Chumbo Gordo

Mais do que despetizar o país, é preciso desbancarizar! Por Antonio Silvio Lefèvre

Mais do que despetizar o país, é preciso desbancarizar!

Antonio Silvio Lefèvre

Minha conclusão foi de que os bancos é que mandam no país, seja o governo tucano, petista ou temerista…  Com certeza pela dependência que deles tem os veículos de comunicação (vide a falência da Abril) e pelas enormes verbas publicitárias que os bancos lhes destinam, estes se calam, vergonhosamente, diante do verdadeiro atentado ao país que é o recorde mundial de taxa de juros aos consumidores e empresas.  

Há dois anos escrevi neste Chumbo Gordo um artigo denunciando o que chamei de golpe baixo dos cartões de crédito que, com o Banco Central dirigido por Ilan Godfajn, ex economista chefe do Itaú,  a pretexto de reduzir o juro do crédito rotativo, mais do que dobraram os juros do parcelamento das faturas.

Há um ano escrevi outro artigo, que chamei de Abaixo a ditadura dos bancos, denunciando o silêncio da imprensa e dos colunistas de economia que engoliram esta falácia, sem que uma voz (além da minha…) surgisse para apontar a fraude. Minha conclusão foi de que os bancos é que mandam no país, seja o governo tucano, petista ou temerista…  Com certeza pela dependência que deles tem os veículos de comunicação (vide a falência da Abril) e pelas enormes verbas publicitárias que os bancos lhes destinam, estes se calam, vergonhosamente, diante do verdadeiro atentado ao país que é o recorde mundial de taxa de juros aos consumidores e empresas.

Nas ultimas semanas, coincidindo com a virada para o governo Bolsonaro, a Febraban lançou um livro (gratuito!) sob o titulo Como fazer os juros serem mais baixos no Brasil, com vasta campanha publicitária na mídia. No qual, evidentemente, a “culpa” pelos juros altos é dos impostos, da inadimplência… e de várias outras causas… nenhuma delas a real, ou seja, a ganância dos bancos, o verdadeiro monopólio atualmente exercido pelos quatro maiores… e a total submissão do Banco Central aos interesses desses banqueiros.

Por semanas imperou o silêncio na imprensa sobre esta clara tentativa de tapar o sol com a peneira. Em 8 de janeiro, uma luz apareceu no fim do túnel:  saiu uma noticia de página inteira na Folha de S.Paulo, de autoria da UNECS, União das Entidades de Comércio e Serviços, finalmente denunciando o óbvio, ou seja “Concentração bancária e verticalização fazem Brasil ter taxas recordes de juros.” E observando que ”enquanto a Selic é a menor da história, os juros do cartão de crédito beiram os 280 % ao ano”.

Finalmente e felizmente alguém se levanta e este alguém são as empresas do comércio e serviços que sofrem duas vezes com os juros extorsivos dos bancos brasileiros: pelos juros que elas mesmas pagam para o capital de giro e pelo juro que seus clientes pagam nos cartões e nos empréstimos bancários e que, de tão altos, inibem fortemente as compras e a recuperação da economia. Eu, como empresário livreiro e como consumidor, sofro isso pelos dois lados… E fico feliz por alguém denunciar a falácia de certos cronistas de economia ficarem festejando a “queda dos juros” tomando como base a Selic, quando todos sabem que esta taxa só é aplicada para as dívidas do governo… constituindo assim um verdadeiro suborno dos bancos para deixa-los esfolar empresas e consumidores com a taxa extorsiva que lhes aplicam..

Eleito com o discurso do liberalismo na economia, o governo Bolsonaro falou de tudo no seu início, menos de reduzir os juros… O novo super ministro da economia, Paulo Guedes, ex-executivo de bancos, também faz silêncio à respeito…

A grande questão que se coloca ao país é a de até onde vão o liberalismo e as privatizações anunciadas. Liberalismo implica incentivar ao máximo a  concorrência, que hoje praticamente inexiste neste segmento, com apenas 4 bancos de porte grande. E que tal serem liberais de verdade, começando por privatizar os bancos estatais, BB e Caixa, mas necessariamente para outros grupos, nada ver com os 4 já mandando no mercado?…

Tirar o governo das atividades comerciais, sem dúvida, é excelente, inclusive porque em nenhum lugar como nas estatais houve tanto desperdício, cabides de emprego e roubalheira. Porém se tudo for privatizado e o governo não fizer nada para impedir os monopólios e para proteger o consumidor, nós simplesmente passaremos de uma desgraça para outra…

Uma medida que se impõe e que ninguém tem a coragem de propor é que seja implantada uma efetiva independência do Banco Central em relação aos bancos, como acontece no Fed, nos Estados Unidos. É um escândalo colocar na direção do Banco Central executivos fortemente vinculados aos bancos. A raposa tem tomado conta do galinheiro por muitos e muitos anos.

E o mesmo deveria ser aplicado a todas as agências reguladoras, como a ANS, a SUSEP e outras que, nos últimos anos, foram totalmente submissas aos interesses das corporações como as dos planos de saúde, das seguradoras e tantas outras, pouco se lixando para o interesse dos consumidores. O que explica a quantidade enorme de ações na justiça contra elas, tanto por parte dos consumidores como de entidades de defesa do consumidor, como o Proteste e outras. Que se tire as raposas de todos os galinheiros do país, é o mínimo que se pode exigir deste novo governo, se este quiser que a economia realmente volte a crescer, livre dos parasitas que a vem dominando por décadas. A começar pelos parasitas bancários..

Será que Bolsonaro e Paulo Guedes tem coragem de mexer nisso? Ou será que, trocando o petismo pelo bolsonarismo, quem vai continuar mandando no país serão os bancos e as grandes corporações? Mais do que “despetizar” o país, é preciso “desbancarizar”.

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ANTONIO SILVIO LEFÈVRE –  é sociólogo (Université de Paris),  editor e livreiro. Interpretou Pedrinho na 1ª adaptação do “Sítio do Pica-pau Amarelo” para a TV, em 1954.

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