A culpa da vítima. Coluna Carlos Brickmann

A CULPA DA VÍTIMA

COLUNA CARLOS BRICKMANN

EDIÇÃO DOS JORNAIS DE QUARTA-FEIRA, 19 DE AGOSTO DE 2020

Uma menina de dez anos de idade que há quatro era estuprada engravidou. A Justiça liberou o aborto, na forma da lei. E que é que aconteceu? A menina de dez anos foi exposta ao público: Sara Geromini, por apelido Sara Winter, em prisão domiciliar com tornozeleira, divulgou nome e dados pessoais da menina, mais o endereço do hospital onde ocorreria o aborto, permitindo que uma turba ululante de fanáticos perturbasse a paz dos pacientes e médicos.

Pior: aos berros, acusaram a menina de “assassina”. O nome do estuprador, ninguém se incomodou em descobrir e revelar. Em que país vivemos, no qual adultos fanatizados gastam seu tempo para insultar crianças e perturbar a vida de um hospital? Pois vivemos num país ainda pior: o presidente da CNBB, Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, d. Walmor de Oliveira, disse que interromper a gravidez de uma criança de dez anos, vítima de estupro, “é um crime hediondo”.

Sua Eminência Reverendíssima que perdoe este colunista, mas no caso o crime que se configura é atribuir falsamente um crime a alguém. D. Walmor tem todo o direito de, como hierarca católico, condenar o aborto, do ponto de vista de sua religião. Mas qualificá-lo como crime? Crime é algo definido em lei. E a lei não considera crime interromper uma gravidez proveniente de estupro – ainda mais tratando-se de criança, ainda mais após a aprovação da Justiça. Tenho certeza de compartilhar esta posição não só com o Papa Francisco como com o papa emérito Bento 16.

 A religião

Apenas relembrando, as três Virtudes Teologais do catolicismo são a Fé, a Esperança e a Caridade – que também pode ser chamada de amor. Palavra de Jesus: “Deixai vir a mim as criancinhas, pois delas é o Reino de Deus”.

 A lei

A interrupção da gravidez em casos como este é legal. A Justiça a aprovou – ponto final. Todos têm o direito de defender opinião diferente, por quaisquer motivos, mas sem violência, e sem tentar imputar o crime à vítima. Não como fez Sara Geromini, que expôs a menina. Abusou da prisão domiciliar e se mostrou perigosa, lembra a deputada Perpétua Almeida, do PCdoB, que pediu ao STF que elimine o benefício e a ponha na cadeia.

 Abaixo os livros!

Há uns 1.500 anos, quando o califa Omar conquistou o Egito, onde havia a notável Biblioteca de Alexandria, decidiu destruí-la: “Se os livros estiverem de acordo com o Corão, são inúteis. Se estiverem em desacordo, são nocivos”. Os livros foram distribuídos aos balneários, e usados como combustível para aquecer a água. Agora, um milênio e meio depois, o Egito tenta restaurar a Biblioteca de Alexandria, símbolo eterno de sua cultura.

O nazismo lutou contra os livros, os comunistas soviéticos proibiram boa parte dos livros, Mao Tsé-tung fez o que pôde para evitar o contágio de novas ideias. Só eles? Não: Paulo Guedes, o Imposto Ipiranga, também propõe que os livros tenham fim. Em sua reforma tributária, os livros, hoje isentos de impostos, passarão a pagar 12% – o Governo ganhará mais que os autores, mais que os industriais gráficos, mais que os comerciantes, e sem se dar ao trabalho de gerar uma só ideia, um só emprego.

Guedes deveria gostar de livros, já que fez uma boa Universidade americana, a de Chicago, e se gabou de ter lido toda a obra de Keynes no original, e três vezes. Talvez tenha de ler a quarta para ver se entende: tanto Keynes quanto Milton Friedman, guru de Guedes, embora defendam ideias diferentes, são defensores dos livros.

 Este conhece

O professor Jayme Pinsky é autor, editor, intelectual de renome. Vejam o que pensa dessa ideia de jerico: http://www.chumbogordo.com.br/33468-o-livro-esse-subversivo-por-jaime-pinsky/

 O tempo passa

O ministro da Economia, Paulo Guedes, encaminhou ao Ministério da Saúde, em 21 de abril, um ofício com a lista de 81 imóveis da União, nos 26 Estados e no Distrito Federal, onde poderiam ser instalados hospitais de campanha. O general Eduardo Pazuello, ministro da Saúde, respondeu ao ofício em 31 de julho, três meses depois. Fazendo o cálculo de outro jeito, no dia em que o ofício foi enviado, havia no Brasil 2.700 mortos pela Covid. No dia em que o ofício foi respondido, já havia por aqui 91 mil mortos.

 O brasileiro e os impostos

A pesquisa foi encomendada ao Ipespe pela corretora XP. Primeira conclusão: 10% dos entrevistados se julgam bem informados sobre a reforma tributária, 61% mais ou menos bem informados, 26% não estão informados.

A nova CPMF é rejeitada por 78%; mas se for ligada a um programa tipo Bolsa Família, para beneficiar mais pessoas, há empate, 43% a 43%. Se for para substituir outros impostos, 43% concordam e 37% discordam. Mas 59% dos ouvidos dizem não se lembrar de como era cobrada a CPMF. E, para 41%, a alta carga tributária é um dos principais problemas do país.

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3 thoughts on “A culpa da vítima. Coluna Carlos Brickmann

  1. Carlos Brickmann é dos meus: “Talvez [Guedes] tenha de ler [Keynes] a quarta para ver se entende.” Só difere de mim porque ainda acredita que, na quarta vez, Guedes, quem sabe, poderá entender… Deve ser por isso que esse tipo quer taxar livros: se não os entende, por que tê-los? Vai economizar uma boa grana não pagando impostos.

    PS. Se, até ontem, alguém me perguntasse o que Sara Gironimi e D. Walmor de Oliveira têm em comum, eu provavelmente responderia que deve ser o “a”, segunda letra de seus prenomes. Se me perguntarem hoje, já poderei dizer, com muito mais segurança, que são a desumanidade, a crueldade e a inacreditável insensibilidade diante de algo que, afinal, é apenas um trágico, tristíssimo drama humano. Obviamente inacessível à primeira, pela opacidade de sua mente. Certamente incompreensível ao segundo, porque este tem sua fé. E só.

  2. Acompanhei o assunto da menina capixaba pelo jornal online local. Houve caso anterior parecido no ES. Sem grandes alardes. Por que o médico e o juiz de São Mateus não exigiram segredo de justiça? Não li na imprensa essa alternativa para preservar a vítima. Chorar o leite derramado parece ser mais conveniente! Tantos órgãos públicos envolvidos e o desenrolar parecia capítulos de novela. Final previsível para quem acompanhou as notícias online.

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