Lima Barreto

Esse tal de futebol. Coluna Mário Marinho

Esse tal de futebol

Nascido em colégios britânicos de classe alta, o futebol é hoje o esporte mais popular do mundo. Seus jogos são assistidos no mundo inteiro e movimentam bilhões e bilhões de dólares.

Tornou-se uma paixão capaz até de parar guerras como aconteceu numa excursão do Santos de  Pelé na África, no final dos anos 60.

É regido por leis internacionais e sua associação maior, a Fifa, tem 209 países- membros, enquanto a ONU tem 193, 20 a menos que o poderoso futebol.

Chegou ao Brasil nas malas do jovem estudante Charles Miller, brasileiro filho de britânicos, que aprendeu a jogar na Inglaterra, onde estudava.

O primeiro jogo foi disputado em São Paulo, em 1895, assistido por pequena mas seleta plateia. Até o final dos anos 20, era um esporte típico do que um ex-presidente do Brasil chamaria de zelite, a classe composta por gente fina.

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Torcida de época

Fora de campo, homens elegantes, de ternos, polainas, chapéus aplaudiam a disputa ao lado de gentis senhorinhas também com seus chapéus, elegantes vestidos longos, delicadas sombrinhas a proteger a pele branca, e, nas mãos, finos lenços bordados que elas torciam e retorciam nervosas.

Elas eram chamadas de torcedoras, pelo hábito de torcer o lenço e, daí, o termo acabou por se generalizar nos torcedores de hoje.

O futebol foi se popularizando e hoje seu mundo abrange do miliardário sultão ao pobretão boia fria que custa a conseguir dinheiro para pagar os ingressos.

Mas, em sua primeira década, o novo esporte já abria espaço na mídia – contra e a favor.

O escritor Lima Barreto estava no time do contra.

Enquanto quem estava a favor chamava o “sport” de “football” ou “esporte bretão” Lima Barreto preferia chamá-lo de jogo de “bolapé” ou de chute na bola ou chute-bola.

Como morava perto de um campo de futebol, abominava o barulho da torcida antes, durante e depois do jogo.

Em uma crônica publicada na revista Careta, de 4 de outubro de 1919, ele diz a respeito de uma partida de futebol: “Sendo um divertimento ou passatempo, elas acabam sempre em rolo e barulho”.

Em outra crônica, essa publicada no jornal Brás Cubas, em 15 de agosto de 1918, ele fala sobre a rivalidade entre cariocas e paulistas aflorada após uma disputa de três jogos entre as seleções estaduais e vencida pelos cariocas.

“Órgão de São Paulo, se bem me lembro, dizia que os cariocas não eram “cariocas”, eram hebreus, curdos, anamitas, enquanto os paulistas eram “paulistas”. Deus do céu! exclamei eu. Posso ser rebolo (minha bisavó era), cabinda, congo, Moçambique, mas judeu – nunca! Nem com dois milhões de contos!”

O termo rebolo, acima, talvez se refira à origem negra de Lima Barreto.

Na mesma crônica, ele transcreve trechos de uma crônica publicada em São Paulo onde, com ironia, o cronista fala das festas sem fim do Rio de Janeiro por ter vencido os paulistas. Aliás, ele não diz cidade do Rio de Janeiro, mas “Sebastianópolis”, em alusão ao padroeiro da Cidade Maravilhosa, São Sebastião.

Em outra crônica, de 1921, ele dá mais uma estocada no futebol ao transcrever notícia publicada no Correio da Manhã de 17 de outubro daquele ano:

“O Sacro Colégio de Football reuniu-se em sessão secreta para decidir se podiam ser levados a Buenos Aires os campeões que tivessem, nas veias, algum bocado de sangue negro”.

Mas à frente diz que como o conchavo não chegou a um acordo resolveu consultar o presidente da República.

Segundo Lima Barreto, o presidente do Brasil (Epitácio Pessoa, 1919-1922) resolveu que “gente tão ordinária e comprometedora não devia figurar nas exportáveis turmas de jogadores”.

Termina Lima Barreto: “A nossa vingança é que os argentinos não distinguem em nós as cores. Para eles, somos todos macaquitos.”

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FOTO SOFIA MARINHO
MARIO MARINHO, agora qui no Chumbo Gordo.com.br
  • Mario Marinho É jornalista. Especializado em jornalismo esportivo foi durante muitos anos Editor de Esportes do Jornal da Tarde. Entre outros locais, Marinho trabalhou também no Estadão, em revistas da Editora Abril, nas rádios e TVs Gazeta e Record, na TV Bandeirantes, na TV Cultura, nas rádios 9 de Julho, Atual e Capital. Foi duas vezes presidente da Aceesp (Associação dos Cronistas Esportivos do Estado de São Paulo). Também é escritor. Tem publicados Velórios Inusitados e O Padre e a Partilha, além de participação em  livros do setor esportivo
A COLUNA MÁRIO MARINHO É PUBLICADA TODAS AS SEGUNDAS E QUINTAS AQUI NO CHUMBO GORDO.

… e sempre que tiver alguma novidade extra!

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