Domingo na Paulista. Coluna Mário Marinho

Domingo na Paulista

Eu moro na Zona Oeste de São Paulo, no bairro do Jaguaré.

Minha casa fica, segundo o Google, a 7,4 quilômetros da estação Vila Madalena do metrô.

Saí de casa ontem, domingo, à tarde em direção ao metrô.

Na avenida Jaguaré já encontrei trânsito carregado para uma tarde de domingo.

Quando entrei na rua Heitor Penteado, a mais ou menos 1,5 quilômetro do metrô, o trânsito ficou engarrafado. Muita gente buzinando, muita gente seguindo a pé.

Mas ao contrário de um engarrafamento daqueles comuns em dia de semana, as buzinas não eram de pessoas irritadas: eram de pessoas que viam em um outro veículo alguém também de camisa amarela ou verde e queria cumprimentar; quem seguia a pé seguia tranquilo.

Eram pessoas também em direção ou avenida Paulista ou à estação do metrô. E quando chegamos – eu e a Vera, primeira dama eterna desta coluna – mais próximo da estação, a impressão era de que estávamos chegando a um estádio de futebol onde o Brasil disputaria a final da Copa do Mundo: bandeiras brasileiras agitadas, buzinas, camisas amarela ou verdes ou azuis ou tudo misturado.

A estação da Vila Madalena estava lotada. Do lado de fora, imensa fila de quem não havia comprado passagem com antecedência. Mas não havia mau humor, não havia reclamações. Só os coros entoados de quando em quando, como se tivessem sido ensaiados: “Fora Dilma! Fora Dilma”, “Fora PT! Fora PT”

Pegamos o metrô lotado e logo chegamos à estação Consolação, onde descemos, quase na esquina da Paulista com a Augusta.

Quase não dava para andar.

As pessoas protestavam com firmeza, mas sem ódio. Havia sempre aquela satisfação de estar cumprindo o dever, de fazer o seu papel para colocar o Brasil nos trilhos, livrar nosso País desse momento que vivemos. Um momento que já dura 13 anos.

Os cartazes “Fora Dilma!”, “Fora PT”, “Fora Lula” apareciam aos montes.

De repente, alguém puxa o Hino Nacional e todo mundo acompanha.

Passa alguém e lança grito mais politizado: “A nossa bandeira, jamais será vermelha!”. Esse foi o refrão que fez mais sucesso.

Pais carregando as crianças no ombro, mães cuidadosas que não largam as mãos dos pimpolhos, pessoas mais idosas andando com cuidado, vão passando entre os muitos cartazes.
Pais carregando as crianças no ombro, mães cuidadosas que não largam as mãos dos pimpolhos, pessoas mais idosas andando com cuidado, vão passando entre os muitos cartazes.

Alguém ao meu lado ouve num radinho de pilha que o governador Geraldo Alckmin e o senador Aécio Neves estão na Paulista. Logo começam os gritos de insatisfação: “Fora!”, “Oportunista!”

No minuto seguinte já chega a informação de que os dois tomaram caminho de casa.

“A manifestação é nossa, não dos políticos”, grita um exaltado senhor ao meu lado.

BEM DIFERENTE

Bem diferente das manifestações que já participei nos meus tempos – idos e vividos – de juventude.

Primeiro, como estudante correndo da polícia.

Segundo, como jornalista cobrindo passeata e assim mesmo tendo que correr porque a polícia baixava o cacete e só depois olhava em quem havia batido.

E em uma dessas, cobrindo para o extinto jornal Última Hora, em Belo Horizonte, acabei detido no Dops e passei lá o dia inteiro.

A Última Hora, onde eu trabalhava, havia publicado matéria minha totalmente distorcida pela redação no Rio de Janeiro, onde o jornal era impresso.

O Dops mineiro era dirigido por duas pessoas: David Hazan e Thacir Menezes Sia. Eles se definiam assim: David Hazan era cabeça; Thacir o braço – um pensava e o outro batia.

Thacir Menezes odiava que seu nome fosse escrito Cia ou em vez de Sia, pois remetida, claro, à agência de inteligência dos Estados Unidos.

O engraçadinho que recebeu minha matéria no Rio , trocou todos os Sia por Cia. Além de outros detalhes sobre a cobertura que eu havia feito.

Quando cheguei ao Dops, fui colocado numa sala onde fiquei por horas sozinho e sem que ninguém me dissesse o que estava acontecendo.

Depois, me levaram para a sala do Thacir. Não fui bem recebido.

Tentei explicar e o delegado não me deixava falar, além de dar estrondosos socos na mesa.

E vez em quando, entrava um detetive e falava:

– É esse cara aí, doutor? Quer que eu leve ele lá pra baixo?

Eu sabia bem o que significava “lá em baixo”.

Hoje, quem fala que os procedimentos da Lava Jato remetem ao tempo da ditadura, não sabe o que aconteceu nas delegacias e becos policias a partir de 1964.

Naquela ocasião, estávamos no começo de 1967. Quem era preso, principalmente estudante ou jornalista, costumava sumir, nunca mais aparecer.

E eu ali – estudante e jornalista.

Até que fui chamado à sala do doutor David, o Cabeça, que até me serviu um cafezinho. Aí me dei conta que já passava das três da tarde e eu nem havia almoçado. O pânico tem essa vantagem: tira a fome.

David Hazan tinha fala mansa e me perguntava por que havia escrito aquilo. E não adiantava dizer que a matéria havia sido modificada.

Foram mais horas de angústia até que ele me permitiu ligar para o jornal.

Antes de falar com o redator chefe, ainda tomei um esporro do meu editor: “Pô, onde Você está? Esqueceu da hora de mandar o malote pro Rio?”

Mais espera angustiante, até que o redator chefe, Demóstenes Romano, chegou ao Dops levando os originais da matéria que eu havia escrito.

Depois de muita negociação, fui liberado. David Hazan fez um sinal de que eu e o Romano poderíamos ir embora – um simples sinal. Thacir Menezes Sia fez questão de nos acompanhar até à porta. E antes de fechá-la, me deu tenebroso aviso:

– Nunca mais Você apareça aqui. Se botar os pés aqui dentro, nunca mais sai.

Eu nunca mais entrei.

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CASAL 1
Nosso colunista Mario Marinho, na manifestação, com a esposa. Mário conta o que viu

Mario Marinho É jornalista. Especializado em jornalismo esportivo foi durante muitos anos Editor de Esportes do Jornal da Tarde. Entre outros locais, Marinho trabalhou também no Estadão, em revistas da Editora Abril, nas rádios e TVs Gazeta e Record, na TV Bandeirantes, na TV Cultura, nas rádios 9 de Julho, Atual e Capital. Foi duas vezes presidente da Aceesp (Associação dos Cronistas Esportivos do Estado de São Paulo). Também é escritor. Tem publicados Velórios Inusitados e O Padre e a Partilha, além de participação em  livros do setor esportivo

A COLUNA MÁRIO MARINHO É PUBLICADA TODAS AS SEGUNDAS E QUINTAS AQUI NO CHUMBO GORDO.

… e sempre que tiver alguma novidade

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