária? E a nota de 200 já seria um prenúncio de inflação crescente? Espero que não…

O surpreendente anúncio da produção de uma nota de duzentos reais me levou à triste lembrança das notas com valores cada vez mais altos a que estávamos acostumados nos terríveis anos em que a inflação dominava nossas vidas financeiras. O anúncio surpreende porque não estamos vivendo espiral inflacionária que justifique colocar em circulação uma nota de tão alto valor. Além disso, a nota vai dificultar trocos por aí e facilitar quem precisa carregar ou esconder pacotes de dinheiro vivo, o que, quase sempre, é prenúncio de práticas, digamos, não republicanas. Nesta semana mesmo a PF encontrou 3,5 milhões de reais em notas de 50 e 100 reais na casa de um acusado de corrupção. Fossem notas de 200 reais, talvez elas estivessem melhor escondidas, mais difíceis de achar porque ocupariam bem menos espaço.

Mas quando falamos da enorme inflação que vivemos nos anos de 1980 e 1990 no Brasil, muita gente não faz ideia do que era aquilo. Carregávamos algum dinheiro na carteira, mas o mais importante era o talão de cheque. Gastava-se de 20 a 30 folhas por mês, pois qualquer conta num boteco, numa turminha de quatro pessoas, cada um dava sua parte num cheque, já que não dava pra carregar tantas notas assim na carteira.

Nos supermercados, a batalha era outra. Às vezes apressávamos os passos empurrando o carrinho para pegar a mercadoria antes que o funcionário do supermercado passasse por ela com a terrível maquininha de remarcação de preços. Havia vários deles em cada loja, pois não existia ainda o código de barras, e era uma disputa pra chegar antes à prateleira. Às vezes, havia duas remarcações do mesmo produto no mesmo dia. Fazíamos compras atentos à movimentação daquela tropa de remarcação de preços.

Pra se ter uma ideia melhor ainda do descalabro financeiro, da bagunça monetária em que vivíamos, em julho de 1990 foi lançada uma nota de 5 mil cruzeiros e ela chegou ao mercado defasada em 4,5% desde a data do anúncio em que ela ia circular, ou seja, um mês antes. E já estava anunciada, para dali a seis meses, a nota de 10 mil cruzeiros.

Para facilitar as contas de grandes empresas e de governos, que chegavam facilmente ao trilhão, de vez em quando cortavam-se três zeros do valor de tudo  (das notas também, claro) e o que custava mil cruzeiros (ou cruzados) passava a custar apenas um. Acho que vivi três cortes desses.

Os salários eram um caso à parte. A gente não recebia a mesma quantia dois meses seguidos. O valor era sempre corrigido automaticamente pela inflação oficial (que nunca era a inflação real, diga-se) e havia uma correção maior uma vez por ano, na data do tal “dissídio coletivo”, comandado pelos sindicatos que sempre pediam um percentual maior de aumento para compensar a enorme defasagem ao longo dos 12 meses anteriores. Conseguia-se alguma coisa, mas nunca conseguíamos receber tudo que havia sido perdido.

…O povo brasileiro não merece voltar a uma era das trevas que só nos atrasou perante o mundo, agravou a miséria e matou milhões de fome…

Na minha carteira profissional há uma profusão de números que assusta qualquer um. Andei folheando as páginas de “alterações salariais” e descobri que já ganhei salário de quase 2 milhões de cruzeiros por mês! Foi em 1992, quando trabalhava no Correio Popular de Campinas. Um ano antes, há o registro de salário de 382.969,00 cruzeiros. Já em 92, o valor impressiona: 1.947.887,00 cruzeiros. Eu era milionário e não sabia. Ou melhor: era e não era.

Como se vê, era tudo um espanto numa fase das piores pelas quais esse país já passou. Uma fase que foi do fim da ditadura militar, avançou enormemente no governo Sarney que tentou corrigi-la com vários planos que deram em nada, avançou mais ainda no governo Collor (que também tentou acabar com a inflação e deu com os burros n’água), avançou mais um pouco com Itamar, mas o Plano Real já estava sendo urdido em seu governo, comandado pelo ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso. A moeda real entrou em circulação em julho de 1994. O resto é o que vivemos até hoje.

Claro que ninguém em sã consciência pode querer voltar à época da hiperinflação. Já ouvi gente dizendo por aí que “éramos felizes e não sabíamos”, mas, com certeza, isso se deve mais a esses tempos bicudos de corrupção, da desorganização política e dos ataques à democracia na era petista e agora também, do que qualquer alusão ao inferno econômico das inflações diárias de três a quatro por centro.

Por isso, essa nota de 200 reais, sem qualquer justificativa plausível, assusta. Será que para angariar votos para a reeleição, o atual governo estaria planejando encher a praça de dinheiro para contentar multidões de uma forma totalmente insustentável e inflacionária? E a nota de 200 já seria um prenúncio de inflação crescente? Espero que não. Pois não há campo melhor para que demagogos e populistas nadem de braçada com soluções mágicas e instantâneas, com efeitos que duram apenas meses, do que um país à beira da ruína, com inflação alta e sem controle.

O povo brasileiro não merece voltar a uma era das trevas que só nos atrasou perante o mundo, agravou a miséria e matou milhões de fome.

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Edmilson Siqueira é jornalista

 

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