De almas honestas ou nem tanto

Por Josué Machado

…há casos em que certas almas, principalmente de políticos, animariam melhor os corpos de hienas, urubus, baratas, ratos, bactérias e larvas coprófilas e coprófagas. Ou outros desses seres úteis…

Em entrevista a blogueiros no Instituto Lula em 20 de janeiro último, Luiz Inácio bateu a mão na mesa e proclamou com a ênfase de sempre, a voz rouca (pobres cordas vocais):

“Não tem neste país uma viva alma mais honesta do que eu, nem delegado, nem promotor do Ministério Público, nem empresário, nem na Igreja. Pode ter igual, isso sim”.

Que bom!

Em primeiro lugar, ninguém se preocupará com o fato de Luiz Inácio ter usado duas vezes o justificável e oralíssimo “ter” no lugar de “haver”, considerando a informalidade da situação entre amigos:

“Não tem neste país uma viva alma mais honesta do que eu […]. Pode ter igual […]”)

Mas algum chato mais interessado na forma do que no conteúdo (há quem proteste contra essa velha classificação) poderá dizer que Luiz Inácio não foi fiel ao paralelismo ao comparar a própria alma imortal e honesta a pessoas mortais: delegado, promotor, empresário.

A verdade é que, para ser formalmente irrepreensível, deveria ter dito:

“Não há neste país uma viva alma mais honesta do que a minha…”.

Sim, porque tudo começou com a alma honesta do Luiz, e convém sempre comparar coisas iguais para que a comparação seja justa.

Pior ainda, tomou a santa Igreja por seus representantes: padres, bispos, cardeais e até o santo papa. E sem considerar que alma deve brincar apenas com alma e não com o triste revestimento material, que são os corpinhos a que elas dão vida. Às vezes imerecidamente, convém admitir, porque há casos em que certas almas, principalmente de políticos, animariam melhor os corpos de hienas, urubus, baratas, ratos, bactérias e larvas coprófilas e coprófagas. Ou outros desses seres úteis.

Não faz mal.

Então, Luiz Inácio, que está muito acima dessas formalidades rasteiras, necessárias apenas para quem faz redação em concursos, deveria ter comparado sua própria e honesta alma à alma às vezes violenta de delegados (menos a do japonês da Lava Jato), à alma acusatória de promotores públicos e à alma pura de padres, bispos e cardeais, até chegar à santa alma do santo papa.

O raciocínio também serve para a alma de integrantes de outras igrejas, claro, com seus honestíssimos pastores, bispos, apóstolos e missionários — não todos, é certo –, interessados apenas e tão somente na salvação de muitas e muitas almas. Sim.
Então, feita a justa comparação da honesta alma de Luiz Inácio com outras almas, não haveria nenhuma dúvida sequer formal sobre a honestidade indiscutível, sim, indiscutível, de todos – todos prontos para subir ao Paraíso assim que chegar a hora, almas limpinhas que são.

Oremos e tenhamos esperanças.

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JOSUE 2Josué MachadoJornalista, autor de “Manual da Falta de Estilo”, e “Língua sem Vergonha”, em que avalia, apesar de tudo com bom humor, os textos torturados de jornais, revistas, TV, rádio e publicidade. Trabalhou no Jornal do Brasil e em revistas da Editora Abril.

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